Prologo
Me vejo sobre uma árvore muito alta, mas com galhos próximos a ela garantindo uma travessia segura. Como em todas às vezes, desço rapidamente olhando para todos os lados. Sei que há um homem em algum lugar na beira do lago, envolto na escuridão e vestindo um casaco com capuz. Ele segura um pedação de p*u, o mesmo que ele usou para agredir a moça caída logo abaixo de onde estou. Desço rapidamente como das outras vezes, mesmo sabendo que acabarei ferida. Um pedaço de galho pontudo rasga a pele do meu antebraço direito, fazendo o sangue descer e manchar meu vestido. Ignoro a dor, caindo de pé ao lado do corpo da jovem mulher. Mesmo sabendo que ela está morta, toco sua pele fria e viro seu corpo caído de lado. Seus olhos são como vidro, enevoados pelo vazio que os preenche. Sua face pálida é pintada com o sangue que escorre de sua cabeça e se espalha em torno, ensopando os cabelos negros. Faço uma careta de horror ao pisar no líquido gosmento.
Assustada, me ergo dando passadas para trás. Tento suprimir grito levando minhas mãos até minha boca, mas é tarde demais. O homem que se afastara após agredir a moça, encara meu olhar da beira do lago.
— Kyera, sua pirralha! – Ele grita com a voz muito zangada. – Eu vou matá-la, sua encrenqueira!
A voz que ecoa é conhecida minha, porém, não sei dizer a quem pertence. Seu rosto está encoberto pela escuridão e o capuz cobre boa parte de seus cabelos. Consigo dizer apenas que ele possui cabelos claros, pois, algumas mechas se iluminam com a claridade momentânea da lua. Ele joga o pedaço de pai no lago, então sorri friamente e começa a caminhar em minha direção. Sem pensar, dou meia-volta e corro na direção da estrada, não muito longe de onde eu estou. Ela fica subindo uma leve inclinação, por entre as árvores e leva até a centro da cidade. Ouço o homem bradar meu nome e sua voz ecoa não muito distante. Aperto o passo, correndo ainda mais rápido na esperança de não ser alcançada. Meu coração bate com força e o medo cresce dentro de mim conforme ele esbraveja, soltando rosnados.
Como o mais rápido que posso, até que vejo a pequena inclinação entre as árvores se aproximar. Começo a subir a inclinação, escorregando nas folhas secas. Entro em pânico quando sinto a mão enorme puxar os meus cabelos com força. Solto um grito virando rapidamente e tento soltar. Encaro o brilho do canivete que se ergue no ar com meus olhos arregalados e solto outro grito ao me debater. Meus cabelos enfim se soltam de sua mão, então dou alguns passos para trás, me esquivando do golpe. O canivete ainda acerta meu abdome rasgando o vestido. Caio sentada no chão e, aproveitando um segundo de distração do meu algoz, acerto um chute em sua canela direita. Isso faz com que ele perca o equilíbrio, me dando a oportunidade de empurrá-lo com força. Aproveitando que ele cai rolando pelo terreno de terra, bradando inúmeros palavrões, eu levanto do chão rapidamente e corro desesperada pela campina até a estrada.
Assim que alcanço a via, vejo o farol de um carro surgir na curva à distância, indo em direção a cidade. Desesperada, me jogo na frente do veículo pedindo socorro. A caminhonete azul freia alguns centímetros de distância. Um homem desce zangado e vem em minha direção. Assim que me vê, ele arregala os olhos com pavor. Não consigo ver o seu rosto e tão pouco sei o seu nome. Cambaleante, vou ao seu encontro dele com uma das mãos em cima do abdome e a outra no corte do braço.
— Socorro!
Minha voz fraca soa desesperada e trêmula cortando o ar frio com um sussurro. Antes que eu o alcance, o homem dá algumas passadas e me ampara quando vou ao encontro do chão.
— Meu Deus, menina! O que houve com você? – Ele pergunta ao me avaliar.
— Eu…
Estou tão assustada que m*l consigo formular uma frase.
— Venha! Eu a levarei até o hospital da cidade.
Ele me ergue no colo e caminha comigo até o caro, me colocando no banco do carona e afivelando o cinto.
— Fique calma! – Ele sussurra. – Você ficará bem, eu prometo!
Tirando meu cabelo dos olhos, ele sorri com simpatia. O gesto traz conforto e eu assinto para ele. Sem demora, ele corre para o lado do motorista e entra no carro.
— Eu devia… – Ofego par causa da dor, então começo a chorar. – Eu devia ter obedecido minha mãe e ter ido ao parque como combinado. Por que eu tinha que fugir? Por quer tive que ser tão levada?
Choro copiosamente enquanto embalo meu corpo para frente e para trás. Antes que o homem pusesse o carro em movimento, um par de mãos agarra meus braços.
— Pensou que poderia escapar de mim?
Solto um grito de pavor, então ele me puxa para fora do carro e me leva para o fundo da escuridão da floresta.