CAPÍTULO 07 - CASTELO DE CARTAS

3194 Words
SEIS MESES DEPOIS KAYLA WILLIAMS Eu já estava em cima da hora, quando saí da Reserva. Precisei deixar algumas coisas para minha mãe e Jakob, mas acabei perdendo a hora com a dona Elena e com minha mãe. Preciso dizer que dona Esmee Williams ainda estava um pouco desconfiada de Bruce, mas era mais por conta do meu péssimo histórico com homens do que por ele. Nesses seis meses, em quase todos os domingos nós almoçamos na Reserva, com minha mãe, meu filho e alguns vizinhos. Bruce se mostrou prestativo ao consertar o telhado do quarto de Jake, que quebrou após um galho pesado de árvore cair por cima da casa, Jakob gostava de brincar com ele e os dois pareciam se entender bem. A terapeuta de Jake até afirmou que ele estava evoluindo muito mais e se dispôs a trocar sua medicação para algo mais leve, já que suas crises estavam muito mais controladas e quase não aconteciam. Isso era bom! Mostrava que eu estava, pela segunda vez, fazendo algo bom para o meu filho — a primeira vez foi quando eu deixei minha mãe ficar com ele. Depois de dona Elena insistir que sentia muitas coisas boas com relação ao Bruce e a mim, minha mãe até relaxou um pouco, mas uma frase que ela disse hoje, quando cheguei na Reserva, me deixou um pouco pensativa. Dias bons e ruins, todos têm. Vocês serão muito felizes juntos, mas precisarão perder tudo o que conquistaram separados. Que, diabos, isso significava? O que eu havia conquistado? Meu carro é uma relíquia do meu pai, meu apartamento é alugado, eu trabalho à noite num clube adulto. O que eu poderia perder? Sentindo que me atrasaria pela terceira vez seguida, no mês, acelerei e cheguei perto do limite de velocidade da rodovia, buscando uma maneira de chegar mais rápido no Olympus e evitar que Khloé tivesse motivos para gritar comigo de novo. Ela, assim como minha mãe, era outra que tinha desconfianças com relação ao Bruce. Primeiro ela surtou ao saber que ele era um detetive da polícia, depois por reconhecê-lo da investigação do homicídio de Louise e de seu cliente. Agora ela vive dizendo que eu estou ocupada demais, distraída demais e deixando a desejar. Meus atrasos têm explicação. Bruce é detetive e, por mais que Heaven’s Gate seja uma cidade relativamente pacífica, alguns casos demandam tempo demais dele. Ele trabalha de dia — às vezes de noite também — e eu trabalho de noite. Quando um está dormindo, o outro está trabalhando. Há um claro conflito de agendas, às vezes, mas não é como se eu faltasse o trabalho para vê-lo. Eu jamais faria isso, até porque meu sustento vem do Olympus. — Querida? — Bruce perguntou quando eu atendi o telefone — Amor, estou na estrada. — digo — Saí da Reserva tarde, estou em cima da hora. Khloé vai me xingar tanto. — Vou passar lá e dizer pra ela que você já está a caminho. — ele diz — Andrew e Rebecca nos convidaram para jantar com eles no domingo. Eles queriam no sábado, mas eu disse que esse é o dia mais agitado no seu trabalho e eles compreenderam. — Tudo bem, a gente vai. — confirmo — Gosto deles. Parecem boas pessoas. — Você não está usando o atraso como desculpa para correr, está? — Eu jamais faria isso. — digo pesando mais o pé no acelerador, vendo que eu estava na exata velocidade permitida na via — Só se eu não te conhecesse, Kayla. — ele debocha — Eu sei que você se sente no seu próprio ‘Velozes e Furiosos’ quando está nessa rodovia. — Que graça tem dirigir um clássico desse e não arriscar? — brinco e o ouço rir — Por favor, tenha cuidado. — pede — Eu sempre tenho. — digo desacelerando um pouco — Te vejo mais tarde. — diz — Vou desligar antes que eu mesmo tenha que te aplicar uma multa por dirigir falando no celular. — Isso é o que eu ganho por namorar um policial. — ri — Eu te vejo depois. Se cuida! — Beijos! Desligo a ligação e jogo o celular no banco do carona, ao meu lado. Vejo a curva rotineira ao longe e paro de pisar no acelerador, usando o freio para reduzir. Para a minha surpresa, o veículo não reduz. A curva chega mais rápido do que deveria e, sem conseguir reduzir, perco o controle do carro, sentindo o automóvel se perder na pista e capotar em direção ao matagal que circunda a ribanceira. Nas primeiras duas voltas completas, eu estou consciente, mas depois tudo não passa de um borrão. Quando o carro para, ancorado em uma árvore que o impede de descer pela ribanceira e me m***r, ouço gritos e o barulho de freadas. Com os olhos sem foco, vejo a sombra de uma mulher pelo vidro quebrado, mas estou de cabeça para baixo e não sei dizer se é real. Eu tento me manter acordada, mas a queimação em meu tórax é demais pra mim. Apago. BRUCE CARTER Estiquei as costas, sentindo minhas juntas estalando e meu corpo se aliviando depois de duas horas sentado digitando uma penca de papelada de casos do mês. Olhei o relógio em meu pulso e percebi que já passavam das dez da noite e, a última vez que falei com Kayla, foi às sete e meia. Ela deve ter chegado e ido direto para a boate, a fim de evitar confrontos com Khloé Rousey. — Vai ao Olympus ver sua amada hoje? — Andrew me olha enquanto eu visto minha jaqueta — A intenção é essa. — digo — Vou com você. — ele se levanta, pegando seu blazer Rebecca foi visitar os pais na mesma reserva que Jakob e senhora Williams moram, talvez só retorne amanhã. — Eu te convidei? — implico — Sim, todas as vezes nos últimos seis meses. — faz careta rindo — Vamos, tô precisando tomar umas. Depois de bater cartão, chegar ao Olympus foi rápido e o lugar estava muito movimentado. Peço para Andrew deixar a arma no carro, já que essa é a nova política da casa e ele faz, sem apreciar muito a ideia. — Kira, já curou a ressaca? — pergunto na porta, rindo, mencionando a última vez em que Kayla e eu saímos com amigos Algumas meninas da boate nos acompanharam, assim como alguns colegas da delegacia. Kira estava entre elas e bebeu tanto que passou a noite roncando no sofá de Kayla. Ela parece se surpreender ao me ver. — Você está aqui? — ela franze o cenho — Kayla veio com você? — Como assim? — é a minha vez de franzir o cenho — Kayla estava na Reserva. Eu avisei pra Khloé que ela já estava chegando. — Ela não tá aqui não, Bruce. — Kira avisa — A Khloé tá soltando fogo pelas ventas, porque está quase na hora do show principal começar. — Como assim? — Calma, parceiro. — Andrew apóia a mão no meu ombro — Liga pra ela. — Eu tentei antes de sair da delegacia. — digo — Ela não atendeu, pensei que já estivesse aqui. — p**a m***a! — Kira resmunga — Será que aconteceu alguma coisa? — d***a. — resmunguei saindo da entrada da boate — Calma, Bruce, respira. — Andrew tenta me acalmar — Vocês estão juntos há seis meses, não sabe de algum lugar que ela possa estar? Seis meses. Essa afirmação faz meu sangue gelar e meu estômago embrulhar. Seis meses é o tempo que Elizabeth demora pra agir contra mim e, agora, não vai ser diferente. Essa v***a está viva! — Cheque todas as unidades. — digo — Quero saber se houve algum acidente na rodovia que leva até a Reserva, no sentido Heaven’s Gate. — Eu vou dar alguns telefonemas. — meu parceiro diz pegando seu celular A espera me faz quase abrir um buraco no chão do estacionamento, de tanto que ando de um lado para o outro. Decido ligar para Martha e deixá-la a par da possível situação. — Oi, cunhado! — Susan me atende animada — Um segundo, Martha está cozinhando. — Obrigado, Sue. — passo a mão no rosto, exasperado, enquanto a ouço levar o celular para minha irmã — Mano? — ouço sua voz — Martha, aconteceu alguma coisa com a Kayla. — digo nervoso — O que? — se choca — Como assim? — Elizabeth está viva, Martha, eu sei! — sinto meus olhos arderem — Ela fez alguma coisa com a Kayla! Em minha frente, Andrew me olha ao desligar sua ligação. — Irmão, se acalma. — Martha pede — Me explica direito. O que aconteceu? — Sinto muito, irmão. — Andrew diz me encarando — Ela está no hospital geral da cidade. Vamos! — Bruce, o que está acontecendo? — Martha pergunta preocupada — Me encontre no geral. — digo e desligo a ligação *** O hospital tinha alguns oficiais de prontidão e, enquanto Andrew conversava com eles para saber mais sobre a cena do acidente, eu esperava impacientemente o fim da cirurgia de Kayla, que havia sofrido um rompimento do baço, além de um grave traumatismo craniano. Eu não tive cabeça para ligar para a mãe dela, mas o hospital se encarregou de fazer isso. Não sei se ela está a caminho, não consigo pensar em muitas coisas agora. Minha mente roda e roda, mas sempre pára no rosto diabólico de Elizabeth, quando ela sabotou o carro de Ashley, fazendo-a ficar paraplégica. Dessa vez, Kayla ao menos não corre o risco de perder o movimento das pernas, mas a hemorragia causada pela ruptura do baço junto com os traumas na cabeça, podem ser fatais se não forem controlados nas próximas vinte e quatro horas. — Bruce? Ergo a cabeça e encontro Martha e Susan entrando na sala de espera. Minha irmã caminha até mim com os braços abertos e me ampara, quando me jogo em seus braços, sentindo um choro silencioso tomar conta de mim. Enquanto ela me abraça, Susan acaricia meus ombros, murmurando palavras de conforto, dizendo que ela vai ficar bem. — O namorado de Kayla Williams? — ouço alguém perguntar Me solto da minha irmã e limpo o rosto, encarando o enfermeiro que estava acompanhando a cirurgia. — Sou eu. — digo — A senhorita Williams está bem, a cirurgia foi considerada um sucesso. — avisa — Conseguimos conter a hemorragia, porém ela precisa ficar em observação. — Ela tá acordada? — pergunto — Não, ela não esteve consciente nas últimas quatro horas. Parte disso é culpa do sedativo, mas também pelo traumatismo no crânio. — explica — Nós vamos mantê-la na unidade de tratamento intensivo e monitorá-la de perto, pelas próximas quarenta e oito horas. — Quarenta e oito? — Susan franze o cenho — Sim. — confirma — Após as vinte e quatro horas da cirurgia, nós suspenderemos o sedativo e esperaremos que ela reaja sozinha por mais vinte e quatro. — explica — O médico que realizou a cirurgia logo irá conversar com vocês e explicar melhor os detalhes. — Eu posso vê-la? — o olho — Ela não pode receber visitas ou ficar com um acompanhante, mas iremos liberar alguns minutos para que os familiares a observem de longe, pelo vidro. — diz atencioso — Com licença. — se afasta — Pelo menos ela ainda está respirando. — Martha diz — Vai ficar tudo bem, Bruce. — Foi a Elizabeth. — afirmo — Eu tenho certeza. — Bruce, a quantidade de sangue encontrada na casa de vocês, aquilo não é normal. — Susan tenta me acalmar — As chances dela ter resistido aos ferimentos são mínimas. — São mínimas, mas existem. — rebato — Se é que ela estava machucada mesmo. Ela continua me observando, ela quer me enlouquecer. Quer jogar comigo, me fazer pagar pelas vezes em que fui fraco e a traí. — Isso não faz sentido algum e você sabe disso, Bruce. — Martha me encara — Se disser isso a alguém, a possibilidade de tudo virar contra você de novo é grande. — Eu não estou nem aí se vou virar alvo de novo. — a encaro — Eu só preciso me certificar de que aquela psicótica não machuque a Kayla. — E se for alvo, como vai deixá-la segura, hein? — estreita os olhos — Pensa, cara! Eu sei que é difícil, num momento como esse, mas eu preciso que você fique calmo e racional. — Bruce! — ouço me chamarem Andrew entra na sala de espera ao lado de uma mulher. Ela carrega um distintivo de detetive na cintura. — Essa é Magdalene Jones. — ele diz — Ela é a responsável pela investigação do acidente. — Ótimo. — digo e ela me estende a mão para um cumprimento — Detetive Jones, o que sabemos até agora? — pergunto apertando sua mão — Detetive Carter. — acena apertando minha mão — Os peritos estão reexaminando o local do acidente. O carro foi destruído. Capotou e foi amparado por uma antiga e forte árvore, o que impediu que a senhorita Williams viesse a óbito. — conta quando separamos as mãos — O que sabemos até agora é que ela estava em velocidade regular e não conseguiu reduzir a tempo, fazendo o carro capotar ao chegar na curva. — Falha mecânica? — pergunto direto — Isso ainda precisa ser estudado, mas um dos cabos estava danificado. Eu preciso fazer algumas perguntas. — Faça. — digo — O detetive Stone me disse que o senhor é namorado dela. — Eu sou. — garanto — Saberia me dizer onde eu poderia encontrar os documentos do carro? — me olha — Revisão, manutenção. — Ela tem tudo numa pasta, no apartamento dela. — digo — O carro dela saiu da oficina há algumas semanas com o aval da revisão, estava tudo certo. Ela pega a estrada quase todo dia, com o filho,  gosta de ter certeza que estarão seguros. — É bom saber. — comenta — Mas eu vou precisar dos documentos, você sabe como tudo funciona. — Claro. — digo e me viro para a minha irmã e minha cunhada — Uma de vocês pode acompanhar a detetive Jones até o apartamento da Kayla? — Eu vou. — Susan se prontifica — Me dá a chave, diz onde tá e eu faço. — Certo, obrigado. — puxo o molho de chaves do meu bolso e retiro a cópia da chave do apartamento de Kayla do chaveiro — Tem um aparador na parede do quarto, ao lado da porta. Na gaveta, você vai encontrar uma pasta azul, que é onde os documentos do carro ficam. Lá também tem cópias autenticadas de outros documentos que a detetive possa precisar. — explico entregando a chave — Podemos ir no meu carro. — Jones diz — Bom, então vamos. — Susan diz tomando o caminho para sair — Obrigada, detetive Carter. — Jones agradece e sai, junto com minha cunhada — Como é que ela tá? — Andrew pergunta — Vai ficar em observação. — digo andando de um lado para o outro — Eles contiveram a hemorragia, mas ela precisa de tempo pra se recuperar dos traumas no crânio. — minha irmã explica melhor — Isso é um bom sinal. — Andrew apóia a mão em meu ombro, me fazendo parar de andar feito um maluco — Ela é forte, vai passar por essa. — Aquela filha da p**a. — rosno — O que? — Andrew me olha confuso — Ele não está falando da Kayla. — minha irmã diz — Só está nervoso. — Tem alguma coisa que eu possa fazer por você, parceiro? — Promete não perguntar nada agora? — o olho — Tudo bem, prometo. — Eu preciso de, pelo menos, dois dos melhores oficiais para ficar de prontidão aqui. Protegendo a Kayla. — digo — De preferência, à paisana. Andrew estreita os olhos na minha direção. — Você acha que tem alguém que quer machucar a Kayla? — Você me prometeu que não faria perguntas. — Tudo bem, eu faço. — garante — Tenho algumas pessoas em quem posso confiar. Vou falar com eles agora. — diz pegando seu celular e se afastando — Bruce! — ouço me chamarem Entrando feito um furacão na sala de espera, Esmee Williams me encara num misto de desespero e raiva. — Onde é que a minha filha está? — Esmee, ela está no tratamento intensivo. — digo — Tá em observação. A cirurgia do baço foi um sucesso, mas ela precisa de tempo pra se recuperar e reagir aos traumas da cabeça. — Ai, meu Deus! — ela leva as mãos ao rosto — Calma, senta aqui. — minha irmã a guia até a cadeira — O que aconteceu? — O carro dela capotou na curva e quase caiu da ribanceira. — Eu disse pra ela não correr. — ela ofega — Disse pra tomar cuidado, Khloé podia esperar. — Ela estava em velocidade regular, Esmee. — comento — Houve falha nos freios. — O carro dela m*l saiu da revisão. — franze o cenho — Como pode ter tido uma falha nos freios? — É o que a perícia está checando. — digo — Susan levou a detetive responsável pela investigação no apartamento da Kayla, pra buscar os documentos que comprovam a revisão. — Eu só quero que a minha filha fique bem. — ela diz se desmanchando em lágrimas e sendo amparada pela minha irmã — Queremos todos, Esmee. — minha irmã murmura acalentando minha sogra — Queremos todos. *** Eles suspenderam os remédios, após as primeiras vinte e quatro horas. Eu não me lembro de ficar agoniado assim com alguém desde quando Martha precisou operar o apêndice. Ver Kayla tão calada, tão pálida e frágil acabou comigo. Meu emocional foi pro saco e eu quase perdi tudo, gritando aos quatro cantos que minha ex é maluca e se fingiu de morta esse tempo todo. Como eu queria poder fazer alguma coisa, como eu queria que ela não fosse tão perfeita e meticulosa ao ponto de não deixar rastro, queria qualquer coisa que pudesse corroborar com o que eu dissesse e colocasse uma força tarefa atrás dela. Nada me tira da cabeça que Elizabeth está por trás disso. Ela esteve me vigiando pelo último um ano e meio. Ela está na dianteira, pode estar nos observando agora. — Carter. — atendi a ligação quando meu celular vibrou, me afastando de Martha, Susan e Esmee — Carter! — disse mais firme ao não ter resposta A linha estava muda, o que me causou um arrepio gelado. Eu não estava gostando nada disso. — Alô? — disse mais alto Sem resposta, desliguei a ligação. Meu celular vibrou de novo, mas dessa vez com uma mensagem anônima. Eu sou a única princesa do seu castelo de cartas Nosso reencontro já está marcado Encarei as três mulheres que se consolavam enquanto esperavam por boas notícias e depois encarei cada rosto naquela sala de espera, me certificando que nenhum deles era o de Elizabeth. Ela começou a caçar.
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