BRUCE CARTER
Abri o porta-malas do carro e peguei a caixa maior, com mais peso. Susan deu alguns tapinhas no meu ombro e eu ri, vendo-a pegar outra caixa menor. Minha relação com Martha, minha irmã mais velha, sempre foi muito estreita. Nós sempre fomos cúmplices, confidentes e sempre protegemos um ao outro. Eu fui o primeiro pra quem ela contou que era bissexual, ela me protegia do cinto do meu pai, quando ele me achava um molenga. Ela sempre foi a menininha do papai e eu sempre fui o bebezão da mamãe, mas meu pai parou de falar com ela depois que descobriu sua orientação s****l. Graças a Deus, ele e minha mãe se separaram, mas eu precisei segurar a barra da Martha. Ela sentiu e ainda sente muito a falta dele.
Minha cunhada, Susan, chegou como uma nova chance para Martha ser feliz. Se conheceram numa feira artesanal, em Nova York, onde Susan vendia objetos de barro e minha irmã passava feito um furacão com seu falecido cachorro, Doug. Desde então, elas não se abandonam mais. Susan, diferente de Elizabeth, compreende minha relação com a minha irmã. Ela até sugeriu que as duas se mudassem pra Heaven’s Gate comigo, para ajudar na minha segunda chance. Gosto de tê-las por perto. Torna tudo menos solitário.
— Padre Paulo. — minha irmã sorriu ao cumprimentá-lo, enquanto Susan e eu entrávamos na igreja com as caixas de doações — Trouxe doações.
— Ela quer dizer que nós trouxemos. — Susan a corrige, chamando a atenção do padre
— Oh, eu fico muito agradecido pela ajuda de vocês. — o padre sorri — Coloquem aqui, sobre este banco. — indica
— Como quiser. — digo largando minha caixa no banco, assim como Susan
— Padre, a gente pode conversar sobre minha barraca de artesanato no bazar desse mês? — Susan o olha
— Ah, claro. — o padre a olha — Vamos à sacristia, preciso te entregar os honorários.
— Me esperem aqui. — Susan pede ao sumir na igreja, com o padre
— Eu deveria estar salvando vidas, sabia? — sento no último banco da igreja, encarando minha irmã
— Carregar caixas com sua irmã e sua cunhada não é tão divertido quanto salvar o filho da stripper que você gosta? — Martha me olha divertida
— Não diga a palavra com ‘s’ dentro de uma igreja católica. — franzo o cenho — Já sinto o cheiro das chamas.
— i****a. — ri — Mas e aí, como você está com relação à ela? Zona da amizade?
— Eu não diria que somos amigos não. — faço careta — Eu sou só o cara que salvou o filho dela.
— Já vale muito. — murmura — Escuta, por que você não a chama logo pra sair, ao invés de ficar se masturbando relembrando do show dela?
— Estamos tendo essa conversa dentro de uma igreja? Ah, nós vamos pro inferno juntos.
— Até nisso. — sorri — Mas eu tô falando sério.
— Eu já chamei, mas ela trabalha de noite e eu trabalho de dia, então, como faço isso? — a olho
— Dá um jeito, oras. — dá de ombros — Ela não trabalha sete dias na semana, né?
— Até agora, tudo o que eu sei é que ela tem folga nas terças, porque foi quando salvei o filho dela.
— Isso é mole de resolver. — diz — Você tem duas opções, pode esperar até a próxima terça-feira e forjar um encontro, depois de persegui-la pela cidade feito um maníaco.
— Essa ideia é péssima. — faço careta
— Ou você vai naquele clube hoje, chama ela pra conversar, pergunta quando vocês poderão sair e pronto.
— Não é estranho sair com alguém depois de…
— Depois da sua mulher sumir, deixando um banho de sangue na sua casa? — complementa — Não, não foi você.
— Eu sei disso e você sabe disso. — digo — E se ela souber disso? É só olhar na internet.
— Eu sei disso e a justiça também sabe.
— Não, eles só me descartaram por falta de corroboração, mas eu posso voltar pra berlinda a qualquer momento.
— Se voltar, a gente vai cuidar disso. Você é inocente. — me encara — E se essa mulher descobrir, precisa deixar você falar e expressar a sua verdade. Se ainda assim, ela não acreditar em você, então não te merece.
— Você faz parecer tão fácil.
— É você quem faz parecer difícil.
Com Martha era sempre assim, fácil. Ela costuma dizer que quando se ama de verdade, é fácil.
Eu não penso assim.
O amor dificulta as coisas.
***
A boate estava bonita e bem adereçada, como na outra noite. Dessa vez, a máscara não foi necessária e eu pude reconhecer alguns homens importantes da cidade. O subsecretário do gabinete do prefeito, o secretário do subchefe de polícia, alguns empresários. Todos pareciam estar ali com amigos e eu, mais uma vez, estava sozinho.
De novo, sou auto suficiente ou solitário?
Eu ainda não sei como responder.
A bartender do outro dia não está, o que me surpreende. Dessa vez, a própria Kayla está servindo bebidas, enquanto usa uma máscara azul marinho. Ela está sorrindo, debruçada sobre o balcão, enquanto conversa com uma mulher de longos cabelos pretos e olhos verdes. Ela é linda, mas eu só consigo focar em Kayla, que parece distraída. Me sento ao balcão, um pouco afastado, observando de longe. A mulher está usando um terno feminino caro, sob medida e que lhe cai muito bem. Ela não tira os olhos das curvas de Kayla dentro de um vestido de cetim curto.
— Como posso ajudá-lo? — uma outra mulher sorri pra mim ao se aproximar
— Uma cerveja. — peço — Acabei de chegar.
— Ok, bonitão.
Sou servido, mas ainda observo Kayla conversando com a mulher estranha e bonita, sem nem perceber minha presença. Eu bebi um gole da cerveja e vi a mulher aproximar seu rosto do rosto dela, tentando um beijo. Estreitei os olhos e vi Kayla se afastar, puxando um pano debaixo do balcão e limpando no mesmo.
É então que ela me vê.
Kayla sorri e fica um tempo me encarando, até que a cliente siga seu olhar e se depare comigo. Ela parece frustrada, mas deixa uma boa quantia no balcão e se levanta da banqueta, caminhando na minha direção. Ela me encara por alguns segundos, fazendo-me romper o contato visual com Kayla e encará-la.
— Aproveite o papo, amigão. — dá dois tapinhas no meu ombro — É tudo o que vai conseguir dela.
A mulher sai e eu volto a olhar para Kayla, que já está perto de mim, sorrindo.
— Veio ver o show da Camila? — pergunta
— Na verdade, pouco me importa o show da Camila. — digo — Eu vim ver você, mas parece que arruinei a noite com sua companhia.
Ela ri.
— Laura? — franze o cenho — Não, ela é cliente há uns dois anos. A gente sempre troca uma ideia.
— Pensei que só dançasse.
— Converso com ela, de vez em quando. — dá de ombros — Não é chata e inconveniente como os homens que costumam vir aqui. Por isso eu só converso com ela.
— E está conversando comigo agora. — sorri de lado, bebendo minha cerveja
— Ah, mas isso eu topo fazer de graça. — sorri apoiando os cotovelos no balcão — Gosto da sua companhia.
— Gosta? — franzo o cenho — Eu tô falando com a Nancy ou com a Kayla, agora? Você me deixa confuso.
— Como?
— Parece sempre disposta a flertar comigo, mas depois me chuta pra longe. Não sei se isso é pra me encorajar ou só você jogando comigo.
Em silêncio, ela leva as mãos até a parte de trás da cabeça, desfazendo o nó que prende a máscara em seu rosto. Ela me encara, pouca maquiagem, o rosto livre.
— Estou na sua frente, Bruce. — me olha nos olhos — Trabalho numa boate, tenho trinta e dois anos, um filho e uma mãe que dependem de mim, financeiramente. Não tenho tempo pra jogos. Se quiser jogar, arrume outra.
Encerrando o assunto, ela coloca a máscara de volta no rosto e se afasta, saindo do bar e entrando nos bastidores da boate, onde os clientes não têm acesso.
Termino minha cerveja e tomo mais algumas, esperando o encerramento da noite. Depois de pagar minha conta, espero no estacionamento, dentro do meu carro. Vejo o lugar esvaziar aos poucos, até restar apenas o Impala de Kayla e o meu Altima 2012 no estacionamento. Perto das duas e meia da manhã, eu a vi saindo pela porta lateral, usando um casaco longo e carregando sua bolsa grande. Eu saio do carro e caminho até ela, vendo-a sorrindo enquanto conversa com uma das meninas.
— Detetive Carter. — ela estreita os olhos ao me olhar — Aconteceu alguma coisa?
— Eu esperei aqui, porque preciso falar com você.
— Não pode esperar até amanhã? Vou dar uma carona para Sally.
— Eu posso pedir um carro no aplicativo. — Sally diz depois de dividir os olhares entre mim e ela
— Eu posso pedir para o oficial que está fazendo ronda te levar pra casa, se quiser. — ofereço
— Não vai ser necessário, detetive. — Sally n**a — Obrigada. Até amanhã, amiga.
A morena de cabelos curtíssimos se afasta, indo embora, deixando apenas nós dois no pátio m*l iluminado. Kayla encosta no carro e cruza os braços, me encarando.
— E então? — pergunta
— Eu não preciso de jogos. — me aproximo dela, diminuindo o espaço entre nós — Você não sai da minha cabeça desde o dia em que consertou o meu carro, naquela estrada.
— Você o levou na oficina?
— Não, acho que você pode me salvar, caso aconteça de novo. — ponho as mãos em sua cintura
Olhando-a nos olhos, a puxo para mim, colando nossos corpos e aproximo nossos rostos, compartilhando a respiração. Ela me abraça e se estica, erguendo a cabeça e unindo nossos lábios. Demoro a perceber o que acontece com meu corpo, quando nos unimos. Meus dedos ficam gelados, o coração acelera e o tempo parece parar. Kayla afasta o rosto e me encara, tentando decifrar minhas feições.
Subo uma das mãos para sua nuca e dou início a um beijo de verdade, sentindo o desejo me consumir quando nossas línguas se juntam.
Meu sangue ferve feito lava nas veias.
KAYLA WILLIAMS
Desliguei o carro, recolhi as sacolas do banco do carona e desci do veículo, não me preocupando em trancá-lo. A vila estava mais calma graças ao horário, pelas crianças estarem na escola, que fica próxima à estrada principal.
Subi os degraus de madeira e entrei na casa, notando que a mesma estava vazia. Minha mãe não estava em cômodo algum. Deixo as compras na cozinha e saio pelos fundos, parando na varanda de trás e observando que o cachorro da vizinha está correndo pelas flores que minha mãe e Jakob plantaram. Eles vão ficar uma fera.
— Popeye, não! — vou atrás do cachorro, o assustando — Popeye!
O cachorro sai correndo de volta para sua casa e eu acabo rindo, enquanto o sigo. Elena Norman ralha com o bicho, enquanto o prende na coleira e eu entro na propriedade, me aproximando dela.
— Menina Kayla! — ela sorri ao me ver — Está tão bonita.
— Obrigada, dona Elena. — sorri — Onde está minha mãe?
— Foi dar um pulo no centro, rapidinho. Ela logo estará de volta. Jakob sai mais tarde da escola, hoje.
— Entendi.
— Vem comigo. — segura minha mão e me puxa para sua varanda, onde a mesinha de centro tem duas xícaras, um bule e biscoitos — Acabei de fazer um chá.
— Então a senhora sabia que eu viria. — me sento em uma das cadeiras de balanço
— Eu senti você. — sorri me servindo uma xícara e se sentando na outra cadeira de balanço
Se ela me sentiu, algo está por vir.
— Tem um homem bonito e amargurado na sua vida e, desta vez, eu não estou falando do pai de Jake. — começa
Ah, não!
Outro amargurado é tudo o que eu não preciso.
— O rapaz que veio aqui ontem? — a olho após beber um gole de chá
— Está mexendo com a cabeça de um homem mais maduro, Kayla. — avisa — Precisa ter certeza do que quer.
— Ele é perigoso?
— Não. — me olha sorrindo — Com certeza não.
— Mas a senhora disse amargurado. — ergo uma sobrancelha
— Ele é um homem bom, filha. — suspira — Porém, está preso em uma teia pegajosa.
Fico em silêncio para pensar, mas não consigo ligar os pontos.
Me balanço na cadeira e tomo mais um gole de chá.
— A gente sempre se esbarra. — comento
— Coincidência não é. — ri fraco
— O que eu faço?
— Conselho? — me olha e eu confirmo — Aproveite os encontros.
***
Aproveite os encontros.
Foi com essa frase na mente que eu me permiti dar um fim aos flertes sem resultados e ir direto para a ação. Bruce me envolveu com seus braços fortes e apertou minha b***a com suas mãos enormes, acendendo em mim a chama da paixão e do desespero. No meu apartamento, nós entramos esbarrando no aparador e derrubando a cesta de jornais. Jogando minha bolsa e meu casaco no sofá, eu o coloquei contra a parede e apalpei sua cintura, sentindo sua arma e seu distintivo. Os puxei e me afastei dele, colocando os objetos na gaveta do aparador, logo retornando minha atenção para ele. Descasei os botões de sua camisa sem pressa, vendo-o me observar atenta e impacientemente. Deslizei a camisa por seus ombros e o olhei nos olhos, enquanto ele livrava os braços das mangas, fazendo a roupa ir ao chão. Ele sorriu, me pegando pela cintura e descendo as mãos pelos meus quadris, alcançando a barra do vestido e o puxando para cima, tirando-o pela minha cabeça. Por estar no bar hoje, eu não usava uma super produção íntima. Era apenas um conjunto de renda rosa com ligas e meias ⅞. Ele desceu os olhos pelo meu corpo, apreciando cada detalhe e, pela primeira vez, senti um frio na barriga, por estar diante de um homem. Bruce me deixava deliciosamente nervosa.
Suas mãos grandes moldaram minhas curvas, como se estivesse me esculpindo. Passei as mãos pelo seu peitoral, sentindo alguns ralos fios de cabelo e sua carne quente sob minhas palmas. Apesar de estar levemente fora de forma, ele ainda é definido.
— Se isso for um sonho… — ele murmura afundando o nariz nos meus cabelos, respirando fundo — Eu não quero acordar agora.
Sorri.
Segurei sua nuca e me estiquei para capturar seus lábios, fechando os olhos e me entregando aos seus braços quentes. Eu acho que nunca me senti tão segura e tão apreciada assim.
Ainda o beijando, o guiei pelas portas duplas até meu quarto, onde ele nos virou e me deitou sobre a cama, se acomodando sobre mim, seu corpo no meu. Senti sua ereção quando o puxei pra mim, fazendo seu corpo pender e pesar sobre mim. Seguro seu rosto, fazendo-o me olhar nos olhos e cruzo as pernas em sua cintura.
— Promete que quando eu acordar, você ainda estará aqui? — sussurro
— Eu prometo.