BRUCE CARTER
O ambiente estava iluminado com uma luz rosa, assim como o sofá onde eu estava sentado. Uma mulher de máscara rosa me entrega um copo de whisky e some.
— Kayla. — uma voz sussurra no meu ouvido
Kayla.
Kayla está aqui.
Balanço a cabeça para todos os lados, procurando por ela. A batida suave da música começa e ela aparece, linda, provocante e ousada, como sempre. Confiante, ela caminha até mim, usando uma lingerie rosa claro e uma máscara branca, se movimentando ao som da melodia. Surpreendendo-me, ela senta no meu colo, de frente, as pernas envolvendo meu quadril. Respiro fundo sentindo seu cheiro.
— Kayla. — seu nome sai como um gemido arrastado e desesperado da minha boca, como um desejo sombrio
— Bruce. — ela sorri
Com os olhos vidrados nos meus, ela vai perdendo o brilho aos poucos e um único disparo é ouvido. Seu corpo desfalece em meus braços, os olhos ainda fixos em mim, agora sem vida. O sangue toma conta das minhas mãos, meu coração errando as batidas. Próximo à nós, Elizabeth tem um revólver apontado em nossa direção, sorrindo de forma diabólica.
— Nem a morte nos separa, querido.
Merda!
Abro os olhos e pulo na cadeira, sentindo o suor em meu rosto e o coração acelerado feito o de um cavalo de corrida. Olho a hora no relógio em meu pulso e percebo que ainda está longe do meu expediente acabar. Andrew está sentado em sua mesa, de frente para a minha, comendo batatas chips e me dirigindo um olhar divertido. Parece que ele estava me observando, enquanto eu dormia.
— Pesadelo em quinze minutos de cochilo? — ergue uma sobrancelha, sorrindo
— O dia tá uma m***a. — me inclino até alcançar o saco de batatinhas em sua mão, puxando-o para mim
— Tranquilidade é bom. — ele dá de ombros enquanto eu pego uma mão cheia de batatas e jogo a embalagem quase vazia de volta — Educação mandou lembrança. — resmunga
— Eu te pago uma cerveja, mais tarde. — dou de ombros ao devorar as batatas de uma única vez, batendo as mãos para me livrar do farelo
— Não vai dar. — joga a embalagem no lixo, após pegar as últimas batatas — Rebecca e eu vamos jantar na cidade vizinha.
— Ah, claro. — murmuro — Vida de casado.
— Não sente falta da sua?
O olho. Seria essa uma pergunta inocente ou só um jeito de entrar no assunto proibido?
— Não. — sou sincero — A minha vida era um inferno.
— Por isso sumiu com a sua esposa? — ergue uma sobrancelha ao se debruçar na mesa, baixando o tom de voz — Pode se abrir comigo.
— Não há corpo, não há provas concretas contra mim. — o olho — Acha que fui eu?
— Não, não acho. — dá de ombros — Nunca achei, na verdade.
Isso é novo.
— Por que? — franzo o cenho
— Não sei. — parece pensar — As supostas provas são sem base verídica, os testemunhos não corroboram. Se estivéssemos em um filme, diria que o verdadeiro assassino fez isso de propósito. — me olha
— É, mas não estamos. — bufo — Essa é só a realidade fodida da minha vida. — passo a mão no cabelo
— Seu casamento não estava bom?
Droga, não quero falar sobre isso.
— Nunca foi.
— Cara, foi um casamento de sete anos. — ele ergue as sobrancelhas, assustado
— Eu sei.
— Isso é um inferno.
— Eu disse.
Encerrando o assunto proibido, perguntei se ele queria que eu comprasse algo pra ele, já que estava saindo para almoçar. Ele negou e eu saí do distrito, deixando Andrew e suas perguntas para trás.
O restaurante de culinária caseira do Carol era famoso na cidade. O tempero sulamericano era conhecido por todos e recomendado a todos aqueles que estavam visitando os portões do céu. Eu parei meu carro próximo a entrada do restaurante, mas uma movimentação do outro lado da rua me chama atenção. Um pastor alemão late, assustando um menino de, aparentemente, uns dez anos. Reconheço a mulher que tenta acalmar o garoto.
Kayla!
Ela não consegue acalmar o menino, que parece ter uma crise nervosa e corre pra longe do cachorro, indo parar no meio da rua no exato momento em que um carro está passando em velocidade irregular pela via.
— Jake, não! — Kayla grita
Eu corro na direção do menino, conseguindo pegá-lo pelos braços e, juntos, caímos por cima do capô de um carro estacionado. O carro que passava freia bruscamente, causando um barulho ensurdecedor dos pneus contra o asfalto e tudo passa como um borrão nos meus olhos. Kayla, que estava do outro lado da rua, atravessa feito um furacão e me agarra pela camisa, fazendo-me soltar o menino que chorava e tremia em meus braços. Uma pequena multidão de pedestres se acumula para nos observar.
— Mamãe. — o menino choraminga ao se agarrar à ela — Não!
— Calma, meu amor. — ela tenta acalmá-lo — Calma.
Mamãe?
Antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, o motorista que quase atropelou o menino se aproxima de nós, gritando com Kayla.
— Aprenda a segurar o seu filho! — ele grita — Olha a desgraça que aconteceria!
— Você é cego! — Kayla rebate, fazendo o filho se esconder nos braços dela
— O seu filho é que saiu correndo pro meio da rua! — ele grita de novo — Você viu, não viu? — me olha
— Em primeiro lugar, pare de gritar. — tiro o distintivo da cintura e mostro para ele — Detetive Carter.
— Ah, ótimo! Alguém com senso por aqui.
— O senhor está vendo a marca que seus pneus deixaram no asfalto? — aponto para os riscos no chão — Marcas como essas não são feitas por alguém abaixo de cinquenta por hora.
Tiro o celular do bolso, fazendo menção em chamar uma viatura, mas alguém na multidão parece ter feito esse trabalho. Dois oficiais caminham até mim, deixando sua viatura próxima ao meu carro. Mostro meu distintivo a eles.
— Detetive Carter. — eles me cumprimentam
— Cheque o radar, esse cara quase atropelou o menino. — digo — Leve-o para a delegacia.
— Sim, senhor. — confirmam — O senhor poderia nos acompanhar, por favor.
— Isso é um absurdo! — o cara contesta, mas não se opõe
— Você está bem? — me aproximo de Kayla, apoiando minha mão no ombro do menino, que se encolhe e desvia do meu toque
— Eu vou levá-lo ao pronto socorro. — Kayla diz — Ele está muito nervoso.
— Tudo bem, eu levo vocês. — me ofereço
— Não precisa, eu pego um táxi.
— Eu faço questão. — insisto
Destravo o carro e Kayla entra com o menino, sentando-se no banco de trás. No caminho, enquanto dirijo, observo os dois pelo retrovisor, notando que o menino treme feito bambu no vendaval e que ela parece verdadeiramente preocupada. Claro, eu já notei que ela é a mãe dele, e ver o filho quase ser atropelado é difícil, mas eu sinto que tem algo a mais nisso. Ele não consegue olhar nos olhos dela, parece desconfiado, tem um tique nervoso que o faz balançar as pernas insistentemente.
No pronto socorro, uso meu distintivo para conseguir um atendimento mais rápido. Após uma avaliação rápida, o médico pede para o menino arregaçar as mangas da camisa, mas ele não deixa o doutor se aproximar.
— Não. — nega
— Filho, o doutor Richards precisa examinar você, pra ter certeza de que você está bem. — Kayla tenta
— Não. — nega
— Por mais que o detetive Carter tenha dito que o pegou a tempo e que ele não bateu nada, eu preciso checar. — doutor insiste
— Desculpe, ele… — Kayla suspira — Ele tem Transtorno do Espectro Autista. Foi diagnosticado aos três anos, não gosta que encostem nele.
— Imagino que por isso a senhora esteja tão nervosa com a situação, sim? — o médico sorri gentil — Tudo bem, Jakob, eu não vou tocar você, ok? — o médico chama sua atenção — Pode, por favor, fazer assim com as mangas da sua camisa? — pergunta arregaçando as próprias mangas, para que ele imite
O menino reluta um pouco, mas sobe as mangas da blusa, mostrando o hematoma arroxeado que meus dedos deixaram em seus braços. No calor da emoção, acabei o segurando forte demais.
— Creio que essas sejam as suas mãos, detetive. — o doutor me olha
— Sim, eu… — franzo o cenho, um pouco perturbado — Eu não pensei, só corri na direção dele, o agarrei e nos joguei pra fora da rua.
— Tudo bem. — o médico diz — Isso está doendo, Jakob?
— Não. — n**a de cabeça baixa
— Eu posso medir sua pressão? — ele se aproxima com o aparelho de pressão em mãos — Eu vou só envolver seu braço com isso.
— Não. — o menino cruza os braços
— Filho, por favor. — Kayla tenta
— Ei, Jake. — o chamo
— Meu nome é Jakob. — me corrige
— Tudo bem, Jakob. — me aproximo devagar — Você não precisa ter medo.
— Não tenho medo. — ele n**a ainda sem me olhar
— E se você segurar minha mão e for apertando de acordo com o aparelho? — estendo a mão para ele
Ele parece desconfiado, mas segura minha mão e o médico se aproxima, envolvendo seu braço com o aparelho e medindo sua pressão. Como expliquei, o menino vai apertando minha mão de acordo com a pressão em seu braço e, quando o médico termina, ele afrouxa o aperto, mas não solta minha mão.
— A pressão dele está ótima. — olha para Kayla — Foi só um susto, mas peço que a senhora observe com um pouco mais de atenção. Ele pode ficar agitado, com o decorrer do dia. Mantenha sua rotina diária com ele.
— Obrigada. — ela agradece
— Jakob? — o médico olha para o menino, que observa nossas mãos unidas — Você é um menino muito corajoso, viu? Aposto que seus pais têm muito orgulho de você.
O médico plantonista pensa que eu sou o pai? Que Kayla e eu somos casados?
Há muito tempo, eu queria ter um filho. Alguém que me motivasse a acordar todos os dias e ser um cara melhor, mudar o mundo por esse alguém. Elizabeth nunca quis ter filhos. No começo, ela dizia que tinha medo da maternidade. Dizia que a experiência de uma gravidez pode ser traumatizante para uma mulher, que psicologicamente não é esse mar de rosas que as pessoas tendem a romantizar. Eu entendo isso. Me dispus a pegar um empréstimo e pagar os melhores especialistas em apoio psicológico durante o período gestacional. Coloquei a minha pressa em ser pai de lado e busquei entender de onde esse receio dela partia. Elizabeth teve uma paternidade dura. Ela, a mãe e a irmã cresceram com um pai diferente do ideal. Thomas Sullivan era um homem ausente e Donna Sullivan nunca fez nada para tentar mudar isso. Os pais de Elizabeth achavam que era mais importante estarem juntos do que como estavam, então apesar das traições e de sua péssima postura paterna, ela manteve o casamento. Em nossas conversas, no início, ela disse que achava importante manter as aparências de um bom lar, para influenciar positivamente as filhas. Apesar de achar que ela é uma mulher maluca, foi só depois que eu entendi que Thomas era a maior fonte de renda da família, então creio que talvez tenha sido mais por ela do que pelas filhas. Afinal, a irmã de Elizabeth, Olivia, tinha problemas com álcool, drogas e faleceu dois anos depois do meu casamento.
Eu sei que com esse histórico, era meio óbvio que Elizabeth fosse uma mulher com alguns problemas e desequilíbrios psicológicos, mas eu estava disposto a ajudá-la. Ela só precisava de alguém que se importasse com ela e a amasse o suficiente para apoiá-la em seus tratamentos e em sua evolução. Mas ela me enlouqueceu antes disso.
Depois de descobrir que, na real, ela não estava frequentando o psicólogo, nós tivemos uma conversa onde ela gritou, me jogou panelas e deixou bem claro que não era medo o que ela tinha, era só a falta de vontade de ser responsável por outra criatura viva. Aquilo me levou a nocaute.
— Bem, obrigada por salvar a vida do meu filho. — Kayla diz quando saímos do hospital — Ele parece estar à vontade com você.
Jakob e eu ainda estamos de mãos dadas e, apesar do menino não ter trocado muitas palavras comigo, acho que, para alguém com autismo, isso é um grande avanço. Eu sou um desconhecido para ele.
— Não sabia que era mãe. — franzo o cenho
— Você não perguntou. — dá de ombros — Filho, dá tchau para o Bruce. Precisamos comer alguma coisa e depois ir pra casa. Eu ainda tenho que buscar meu carro na oficina, mais tarde.
— Eu posso levar vocês pra comer alguma coisa e, depois, deixá-los em casa. — me ofereço — Na real, eu estava indo comer, quando o incidente aconteceu.
— Não, a gente já tomou muito do seu tempo.
— Jakob. — apelo — Eu posso me juntar a vocês hoje?
Kayla estreita os olhos na minha direção, como se reprovasse minha decisão de apelar para o seu filho. A verdade é que eu não queria deixá-los. Não queria passar o resto do dia sozinho, pensando no que aconteceu.
Jakob parece pensativo enquanto encara um pombo correndo na calçada. A resposta demora, mas vem em alto e bom som.
— Sim. — responde
— Bom, parece que eu tenho um novo amigo. — encaro Kayla com um sorriso vitorioso nos lábios
— Não tem que trabalhar? — ela põe a mão na cintura ao me encarar de volta
— Não. — n**o — A vantagem de ser um detetive sênior, é poder me ausentar sempre que extremamente necessário.
— É por isso que a segurança dessa cidade anda uma porcaria. — bufa revirando os olhos — Vamos, então. Estou com fome.
KAYLA WILLIAMS
A estrada estava iluminada pelos raios de sol do meio da tarde, o que fazia com que alguns feixes de luz refletissem no vidro do carro. A cidade de Heaven’s Gate, escondida no estado da Georgia, quase beirando o Alabama, é ensolarada e cheia de pessoas alegres, simpáticas e acolhedoras. Claro que, com um nome desses, fica fácil saber que se trata de uma cidade minúscula, quase inexistente.
Bruce dirige com cuidado, enquanto o rádio toca uma música bem baixinho. Ele tem sido muito compreensivo com meu filho Jakob, que, graças à sua condição autista, tem os sentidos muito sensíveis. Cruzando a estrada, apesar do dia ensolarado, o vento que bate contra meu rosto, pela janela, é leve e agradável. Jakob parece distraído, olhando as árvores balançando pela janela. Ele adora a natureza.
Em uma hora e meia, chegamos no interior do interior, onde a reserva Sol e Chuva fica. A estrada antiga, de terra batida, faz Bruce reduzir a velocidade e seguir mais atento ao caminho, enquanto eu o guio pela entrada da reserva. Bruce parece encantado com essa parte do lugar, parece que nem fazia ideia de que essa reserva existia. À medida em que vamos nos aproximando das casas da reserva, crianças curiosas vão aparecendo na beira da estrada, sorrindo, curiosas pelo ronco do motor. Bruce sorri acenando para elas e eu o guio até a casa da minha mãe.
— Chegamos, filho. — digo saindo do carro quando Bruce estaciona
Ajudo meu filho a descer do carro e, na varanda, vejo minha mãe conversando com a senhora Norman, na varanda da casa. Bruce desce do carro, deixando a arma e o distintivo no veículo. Sinto sua mão no meu ombro e acabo sorrindo, ao ver que a outra mão ele põe no ombro de Jakob e, ao contrário do esperado, meu filho não recua.
— Bruce gosta de carrinhos? — Jakob pergunta olhando para cima, para vê-lo
— Eu adoro carrinhos. — ele responde — Mas prefiro pipas.
— Eu gosto das rodinhas. — Jake responde — Nunca tive uma pipa. Você quer ver minhas rodinhas?
— Eu adoraria. — ele franze o cenho e me olha — Rodinhas? — sussurra para que somente eu ouça
— Ele gosta de tirar as rodas dos carros e empilhar, como numa escultura gigante. — explico rindo
— Ah, entendi. — acena
— Você promete que não vai mexer? — Jake o olha sério
— Prometo.
— Então vem.
Devagar, meu filho tira a mão dele de seu ombro e entrelaça os dedos nos dele, mostrando um voto de confiança ao cara novo. É estranho. Geralmente, meu filho não costuma ser tão amigável. Ele é mais na dele, sempre desconfiado, não gosta de muitos toques de desconhecidos. Mas ele parecia ter gostado do Bruce. Gostado de verdade.
Jakob sai arrastando Bruce pelo braço, guiando-o para a casa. Minha mãe e a senhora Norman nos encaram e, curiosamente, Norman sorri para mim, após observar Jakob e Bruce, por um tempo.
Elena Norman é uma mulher especial. Quando cheguei aqui, dois anos atrás, ela já sabia que eu chegaria e já tinha avisado minha mãe que eu me mudaria de vez pra Heaven’s Gate. Ela não gosta de ser chamada de vidente, prefere o termo sensitiva. Seus conselhos aqui na reserva são conhecidos como avisos divinos. Sempre que ela tem um pressentimento, ela está certa. Agora ela me olha como se soubesse de alguma coisa, como se sentisse alguma coisa especial com relação ao Bruce.
— Vem, vamos lá! — Jakob diz passando pela avó
— Espera. — Bruce pede — Senhora Williams, eu sou um amigo da sua filha, Bruce Carter. — oferece a mão para um cumprimento
— Esmee Williams. — minha mãe aperta sua mão, um pouco confusa
— Senhora. — Bruce acena para Elena
— Senhor. — Norman sorri gentil para ele
Jakob arrasta Bruce pra dentro de casa, provavelmente, o levando para o seu quarto, onde há uma caixa enorme cheia de rodinhas de carros. Eu subo os degraus da fachada da casa, me juntando às mulheres.
— Quem é esse? — minha mãe franze o cenho
— Ele é o detetive Carter. — suspiro — Hoje um cachorro cismou com o Jake e ele correu assustado, quase foi atropelado.
— Meu Deus! — minha mãe ofega
— Mas está tudo bem, Bruce salvou a vida dele. Nós já fomos no pronto socorro, Jakob estava um pouco agitado, mas agora está bem.
— Jake já o conhecia?
— Curiosamente, não. — n**o — Conheceu hoje e, por mais estranho que isso seja, ele parece gostar do Bruce.
— Ele olha pra você de um jeito diferente. — Elena Norman comenta
— Ah, pronto! — ri — Lá vem dona Elena com seus pressentimentos. Já aviso que o conheço há um mês e nós nem somos assim tão amigos. Nos esbarramos uma vez ou outra.
— E o que é o tempo quando se tratam de coisas do coração? — sorri cúmplice
— Não sei não. — mamãe estreita os olhos, desconfiada
***
Bruce estaciona ao meio fio da rua, em frente ao prédio simples de quatro andares. A lua brilhava no céu, a noite estava abafada.
— Está entregue. — diz
— Não precisava. — suspiro e o olho — Mas obrigada. Amanhã eu pego meu carro.
— Eu já disse que não precisa agradecer. — ele sorri — Posso fazer uma pergunta?
— Depois de salvar a vida do meu filho, acho que te devo uma. — sorri — Pode sim.
— Por que ele não mora com você?
— Morávamos eu, ele e meus pais. — digo — Depois que o meu pai faleceu, minha mãe decidiu ir pra Reserva e eu meio que deixei que ela levasse ele com ela. Durante um tempo minha vida era Atlanta e Reserva. Até que eu decidi refazer a vida aqui em Heaven’s Gate.
— Refazer? — franze o cenho — Então somos dois começando do zero.
— Somos. — confirmo sorrindo — Eu posso te fazer uma pergunta, Bruce?
— Sempre. — garante se virando para mim, apoiando um braço no volante
— Você não tá me julgando, não é? — franzo o cenho
— Por que eu julgaria você?
— Pra começar? Eu tenho um filho autista que mora com a minha mãe e sou performista em uma casa noturna.
— E isso é motivo pra julgar você? — franze o cenho — Não. Eu vi como você ficou hoje cedo, só com a possibilidade de Jakob ter se ferido. Tá tudo bem, cada um tem sua vida e sua maneira de reagir.
Sorri.
Eu esperava ser excomungada, olhares tortos, mas não. Bruce parecia realmente não se importar com nada disso.
— Sabe, eu nunca vi o Jake se dar tão bem com um estranho. Você foi muito compreensivo com ele.
— Gosto de crianças.
— Obrigada, mais uma vez.
— De nada. — sorri
Abro a porta do carro e seguro minha bolsa, pronta pra sair. Bruce segura meu cotovelo, fazendo-me virar e encará-lo perto demais.
— Pode parecer precipitado e você pode até negar, se quiser. — respira fundo — E se a gente fosse tomar alguma coisa amanhã à noite?
— Eu tenho que trabalhar. — digo e ele me solta
— Então vou te ver cantar.
— Eu não sou a principal de amanhã, mas pode ir. — dou de ombros — Espero que se divirta.