CAPÍTULO 02 - A GAROTA DO CLUBE

2897 Words
BRUCE CARTER A delegacia parecia um sub escritório da Olympus. A dona do lugar, Khloé Rousey, cumpriu sua palavra ao trazer todas as meninas para testemunharem, mas trouxe consigo um advogado porta de cadeia, daqueles que estão acostumados a fazer de tudo pelos seus clientes, sejam eles inocentes ou não. Enfileiradas feito um grupo do jardim de infância visitando o museu, cinco mulheres observavam o distrito em silêncio, mas apenas uma delas me chamou atenção. Com os cabelos cacheados soltos, usando uma calça jeans clara, uma blusa branca, jaqueta de couro e bandana no cabelo, a mulher que me salvou na rodovia, ontem, parecia estar entre as mulheres de Khloé. — Ok, vamos fazer isso separados pra ir mais rápido? — Stone sugere ao se aproximar de mim — Eu começo com aquela. — fiz um gesto sutil com a cabeça, apontando para a mulher certa — Motivos pessoais para isso? — ele franze o cenho ao me encarar — Usarei a sala dois. — ignoro sua pergunta e desço os degraus, me aproximando das meninas — Detetive Bruce Carter, eu sou um dos encarregados desse caso. Meu parceiro e eu iremos interrogar separadamente, para ganhar mais tempo. — Sendo assim, Lewis acompanhará uma e eu outra. — Rousey me encara — Também fiz direito. — Ótimo. — murmuro Tanto faz! — Você, vem comigo. — aponto para a garota da estrada Enquanto lidero ela e Khloé para a Sala de Interrogatório 2, Stone me entrega a pasta do caso e chama outra para interrogar. Na sala, as duas se sentam lado a lado e eu me sento na outra extremidade da mesa, deixando meu café de lado e abrindo a pasta, encontrando a foto da mulher ali, junto das outras. — Kayla Williams. — leio em voz alta e a olho — Agora eu sei o seu nome. — Detetive Carter. — ela diz ao se arrumar na cadeira — Poderia descrever para mim sua relação com a vítima? — Louise e eu nos conhecemos há dois anos, quando me mudei pra cidade. — conta — Ela foi a responsável por fazer com que eu me sentisse em casa, quando fui contratada pela Olympus. — Entendo. — digo lendo um resumo sobre sua vida — E como era o dia a dia de vocês duas? — Louise e eu éramos as responsáveis pela ordem nos bastidores. Basicamente, enquanto as outras ajudavam na manutenção do salão, ela e eu cuidávamos dos camarins, da setlist do show em grupo. Essas coisas. — Você conhecia Lucas Trent? — a olho — Só de vista. — dá de ombros, cruzando os braços — Ele ia buscá-la na boate, às vezes. — Jura? — estreito os olhos — Porque uma de suas colegas disse que você se ofereceu para dar uma surra nele. Kayla parece segurar o riso e Khloé revira os olhos. — Minha cliente está sendo acusada de alguma coisa? — ela me encara — Não, eu só quero esclarecer os fatos. — respondo ainda observando Kayla — O que tem pra esclarecer? — pergunta — Ele é um maluco que matou a namorada e um cliente na p***a da minha boate. — Apenas responda a pergunta, senhorita Williams. — insisto, fazendo Kayla me olhar nos olhos — Não está sendo acusada de nada. Eu lhe dou a minha palavra. Ela suspira. — Há mais ou menos um mês, Lou chegou atrasada para um ensaio e, como eu estava sozinha arrumando os bastidores, ela veio se desculpar pelo atraso. — conta — Apesar dela estar com corretivo, eu pude notar o hematoma em seu rosto. Estava meio arroxeado e escuro. Perguntei o que havia acontecido e ela me disse que tinha caído. Não precisei ser um gênio pra perceber a mentira e ligar ao fato de que Trent estava sempre fazendo escândalos por ciúmes. Eu a abracei e disse que se ela precisasse de ajuda, poderia contar comigo. Fosse pra se esconder ou dar uma lição no o****o. — Sei. — murmuro — Fatos esclarecidos? — Khloé pergunta — Dar uma lição? — franzo o cenho — Como? Você mesma? — Eu sei me defender de babacas, detetive Carter. — ela responde sem hesitar, me olhando nos olhos — Fiz isso a minha vida inteira. Não me importo em defender quem não consegue se cuidar sozinho. — Fatos esclarecidos, detetive? — Khloé pergunta mais uma vez, impaciente — Por enquanto, sim. — confirmo Por mais que eu quisesse estender o assunto com Kayla, não podia. Pelo menos, não agora. — Por favor, peço que fique em Heaven's Gate pelos próximos dias, para possíveis novos esclarecimentos. — Eu moro aqui. — ela dá de ombros — Não é como se quisesse fugir. — Ótimo. — Devo perguntar, há previsão para quando posso reabrir o clube? — Khloé pergunta e eu finalmente a olho — Você sabe, essas meninas precisam alimentar suas famílias. — O local deve ser liberado em três dias. — digo — Três dias? — ela arregala os olhos — As equipes estão fazendo todos os procedimentos do protocolo. Houve um duplo homicídio na sua boate, senhora Rousey, precisamos apurar todos os detalhes. — digo — A senhorita está dispensada, senhorita Williams. — olho para Kayla — Obrigado pela sua cooperação. Me levanto e estendo a mão para ela, para um cumprimento formal. Ela me olha por alguns segundos, até que se levanta e aperta minha mão, com seus dedos gelados contrastando com os meus, quentes. Algo estranho acontece dentro de mim, mas a solto assim que ela recolhe o braço e a vejo sair da sala. *** Me encarei no retrovisor do carro pela quinta vez checando se estou realmente certo do que farei. Eu não costumo frequentar esse tipo de lugar, sinceramente, no último ano eu nunca me divirto em público, entretanto aqui estou eu, em frente ao clube onde uma mulher foi morta, há três semanas. Durante esse tempo, a mulher da estrada, Kayla, não saiu dos meus pensamentos. Claro que eu queria esbarrar com ela pela cidade ou vê-la o quanto antes, mas levando em consideração que o clube precisava de um tempo para reabrir, eu precisei esperar. Não me pareceu certo pegar seu endereço no sistema. Seria antiético e totalmente invasivo. Foi uma vitória, considerando meu histórico de impulsividade. Bufo irritado e saio do carro repetindo mentalmente que posso me controlar. Sou um homem muito controlado. Eu consigo. Diferente do dia que vim aqui, dessa vez o letreiro está aceso e é bem bonito até. Eu passo pelo segurança da entrada e a recepcionista me olha sorrindo gentil, atrás do pequeno balcão iluminado por uma luz também rosa. É tudo muito feminino por aqui. Diferente dos clubes de stripper que já fui, aqui a comodidade é para elas e não para nós, homens sujos que só queremos gastar. É diferente. Ela usa um vestido branco solto e curto, como uma deusa dos tempos antigos, assim como o nome do lugar. Em seu rosto, uma máscara em tom rosa claro repousa, com detalhes em renda que formavam desenhos tribais na máscara. Eu lhe pago a entrada para o show principal e ela põe uma fita rosa em meu pulso esquerdo. Ainda sorrindo, ela me oferece uma máscara preta e, quando eu me mostro confuso, ela diz que é a noite dos mistérios. A deixo colocar a máscara em meu rosto e passo pela entrada que detecta armas, achando interessante essa atualização na segurança, que Khloé fez. Quando entrei aqui pela primeira vez, para investigar um homicídio, não havia nada disso. Ao passar, o dispositivo apita e uma mulher loira de máscara similar a da recepcionista toca meu ombro, dando a entender que irá me revistar. Ela é forte e está usando um vestido de alças vermelho. — Vou ter que pedir que deixe a arma. — ela me olha quando eu a encaro, sem permitir que me reviste — Arma? — me faço de desentendido — Que arma? Ela sorri. — A arma que está na sua cintura. — diz em meu ouvido, quando dá a volta em mim, ficando por trás — A menos que seja tão fodão que tenha o p*u enrolado na cintura. Sorri. Esse lugar parece realmente maravilhoso. — Eu sou policial. — digo — Detetive Carter. Ela parece lembrar meu nome, mas sei que Stone foi quem a interrogou, semanas atrás. Não me recordo seu nome, mas ela me dá alguns tapinhas amistosos no ombro, voltando à minha frente. — Bem vindo, detetive. — sorri fraco — Da próxima, por favor, deixe a arma no carro. — Eu deixarei. — sorri presunçoso — E não se meta em encrenca. — alerta — Não é da minha vontade chutar seu traseiro. — Vou me manter na linha. Do mesmo jeito silencioso que se aproximou, ela se afasta, controlando a entrada de pessoas. Entro de vez no clube, passando por uma cortina de bolinhas peroladas e aprecio a visão do lugar. Aqui é muito mais bonito de noite, com todas essas luzes e efeitos que dão um toque especial à decoração feminina. Sofás de couro branco, couro rosa claro e couro rosa escuro. Algumas plumas, uma pintura que faz alusão ao quadro O Nascimento de Vênus em uma das paredes, teto espelhado, barras de pole dance. É aconchegante, apesar de todos estarem de máscaras. No bar, uma mulher hispânica está atendendo e eu me aproximo, reconhecendo-a como Lucy Ortiz, uma das mulheres que eu interroguei. Ela sorri quando eu me sento em uma das banquetas do balcão. — Em que posso ser útil? — pergunta atenciosa — Vocês têm bourbon ou só cosmopolitan? — faço uma piada sobre o lugar super feminino e ela parece entender — Dose dupla sem gelo? — questiona ainda sorrindo — Por favor. — sorri retribuindo — Já tem comanda? — Acabei de chegar. — n**o com a cabeça — É minha primeira vez aqui. — Então seja bem vindo, detetive Carter. — ela deixa claro que me reconhece, apesar da minha máscara — E que você aproveite a noite dos mistérios. — puxa uma comanda debaixo do balcão e escreve alguma coisa no topo, ao lado da numeração — Prefiro deixar os mistérios no trabalho. — Os daqui costumam ser bons. Eu sei disso. Ela me estende a comanda e eu acabo rindo quando vejo que, no lugar do cliente, ela escreveu Batman. Isso faz eu me perguntar o quão ridículo eu devo estar com essa máscara. Creio que todos os homens importantes da cidade estejam aqui e que talvez esse seja o motivo das máscaras. Devo admitir, Khloé soube como deixar os comentários ruins para trás e reabrir bem. A bartender me entrega a bebida e eu agradeço, deixando o bar e me dirigindo para o centro do clube, onde um cordão chique de isolamento separa a vista privilegiada do palco, para aqueles que, assim como eu, pagaram pelo show principal. Me acomodo em uma das mesas especiais e espero, pensando que talvez eu seja o único cara que veio sozinho. Sem amigos, sem colegas e com um parceiro que é casado. Seria eu um solitário ou um homem confiante? As luzes do clube diminuem e as do palco se intensificam, enquanto uma voz feminina suave soa nos alto falantes, anunciando que o show principal está prestes a começar. A música vai abaixando até ser trocada por uma batida pop envolvente, calma. Nas extremidades do palco, duas mulheres começam a dançar nas barras de pole dance, chamando a atenção de quem está mais perto, enquanto no centro do palco uma luz redonda se acende, revelando uma mulher de costas para o público, usando uma grande capa de veludo vermelho, com bordas douradas. Franzo o cenho ao ver cabelos cacheados. — Nancy! — a voz aveludada anuncia, fazendo a mulher se virar É Kayla! Palmas e assovios são ouvidos, mas eu só consigo focar meus olhos nela. Quando abre a capa, percebo que ela está usando um conjunto sexy de lingerie branco, que combina com a máscara branca, cheia de pedras brilhosas que ela usa. Ela se livra da capa e eu fico um tempo admirando o contraste do tom da sua pele com o tom da lingerie e cinta-liga. Ela caminha até mais a frente do palco, alcançando o microfone antigo e sua voz levemente rouca e suave preenche o local, me surpreendendo. Vejo você olhando, então vou em direção ao seu olhar Porque não tenho direito de andar até aí Tenho um problema, sei que você quer saber Como você consegue pegar uma garota honesta e transformá-la em uma, ah! Enquanto canta os versos da música, seu corpo se move de acordo com os embalos da melodia grudenta, suave e e*****a. Por um momento, sinto inveja do pedestal do microfone, pois queria estar no lugar dele, enquanto ela se esfrega sensualmente por ele. Seus gestos são delicados e ela move os braços, mantendo a atenção nela, apesar das outras duas mulheres estarem realizando um excelente trabalho de dança também. Sei que não estou certa em tentar você Mas eu só quero ver o que você vai fazer Se eu lhe der um gostinho do que faço Apenas lembre-se que eu não pertenço a você Meus olhos se prendem em seus quadris, enquanto ela os balança na melodia da canção, deixando-me hipnotizado. Minha calça, de repente, parece justa demais e uma vontade de ser tocado me preenche. As mulheres têm noção do poder que exercem sobre os homens? Segundo minhas experiências ruins e traumáticas, sim, elas têm, porém têm também um jeito mágico de agir como se não soubessem, o que torna tudo ainda mais interessante, excitante e poderoso. Agora, nesse momento, Kayla-Nancy tem uns cem homens de p*u duro por ela, desejando-a e tenho certeza que está gostando da sensação poderosa que está tendo. Ela parece fazer contato visual com todos ali, embora não esteja de fato olhando para alguém. Sua presença é cativante e ofusca as outras. É como se só existisse ela. Quando os versos acabam, ela se junta às meninas de fundo, em uma das barras de pole dance, fazendo uma dança e acrobacias ao ritmo da melodia. É como se a música fosse feita para ela e seu mastro, unicamente para lhe dar poder. Eu sou um b****a de p*u duro em uma boate, mas pelo menos não sou o único. A melodia acaba e é substituída pelos aplausos e assovios dos clientes, que se dividem em contemplar e jogar notas de cem dólares no palco. Kayla e as outras vêm até a beira do palco para agradecer e jogar beijos, enquanto recolhem as notas com a ajuda de assistentes. Eu sorrio quando seu olhar cruza com o meu, mas não tenho certeza se ela me reconheceu, graças à essa máscara ridícula que fui forçado a usar. O trio sai do palco e o DJ retoma sua playlist, fazendo com que os outros pequenos palcos espalhados pelo lugar voltem a ter atenção, com as meninas dançando. Eu espero a circulação do sangue voltar ao normal, na minha virilha, e me levanto, voltando ao bar e pedindo mais uma dose. — Uma cerveja, por favor. Olho para o lado e a vejo debruçada sobre o balcão, usando um vestido branco de alças por cima da lingerie que usou para se apresentar, ainda a pouco. Há um banco entre nós, mas consigo sentir seu perfume e admirá-la mais de perto. — Põe na minha conta. — digo para a bartender, que dirige um olhar para Kayla, ao servi-la com uma long neck — Tentando impressionar? — ela pergunta ao me olhar, dispensando a atendente — Talvez. — a olho — Está dando certo? — Não. — sorri e eu acabo sorrindo também — Entende de carros, bonita, gentil, protetora, sabe cantar. — comento — Impressionei você? — ergue uma sobrancelha, de forma divertida — Talvez. — dou de ombros — Impressionaria se eu pudesse saber mais. — Mas você não pode. Percebo que não fomos apresentados de forma normal. Talvez ela me enxergue como um policial e isso nos mantém afastados. — Eu sou o Bruce. — digo — Eu sei. — acena com a cabeça — Te chamo de Nancy ou de Kayla? — Como quiser, detetive. — Eu não estou trabalhando agora. — Mas eu estou. — respira fundo, bebendo um gole de sua cerveja — Há alguma chance de… — franzo o cenho ao não saber como terminar a frase — Bom, conversarmos melhor? — Eu só danço. — dá de ombros e arruma a postura — Foi um bom papo. Obrigada, Bruce. — Você já vai? — pergunto confuso — Eu já disse, estou trabalhando. — ameaça sair — Espera! — chamo sua atenção — Eu posso voltar pra te ver? Ela sorri. — Eu vou fazer uma dança no palco três agora. — avisa — Se quiser, sinta-se em casa. — Eu posso ter uma dança especial, em uma sala privada? Estou parecendo um t****o desesperado que não transa há uns doze meses? — Vai ter que fazer mais que isso se, realmente, quiser. — responde rindo e se afasta, indo embora do bar — Essa aí não é tão fácil assim. — ouço a bartender dizer enquanto passa um pano no balcão — Vai ter que se esforçar mais, Batman. Certo. Talvez eu deva mesmo.
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