Já era dia quando Evren deixava Liz em casa. Ela sabia o que a aguardava lá dentro, mas não se importava. Correria o risco que fosse para estar junto do seu amor. Ele voltaria para São Paulo em menos de uma semana, mas não poderia passar todo esse tempo com ele, então não teve medo de pegar mais alguns dias de castigo, qualquer que fosse a represália, valeria a pena.
Não foi diferente. O pai já a aguardava com todo o sermão preparado. A madrasta tentou intervir em defesa da moça, mas foi impossível evitar o embate. A discussão rolou por horas e ao final, como previsto, Eliza ganhou mais uma semana de castigo. Sem celular. Sem internet. Sem direito a saídas... sem qualquer contacto com o namorado!
Não era a primeira vez que isso acontecia, não seria grande sacrifício para ela, desde que Evren a estivesse esperando, quando toda essa m***a acabasse.
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Não foi diferente com Evren quando chegou em casa. Todos sabiam que ele já estava na cidade desde a tarde do dia anterior, mas preferiu passar a noite fora, o que desagradou consideravelmente seu pai.
— No meu país, os jovens só dormem com as suas namoradas, depois que elas se tornam as suas esposas. Você já ouviu isso muitas vezes. – Ainda vestindo o seu robe, o pai de Evren, senhor Mustafah, bebericava um chá, sentado na poltrona de couro da sala de estar.
— Nem mesmo o senhor acredita nisso, meu pai. Sabe que as leis muçulmanas são quebradas diariamente, porque as pessoas devem seguir as mudanças sociais para poder viver no mundo moderno. – Evren serviu-se de uma xícara de chá e sentou-se em frente ao pai. — O senhor foi um dos que quebraram as regras ao seu casar com uma brasileira católica.
Mustafah estava pronto para se levantar e pegar o filho malcriado pelos colarinhos, quando a esposa os surpreendeu.
— Uma coisa que as mães católicas têm muito em comum com as mães muçulmanas, é como defendem as suas crias. Experimente colocar um só dedo no meu filho e vai descobrir isso por conta própria.
Evren levantou-se rapidamente, ameaçando ir em direção da adorada mãe quando foi impedido com apenas um gesto dela.
— Isso não quer dizer que compactuo com tudo o que faz, rapazinho! – Evren congelou. O pai deixou escapar um ligeiro meio sorriso de satisfação. — Aquela moça é filha do seu segurança. Não tem nem dezoito anos, o que pensa que está fazendo, seu irresponsável? – Aproximou-se do filho e deu um belo t**a na sua testa.
O jovem se encolheu na defensiva.
— Liz é minha namorada há quase três anos, mãe. Vai fazer dezoito anos em seis meses... Vocês a conhecem desde criança, sabem da índole dela e de como é esforçada e estudiosa. Estamos fazendo tudo certo para não envergonhar vocês e podermos ficar juntos em paz...
— Tudo certo? – A mulher apertou o robe com força e passou as mãos pelos cabelos, talvez na tentativa de evitar outra agressão contra o filho. — Dormir com essa adolescente é fazer tudo certo? Se essa menina aparecer grávida, o seu futuro e o dela estará para sempre comprometido. E pior, a nossa família terá que carregar a marca dessa vergonha que você tanto diz, querer evitar.
— É por isso que no meu país, os jovens só estão autorizados a se deitarem com as suas mulheres depois do casamento! – O pai, que os assistia, balançou a cabeça antes de colocar a xícara de novo na boca.
— A Liz e eu não somos irresponsáveis. Somos jovens, nos amamos, mas sabemos das nossas responsabilidades. O fato de dormirmos juntos não significa que vamos nos descuidar. Ela mais do que eu, se cuida ao máximo para que a senhora não se sinta envergonhada, mamãe!
— Se ela se cuidasse tanto assim, não iria para cama com o patrão do próprio pai! – A mãe rebateu.
— Esse é um ponto importante! – O pai concordou.
A ficha caiu para o rapaz, que indignado, achou melhor ir para o quarto antes que pudesse magoar ainda mais seus pais.
— A Eliza não é assim. – Falou ressentido. — Ela quer ser advogada. Trabalhar, se tornar uma mulher independente. Ela tem sonhos que vai muito além do que vocês imaginam. E não é porque nasceu pobre, que vai se casar com um homem rico para ter algo na vida. Ela está comigo porque me ama. Você não sabe o erro que está cometendo ao julgá-la por si mesma.
Infelizmente os planos do rapaz de se retirar sem ter que deixar o seu coração falar no lugar do cérebro, deram muito errado e ele foi dormir com o rosto em chamas, após receber uma bela bofetada da mãe.