UM ANO DEPOIS
— Bom dia, minha magrelinha linda. – Evren beijou todo o corpo da amada, antes de despertá-la. Era um homem completamente apaixonado por cada centímetro da namorada.
A moça se espreguiçou feito uma gata manhosa. Murmurou algumas palavras e depois virou-se para o lindo rapaz de olhos azuis.
— Caramba, como você é lindo! – Ela beijou os lábios dele rapidamente. E quando se virou para procurar algo no criado mudo, foi surpreendida com uma caixa retangular e preta, envolta em um laço de fita dourada. — O que é isso?
— Seu presente, pelo nosso aniversário de quatro anos! – Ele sorriu e ela retribuiu. Liz sentou-se na cama, desmanchou o laço e abriu a caixa lentamente. — Ah, amor... É lindo! – Ela retirou de dentro do embrulho os óculos de grau, armação elegante, leve, na cor transparente, e sem demora já colocou no rosto. — O que achou? – Perguntou, já imaginando a resposta.
— Perfeita! – Agora o beijo foi cheio de língua, saliva e paixão. — Você é sempre perfeita.
— E você é sempre tão maravilhoso! – Ela retribuiu o carinho.
— São seus olhos. – Ele depositou um beijo rápido em seus lábios.
Liz segurou uma das hastes dos novos óculos e piscou para ele.
— Poxa vida, já se passaram quatro anos... Parece que foi ontem que você entrou todo tímido no escritório do meu pai, pra devolver minha agenda escolar...
— Isso foi uma desculpa que usei, porque na verdade eu queria te ver mais uma vez.
— Então, acho que deu certo a ideia de esquecer a agenda. – Ela lançou um ar de mistério. Evren sentou-se na cama, seus olhos estavam mais abertos que de costume.
— Como é que é, dona Eliza? Depois de todos esses anos, está me confessando que aquele caderno medonho e cheio de orelhas foi deixado pra trás de propósito? – Ela fez um beicinho malicioso e depois tapou o rosto com o travesseiro. Evren a impediu de se esconder e a obrigou a encará-lo. — Então?
— O que foi? Você também usou a agenda como desculpas, eu só te dei uma ajudinha... – Encolheu os ombros, de forma travessa. — Também foi a forma que encontrei de te ver novamente e agradecer por ter tentado me livrar da bronca aquele dia.
O rapaz estreitou os olhos, levemente confuso.
— Pensei que fosse um truque para me ver porque estava a fim de mim... – Talvez ele tenha ficado um pouco frustrado.
— Isso... – Ela o enlaçou em seus braços, trazendo o rosto másculo para junto do seu. — Você nunca vai saber! – Sorriu maliciosa, antes de beijá-lo com paixão.
****
Eliza e Evren se conheceram na adolescência. Ela com quinze e ele quase dezessete. Duas semanas após o embaraçoso primeiro encontro, eles engataram em um namoro que a princípio não chamou tanto a atenção de seus familiares, embora o pai dela, por ser segurança do rapaz, jamais estivesse de acordo. Ele achava que aquilo poderia interferir no seu trabalho, mas o que mais o incomodava era o fato de que sua filha jamais seria vista como uma futura esposa para o filho do patrão, afinal eles não tinham o mesmo nível social (ainda que o pai do rapaz fosse um imigrante turco, que enriqueceu no Brasil) e para os Aslans, a moça não era digna de fazer parte daquela família.
Mas ninguém falava sobre o assunto, ignorando completamente o casal, todos, sem exceção acreditavam que aquilo não passava de fogo de palha, que dois adolescentes de classes sociais tão distintas não levariam um namorico frívolo tão a sério ao ponto de sonharem com um futuro juntos, de planejarem construir uma família. Logo ele iria para a faculdade em outra cidade, estudaria com pessoas equivalentes a ele, conheceria moças de famílias ricas, se apaixonaria e em questão de tempo, esqueceria completamente seu primeiro amor. Era notório que ela também se dedicava aos estudos e sonhadora que era, sabendo que foi “esquecida”, focaria em seus objetivos e também deixaria essa besteira de menina apaixonada de lado. Então, o casal não era de fato uma grande preocupação para seus pais.
E contrariando todas as expectativas, conforme o tempo passava, eles seguiam suas vidas separadamente como planejado por seus pais, porém sem deixar que isso interferisse no amor entre eles. Evren de fato mudou-se para outra cidade, cursou economia e administração de empresas, como era o sonho da família Aslan, expandiu seu núcleo de amigos, conheceu novas garotas... No entanto, nada disso foi motivo suficiente para enfraquecer seu amor por Eliza. Ao contrário, estava cada vez mais apaixonado por ela. Falavam-se todos os dias, contavam as horas para poderem estar juntos. Algumas vezes um dos dois fugia no meio da semana para se verem. Sua admiração e respeito pela namorada só aumentavam ao passo que ela se tornava uma mulher independente e completamente focada no grande sonho de se tornar uma advogada de sucesso. Um apoiava o outro e mesmo com alguns altos e baixos que rolavam, brigas e desentendimentos normais em qualquer relacionamento, eles enfrentavam juntos o desacordo familiar. Ao ponto de ela ver seu pai ser obrigado a pedir demissão quando a tensão estava insustentável.
Ainda que os Aslan quisessem fazer com que ela se sentisse culpada, Liz não cedeu ao que julgava injusto. Seu pai não ficaria desempregado, afinal era um homem inteligente e depois de quase duas décadas trabalhando na área, já tinha sua própria empresa de seguranças e seu namorado permanecia firme ao seu lado, a apoiando e protegendo. Ele não deixaria que os Aslans fizessem qualquer m*l a ela, e quando chegasse a hora, ambos estariam prontos para darem mais um passo em direção ao que o coração deles cada vez mais pedia, o famoso “felizes para sempre”.