CAPÍTULO 4

1892 Words
ANIVERSÁRIO DE 20 ANOS DE ELIZA Com cinco anos namorando a mesma pessoa, torna-se cada vez mais fácil descobrir como agradá-la. E conhecendo bem os gostos da sua namorada, Evren decidiu que para comemorar o aniversário de Liz, a levaria para um final de semana romântico num chalé no meio da serra em Minas Gerais. Eliza amava as montanhas, cheiro de mato molhado, cachoeiras, passeios de triciclo nas trilhas cheias de lama, tomar vinho ou chocolate quente em frente a lareira, f********r sobre os tapetes felpudos... Não era difícil deixá-la feliz. Então, ele iria unir o útil ao agradável, seria um final de semana perfeito. Seria... — Como assim bloqueados? – Evren esbravejou na recepção do local onde costumava passar alguns dias vez ou outra, com a namorada. — Eu não fiz essa solicitação! Vocês não podem bloquear os meus cartões e conta sem que eu... Não! Eu não sou o titular, mas sou o responsável... – A voz dele alternava de revolta para indignação em poucos segundos. Eliza, ao seu lado, tentava fazer com que o rapaz se mantivesse calmo. — Sim, é meu pai. Mas ele não me disse nada... Isso só pode ser um erro do sistema de vocês... Ok! Você pode fazer a gentileza de ao menos refazer essa pesquisa... Mas você disse que... Ok! Tá! Tá! Eu entendo... Obrigado. O olhar de vergonha era latente. Ele nem sequer conseguia encarar a namorada. — Está tudo bem, meu amor! – Ela o forçou a sentar-se ao seu lado. — Podemos usar o meu cartão, não sei se tenho tanto limite assim para o final de semana, mas acho que para essa noite conseguimos. – Foi impossível disfarçar o olhar preocupado ao reparar em todas as malas no saguão da pousada. — Não! – Ele baixou a cabeça e apertou os olhos entre os dedos. — Nunca permiti que você pagasse nada, não vai ser agora, no seu aniversário. — Ok. – Ela pensou por alguns segundos. — Tecnicamente só vou emprestar o cartão, até o vencimento, tenho certeza que tudo terá se resolvido e você poderá fazer o pagamento. — Você não está entendendo, meu amor... – Pela primeira vez, desde que os seus cartões foram recusados, ele foi capaz de olhar no fundo dos olhos dela. — Meus pais cortaram tudo. Exatamente tudo! Cartão de crédito, débito, conta bancária e tenho certeza de que o seguro do carro foi cancelado... Eu não tenho mais nada além do dinheiro na minha carteira. – O namorado sentia-se tão humilhado que quase não conseguiu completar a frase. — Não sei nem dizer se ainda tenho um apartamento quando voltarmos para São Paulo. Eliza jogou o corpo para trás, batendo as costas contra o sofá confortável. Tantos sentimentos passaram por sua mente e coração. E um deles a tomou pela primeira vez, de um jeito que a fez cair em prantos. A culpa! — O que foi, Liz? – Evren jamais havia presenciado a namorada de maneira tão vulnerável. O choro dolorido e copioso o deixou sem reação. Eliza não era uma garota difícil de decifrar, pelo menos não para ele. Ela sorria com os olhos, estava sempre alegre e mesmo que tendo poucas habilidades físicas, era comunicativa e o fazia sentir segurança ao seu lado. Tinha palavras de conforto, alento, incentivo... Era praticamente o porto motivacional de Evren. Ela fazia-o enxergar o lado cheio do copo, era a fonte de coragem para que eles seguissem sempre juntos e destemidos. Eliza não se abalava com as críticas que recebia por parte de amigos, familiares, quem quer que fosse... Ela sequer os ouvia. O relacionamento deles era sólido. Ninguém tinha o poder de balançar a estrutura de algo tão firme. Mas e então... O que aconteceu dessa vez? Eliza não sabia. Evren não sabia. Aliás, no fundo, ele aguardava que ela viesse com uma resposta esperta que os tirasse daquela situação com um sorriso no rosto e pensamentos positivos. “Vamos pegar a sua barraca e acampar na montanha”, era o que ele esperava como resposta. Mas ao contrário, a resposta veio em lágrimas. Lágrimas, soluços e silêncio. Aquilo era novo para ele. E nenhum dos dois soube lidar com a repentina reação. **** O silêncio ensurdecedor foi quebrado quando Evren estacionou em frente ao apartamento de Liz. — Eu realmente sinto muito, meu amor! – Diferente da namorada, de algum jeito ele sempre era assombrado pela culpa, mesmo que no final ela a convencesse do contrário. Não naquele momento... Pois ela compartilhava do mesmo sentimento. — Eu jamais pensei que a faria passar por algo tão constrangedor. Não era esse o presente que eu planejei para você. — Eu sei. – Ela murmurou. — Por favor, Liz... Me diz o que eu posso fazer para reverter isso. O meu coração está partido de ver você assim... — Eu quero que você dê a eles o que querem! – Ela o cortou com uma resposta curta e grossa. Os olhos azuis abriram-se mais do que o normal. Ele estava realmente confuso, havia provavelmente entendido errado. — O que você está dizendo? – Perguntou apenas para confirmar o equívoco. — Isso mesmo que você entendeu. – Ela fez questão de sustentar o olhar no fundo dos dele. — Eu quero que você obedeça seus pais. Que você pare de lutar contra eles... Não temos nenhuma chance contra eles. Não importa o quanto lutemos, batemos de frente... Eles sempre darão um jeito de nos vencer. — Liz... – O rapaz engoliu a seco. E tentou segurar a pequena e magra mão da namorada. — Não! Não, Evren. Eu já decidi. – Para a surpresa dele, ela puxou a mão para si, evitando que mantivessem qualquer contato físico. — Não vamos ser felizes, nem ter paz enquanto eles controlarem a sua vida. — Eu... Eu disse a eles que trabalharia, que assim que me formasse, cuidaria da minha própria vida... Meu amor, faltam apenas alguns meses e estaremos livres de uma vez por todas. — Como? Se até aqui, eles controlaram tudo ao seu redor para que as coisas fossem difíceis entre nós. No final do semestre você terá seu diploma, mas como irá se sustentar? Duvido que consiga emprego em qualquer lugar desse país... Não sob a influência dos seus pais. — Eu posso procurar emprego em qualquer outro lugar do mundo, no qual eles não possam ser influentes. — Mas e eu? Eu ainda tenho bons anos de estudo por aqui... De toda forma ficaremos separados até que possamos nos estabelecer profissionalmente. Não tenho um inglês bom como o seu, não terei como advogar fora do Brasil e eu não estou me matando de estudar feito uma louca para servir mesa ou limpar privada em outro país. Isso não é justo comigo! – Eliza estava definitivamente decidida. — Não! Não é nada justo contigo, meu amor. E eu jamais pediria que você fizesse algo do tipo. – Evren entristeceu ao constatar que sua amada estava irredutível e por conhecê-la tão bem, precisava agir rapidamente e ao mesmo tempo ser inteligente, ou seria incapaz de dissuadi-la. — Também não é justo com você. – Mais uma vez, ela segurou o choro. — Com nenhum de nós dois. – Fungou e virou o rosto para evitar que ele sentisse pena. — Então, porque você decidiu isso assim? Agora? Depois de tudo que já ultrapassamos. De todas as coisas que suportamos. Ofensas, ameaças, intrigas... Nosso amor sempre resistiu e vai continuar resistindo! Eu me recuso a desistir de você. De nós! – Buscou o rosto da namorada e com doçura no toque, conseguiu fazer com que ela voltasse a olhá-lo novamente. — Se não fizermos agora, seus pais darão um jeito de fazer mais para frente. – Sua voz era um sopro fraco. Um murmuro de desistência. — Prefiro que sejamos nós a pôr um ponto final nisso, do que deixar que eles o façam e acabem destruindo todo esse amor que sentimos um pelo outro. – Lágrimas tristes voltaram a descer pelo rosto da moça que sempre procurou se manter alegre e inabalável. — Você nunca cogitou a ideia. Nunca. – Ele limpou cada lágrima de Liz com as pontas do polegar e indicador. — O que te fez mudar de ideia? – Evren já começava a mostrar desespero e angústia. — Te ver sendo humilhado por seus próprios pais. – Respondeu de pronto! — Isso me partiu ao meio. — Eu não me importo! Eles apenas estão me empurrando na sua direção. – E era verdade. Evren jamais deu ouvidos aos apelos e ameaças dos Aslans. Ele simplesmente fingia demência. Algumas vezes entrava em discussões acaloradas para defender a honra da namorada, mas nos últimos tempos, apenas evitava o confronto, deixando que eles falassem e falassem... porque nenhum argumento seria o suficiente para convencê-lo a deixar Eliza. Ela era seu amor. Seu primeiro e único amor. — Com você ao meu lado, nada disso importa. – Assegurou. Mas ela, apesar de saber de tudo isso, não queria mais vê-lo sofrendo, sendo humilhado a cada oportunidade. Liz tinha ciência de que a vida do namorado seria muito mais fácil se ela não existisse. Ele poderia viver em paz com sua família. — Eu vi seu olhar. Sua angústia... Eles te tiraram o chão quando deixaram claro que você não é nada sem eles, sem o dinheiro deles! — Sim, Eliza! Eu não sou ninguém sem o dinheiro deles. E desde que decidimos juntos que eu iria estudar em tempo integral para ter uma formação que me capacitasse a ter minha independência, você sabia que eles usariam isso para me controlar. Mas você também sabia que isso seria temporário. Fizemos esse acordo. Você aceitou os termos. Ele estava certo. Ela sabia desde o início, quando anunciaram o namoro, que ninguém os apoiaria. Eles não contavam com o aval ou benção de ambas as famílias. Nem mesmo o irmão mais velho de Evren, que morava na Turquia e cuidava de sua própria vida, foi capaz de estender a mão ao caçula. Desde o primeiro momento, eles eram uma dupla de jovens inocentes e sonhadores, contra o mundo. O que havia mudado então? — É verdade. Você está certo, mas no fundo eu não acreditava que eles chegassem a tanto. Eu não imaginava que te ver sendo humilhado pelos próprios pais, por minha causa, me machucaria tão profundamente. Me perdoe, mas eu não posso vê-lo passar por isso e seguir como se nada estivesse acontecendo... Como se tudo isso não fosse culpa minha! — Culpa sua? Meu amor, nós somos um casal. Uma equipe! Nós estamos há cinco anos jogando esse jogo e estamos nos saindo muito bem. — Mas a que custo? Pra mim já estamos no limite. Isso vai nos desgastar uma hora. Quando decidimos ficar juntos, éramos dois adolescentes que não conheciam a maldade das pessoas. Éramos novos e imbecis. – Uma última lágrima ameaçou descer, mas ela a impediu grosseiramente com as costas da mão. — Nossa inocência se foi há muito tempo. Agora somos adultos. Precisamos agir como tal e eu só estou tentando evitar um término ainda mais traumático. Talvez uma hora você acorde e perceba que eu não valho tanto a pena assim e... — Case-se comigo! – Evren a interrompeu, e em anos, nunca esteve tão decidido.
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