KALEO FRATELLI
Fecho a porta do escritório com mais força do que o necessário. O som seco ecoa pelo ambiente amplo, revestido em madeira escura. Meu território. O único lugar da mansão onde não preciso medir as palavras que preciso dizer a eles. Alan e Belinda permanecem de pé à minha frente.
Alan cruza os braços, visivelmente desconfortável. Belinda, ao contrário, me observa em silêncio, olhos atentos demais para alguém que finge neutralidade.
— Antes que digam qualquer coisa — começo, caminhando até a mesa —, isso não é um impulso.
Sirvo uísque no copo, mas não bebo. Apenas observo o líquido âmbar girar lentamente.
— Você pediu para conversarmos agora — Alan rebate. — Então imagino que isso seja sério.
Levanto o olhar para ele.
— Vou me casar.
O silêncio que se segue é pesado. Belinda arqueia levemente a sobrancelha. Alan abre a boca, fecha, passa a mão pelos cabelos.
— Você… o quê? — ele solta, incrédulo.
Previsível. Sempre foi.
— Imaginei essa reação exagerada de Belinda.
— Isso foi ofensivo. — Belinda me lança um olhar irritado.
— O que está acontecendo? — Alan pergunta, voltando a se sentar em uma das cadeiras. — Jamais pensou em casamento. Qual o propósito dessa decisão repentina?
Cruzo as mãos sobre a mesa de mogno que nos separa. O móvel já ouviu decisões piores, mortes mais estratégicas, alianças mais sujas. Ainda assim, essa pesa.
— Laura tem algo a fazer. — digo, controlado. — E eu quero ajudar.
A verdade parcial escorre fácil demais.
— Se casando com ela? — Belinda questiona.
— Exatamente. — balanço a cabeça.
Porque estar perto dela não é o suficiente, observá-la à distância não basta. Porque desde que entrou na minha vida, tudo que não envolve Laura parece… irrelevante.
— Precisa explicar melhor isso…
— Ela vai matar um homem muito poderoso. — continuo, sem alterar o tom. — Casada comigo, terá todos os recursos necessários para fazer o que desejar.
E eu terei acesso irrestrito a ela.
— Espera aí — Alan pisca algumas vezes. — Foi por isso que me pediu para investigar sobre Ivan Volkov?
— Sim.
O nome do russo me provoca um incômodo visceral. Ivan não apenas tentou matá-la. Ele a quis antes. Pensou nela como propriedade. E isso… isso eu não consigo aceitar.
— Aquela mulher quer matar a p***a do cara mais poderoso da Rússia? — Alan me encara incrédulo. — Tem ideia do que isso pode causar para nós?
Sorrio, irritado.
— Os russos já mostraram que estão pouco se fodendo para o lado italiano. — cuspo as palavras. — Há meses vêm estragando nossos negócios.
E Ivan cruzou uma linha pessoal ao tentar me matar.
— O que ele fez para ela querer matá-lo? — Belinda pergunta.
— Não é da minha conta. — dou de ombros. — Contanto que ela mate o homem que está me atrapalhando, não me importo com o restante.
Mentira. Importo-me mais do que deveria. Mais do que admitiria até sob tortura.
— Não é apenas para ajudar, Laura… — Belinda conclui, observando-me com atenção excessiva.
Obviamente eu tiraria vantagem. Mas prefiro que eles acreditem que tudo se resume a poder, estratégia e benefício mútuo. É mais seguro assim. Porque a verdade é simples demais — e perigosa demais:
Desde a primeira vez que coloquei os olhos naquela mulher, algo em mim se fixou. Não foi desejo imediato. Foi reconhecimento.
Predador reconhece predador.
— Então vocês não se gostam? — Alan faz uma careta.
Ergo o olhar devagar.
— Laura e eu não vamos nos casar porque nos gostamos. — respondo frio. — Quero ajudar alguém que salvou a minha vida.
— E se beneficiar com isso também — ele insiste. — Ela sabe desse detalhe importante?
— Sim.
— E se ela não conseguir? — Alan pergunta.
Meu maxilar trava antes mesmo de eu perceber.
— Isso não é uma opção. — digo baixo. — Ela vai conseguir.
Não porque o plano é perfeito. Mas porque a simples ideia de perdê-la antes de entender tudo sobre ela… me irrita.
— Nossa família vai querer ver isso de perto. — Alan avisa. — Se for se casar de mentira, vai ter que fazer isso do jeito certo.
— Ele está fazendo. — Belinda se levanta, indo até o minibar. — Você não reparou no dedo dela?
— O quê?
— O anel de casamento da mamãe.
— Você deu a ela? — Alan me encara perplexo.
— Se eu não o fizesse, qualquer um poderia desconfiar…
E porque vê-lo na mão dela pareceu… correto.
Como se aquele anel sempre tivesse pertencido a Laura, mesmo antes de eu conhecê-la.
— Mas é o anel da mamãe.
— Você quis dar ele a uma garota de programa, Alan. — Belinda rebate. — Que tipo de moral você tem para reclamar?
— Ela era dançarina… — murmura, afundando na cadeira — Laura é uma total desconhecida além do fato de ser louca.
— Não fale dela desse jeito. — minha voz sai baixa, controlada, mas firme o suficiente para encerrar o assunto.
Alan ergue os olhos, surpreso, Belinda me observa em silêncio. Não há espaço para desrespeito quando se trata de Laura. Nunca houve. E nunca haverá.
— Então, só nós quatro sabemos? — Belinda pergunta, por fim.
— Sim. — afirmo. — E que permaneça dessa forma.
§
Subo as escadas em direção ao quarto onde Laura está. Cada passo é um aviso silencioso: estou entrando em território que ainda não é meu — e talvez nunca seja.
Bato à porta.
— Pode entrar.
Ela está de pé, ao lado da cama.
— Podemos conversar? — pergunto antes de entrar de fato.
Ela faz um gesto de cabeça e eu entro. Vejo Cronos dormindo no pequeno sofá perto da janela. Traidor. Gostou dela rápido demais.
— Agora sei como se sentiu quando seu gato não te deu a mínima.
Ela ri.
— Sobre o que você quer conversar?
Me encosto na parede oposta, braços cruzados. Não para me proteger, para não avançar.
— Vou direto ao ponto. Odeio enrolação.
— Já percebi — diz erguendo a mão com a aliança, um sorriso irônico nos lábios.
Solto uma risada.
— Quero que me diga para quem exatamente trabalhava… ou trabalha.
Ela sorri de lado.
— Pensei que já soubesse. Dizem que você é muito inteligente.
Provocadora. Perigosa. Fascinante.
— Não me provoque, cara mia. — aviso. — Apenas me responda.
Ela sustenta meu olhar por tempo demais. Quando finalmente fala, sei que cedeu apenas o suficiente para me manter interessado.
— Trabalho por conta própria. Desde sempre…— da de ombros —Tive que me virar de alguma forma para me manter, eu era nova e estava sozinha. — coça sua testa — Fui treinada a vida toda, então as únicas coisas que eu sabia fazer era, lutar e atirar.
Ela cruza seus braços se apoiando em uma das paredes desviando os olhos dos meus. Observo detalhes que não têm nada a ver com a história, como a pequena cicatriz perto do pulso, a forma como transfere o peso de uma perna para a outra, e o jeito como evita me encarar quando menciona o passado.
— No entanto, consegui emprego numa boate, em Berlim. Ao que parecia a dona precisava de rostos novos para trabalhar como garçonete — faz careta parecendo odiar aquele tempo com todas as forças — Durou apenas algumas semanas, porque um dos clientes que atendi, me tocou e eu rasguei a garganta dele com um furador de gelo.
Aperto minhas mãos dentro dos bolsos quando, imagens dela tão nova sendo tocada por um homem muito mais velho e nojento invadem minha mente.
— Quantos anos, você tinha? — pergunto receoso.
— Fazia alguns meses que, eu tinha acabado de completar quinze. — me olha.
Quinze anos, trabalhando em uma boate em Berlim e sendo assediado por bastardos pedófilos. Meu corpo estremece de raiva. Meu corpo inteiro reage estremecendo de raiva e frustração. Um impulso primitivo de matar qualquer um que tenha ousado tocá-la.
— Então, a dona do lugar, te mandou embora?
— Ironicamente, não. — aperta seus lábios em uma linha fina — Ela não me expulsou, ao contrário, ficou impressionada com o que fiz e perguntou se eu tinha outras habilidades.
Pisco algumas vezes, Laura começou a se envolver com esse tipo de coisa nova demais , teve que aprender a sobreviver antes mesmo de se tornar adulta.
— Ela te contratou para matar...
— Exatamente. — balança a cabeça — Haviam pessoas que queriam derrubar a boate dela. — desvia seus olhos de mim ao continuar — Ela prometeu que, se eu acabasse com as pessoas que queriam fazer isso, nunca mais precisaria lidar com os clientes nojentos de lá.
— Por quanto tempo trabalhou para essa mulher?
— Ela ainda me procura, quando tem problemas. — sorri me encarando.
— E depois?
— Kaleo… já chega.
Ela se fecha, de novo, fixo meus olhos nela, tentando entendê-la melhor.
— Você está me olhando demais.
Um canto da minha boca se ergue lentamente.
— Não sabia que havia um limite estabelecido.
— Quando encara demais alguém assim, deveria saber que pode incomodar. — rebate.
Dou dois passos na direção dela, parando a uma distância segura demais para ser confortável.
— Se eu estivesse realmente olhando demais — digo baixo — você já teria mandado eu parar.
Os olhos dela se estreitam.
— Não confunda tolerância com permissão.
— Jamais faria isso. — respondo. — Mas estaria louco se não observasse algo que me interessa.
— E eu te interesso? — desafia.
Sorrio. Um sorriso lento, perigoso.
— Se não interessasse, Laura… — inclino a cabeça — você não estaria aqui.
Ela sustenta meu olhar por alguns segundos antes de se fechar novamente.
— O que eu disse já é o suficiente. É mais do que qualquer um sabe.
Não discordo. Apenas aceito.
— Por enquanto. — respondo.
Ela arqueia a sobrancelha.
— Descanse. Amanhã vai ser longo.— dou um passo para trás, abrindo espaço.
Antes de sair, lanço um último olhar. Rápido demais para parecer casual, lento demais para ser inocente. Quando fecho a porta atrás de mim, a constatação me atinge com clareza incômoda.
Seus detalhes ficaram gravados, cada silêncio, cada resistência. Laura Walker não me deve nada e ainda assim… já ocupa espaço demais na minha mente. E eu sei, com absoluta certeza, que isso só está começando. Até porque não adianta mais tentar convencer a mim mesmo do contrário.
Pois já é tarde demais