Mudança

2045 Words
KALEO FRATELLI Estou na sacada do apartamento de Laura, fumando e repensando as últimas horas. Desde que saí da mansão Fratelli para tentar retribuir o que Laura fez por mim, até o momento em que propus que se casasse comigo. — Como vai funcionar? Me viro para ela, que está apoiada no batente da porta dupla. Ainda não estou acreditando que realmente vamos nos casar. Estou deixando minha obsessão ir longe demais, contudo não ligo. — Você terá que se mudar para a mansão o mais rápido possível — digo, tragando mais um pouco da nicotina. — Rápido assim? — ergue as sobrancelhas, surpresa. Solto a fumaça. — Quando eu anunciar o nosso noivado, você já vai ser vista como um possível alvo dos meus inimigos. — Eu sei me cuidar sozinha — diz, me olhando nos olhos. — Desse pequeno detalhe, eu já estou ciente — sorrio de lado. — Aliás, onde aprendeu a se defender tão bem? — Com o meu pai — cruza os braços. — Aprendeu mais alguma coisa? Ela desvia os olhos dos meus, olhando para longe. — Não quis ser invasivo. — O que preciso levar? — me ignora. Decido não insistir. — Nada — dou de ombros. — Tudo o que precisar será comprado. — Vai fazer compras comigo? — investiga, curiosa. — Deixarei um cartão com você — esclareço. — Para usar sempre que quiser alguma coisa. — Corajoso. Sorrio. — Se há alguma coisa que precise levar, a hora é agora — aviso. — Só tem um problema. — Qual? — Tenho um lobo n***o, e ele não se dá muito bem com gatos. Ela balança a cabeça. — Devil não é meu… — se interrompe, rindo. — Não totalmente. César e eu cuidamos dele juntos, então vou deixá-lo no apartamento dele e podemos ir. César? Quem diabos é esse filho da p**a? Apago a bituca de cigarro e a sigo para dentro do apartamento, fechando as portas duplas antes de observar melhor o ambiente ao meu redor. Quando entrei, o local estava coberto pela escuridão; agora, com as luzes acesas, consigo reparar em alguns detalhes no apartamento de Laura. As paredes são todas feitas de pequenos tijolos. Há um sofá de couro e uma poltrona do mesmo estilo. A cozinha é americana. Laura não parece possuir nada luxuoso. — Algum problema? Olho para ela. A loira está com as mãos na cintura. — Por que haveria um problema? — Está olhando para o meu apartamento como se fosse um lixão. — Não é exatamente organizado — provoco, apontando para a louça acumulada na pia e para as roupas na bancada. — Trabalho muito. Limpo quando tenho tempo e quando quero. Nesse momento, a bola de pelos preta adentra o cômodo, vindo diretamente na minha direção. Pego o gato no colo. Laura se aproxima para pegá-lo, mas Devil se recusa a sair dos meus braços, fincando as unhas na minha camisa. Olho para ela com um sorriso de lado. Laura estreita os olhos. — Já tem tudo o que precisa, bella? — Cretino! — murmura o xingamento, passando por mim. Encosto no batente da porta, com Devil nos meus braços. O apartamento continua me incomodando. Não pelo que tem, mas pelo que não tem. Nada aqui denuncia apego, conforto ou permanência. É um lugar de passagem. Laura vive como alguém que nunca planejou ficar. — Está tudo pronto? — pergunto. — Sim. — pega a bolsa e a coloca no ombro. — Só preciso deixar ele lá antes de ir. — explica abrindo a caixa de transporte — Vamos, Devil, vou te levar para casa do César — chama apontando para a caixa, ele sai do meu colo e entra obediente. — Certo. — tento não demonstrar meu incômodo mas esta sendo difícil. Laura me encara por um instante, avaliando, como se estivesse medindo meu nível de curiosidade. — Ele mora no andar de cima — acrescenta despretensiosamente. Não precisava saber dessa informação pois iria descobrir onde o desgraçado mora ainda assim, anoto mentalmente. — Entendo. Abro a porta para ela. Laura caminha até o corredor mas antes de sair para, virando-se para mim. — Você pode ir para o carro — diz. — Vou subir rapidinho e já desço. Meu maxilar trava e minha mão apertar demais a maçaneta da porta. — Não há necessidade — respondo. — Posso ir com você. Ela n**a com a cabeça. — Prefiro que não. — Como quiser. — forço as palavras. Laura relaxa imperceptivelmente. Um detalhe mínimo, mas visível para quem presta atenção demais. — Meu carro está em frente ao prédio. — informo. Ela me da um aceno curto e eu abro passagem. Laura sai do apartamento carregando a caixa. Antes de entrar no elevador, lança um olhar breve em minha direção, parece querer dizer algo mas não diz. As portas se fecham. Fico parado no corredor, encarando meu reflexo no metal polido. Meu maxilar está rígido. César. Não sei quem é, tampouco sei o que representa e não gosto de não saber. Pego as chaves da picape e sigo para o elevador de serviço. No térreo, o ar frio da madrugada não ajuda a dissipar a tensão. Caminho até o carro estacionado em frente ao prédio e me apoio no capô por alguns segundos antes de entrar. Entro no carro, apoio os cotovelos no volante e mantenho os olhos fixos no prédio. Conto o tempo mentalmente. Cinco minutos é o meu limite, passando disso vou atrás dela. § Laura surge pela porta do prédio alguns minutos depois. Não carrega mais a caixa do gato. As mãos estão livres. Os ombros, curiosamente, mais soltos. Endireito-me no banco ao vê-la se aproximar. Ela abre a porta do passageiro e entra. — Pronto — diz, fechando a porta e afivelando o cinto. — Podemos ir. Dou partida, mas não arranco de imediato. Lanço um olhar rápido em sua direção. Laura encara o para-brisa, o canto da boca levemente relaxado. — Resolveu tudo? — pergunto. — Sim. Engato a marcha e começo a dirigir, mantendo a atenção na rua à frente. — O gato ficou bem? — Ficou. Assinto lentamente. O silêncio se instala por alguns segundos. Não é constrangedor — é denso. Laura cruza as pernas, recosta a cabeça no banco e solta um suspiro quase imperceptível. — César...vocês se conhecem há muito tempo?— pergunto casual, como quem não quer nada. Ela vira o rosto para mim por um instante. — O suficiente. Seguro o volante com mais força do que o necessário. Não olho para ela dessa vez, mas sinto a barreira erguida sem esforço. — Entendo — murmuro. Passam-se mais alguns segundos. — Ele mora sozinho? — arrisco, agora olhando de relance. Laura vira o rosto devagar. Os olhos azuis me encaram, atentos demais. — Por que isso importa? Sorrio de lado, breve. — Curiosidade. Ela me estuda por um momento, como se decidisse até onde me deixar avançar. — Não que seja algo que precise saber, mas sim — responde por fim. Minha mandíbula se contrai. O sorriso some. Volto os olhos para a estrada e acelero um pouco mais do que antes. — Certo — digo, seco. Seja lá quem for César, ele tocou em algo que não era dele para tocar. E isso…eu não ignoro. § Ordeno a Draco que nos siga discretamente, já que onde ela mora é um lugar comum e as pessoas poderiam estranhar se saíssemos rodeados de carros blindados. O trajeto é feito em silêncio. Vez ou outra, verifico se Draco está nos acompanhando. — Sua sombra está executando bem o papel — ela diz, olhando seu retrovisor. Faço o mesmo, vendo o Dodge preto de Draco logo atrás de nós. — Não é à toa que o homem trabalha para a minha família há mais de duas décadas — inclino a cabeça para olhá-la. A loira está olhando fixamente para frente. Olho na mesma direção, notando que sua atenção está na faixa de pedestres, mais especificamente em um casal de crianças correndo de mãos dadas. A menina parece ser mais velha, enquanto o menino aparenta ter no máximo três anos. Alguém buzina alto; só então noto que o sinal está verde. Volto a mover o carro. — Tem mais irmãos além de Amália? A loira hesita por um momento e então balança a cabeça positivamente. — Irmão. — Qual é o nome do seu irmão? — pergunto. Ela franze a testa, permanecendo em silêncio, deixando claro que está incomodada com as perguntas repentinas. — Perdonami — murmuro. — Apenas fiquei curioso. Laura me olha por um momento. Volto meus olhos para a estrada. — Maxim — diz baixo. — Ele… — balança a cabeça, apertando suas mãos em punhos. Vejo as juntas de seus dedos ficarem brancas. — Sinto muito — lamento, verdadeiramente triste. Sou um i****a por perguntar isso. — Queria que tivéssemos mais tempo — murmura. — Ensinaria ele a atirar e lutar? — brinco, tentando aliviar sua tensão. Ela sorri fraco, contudo concorda com um aceno de cabeça. Após fazer uma curva, ouço a loira fazer um som baixo com a boca. Espero pacientemente pelo que está por vir. — Meu pai me treinava desde os meus três anos — começa. — Peguei em uma arma pela primeira vez com oito e ganhei a minha primeira com dez. Ele sempre quis aprender, mas não levava jeito. Só ficava por perto para estar próximo de mim. Olho para ela, que suspira, passando a mão pelos fios loiros, ajeitando uma mecha rebelde e colocando-a atrás da orelha. — Quando saí de Moscou, após a morte deles, não parei de treinar — balança a cabeça. — Era o mais próximo que eu podia estar de tudo o que aprendi. E, de alguma forma, soube que seria útil um dia. —sua testa se franze. — E realmente foi. — Ainda é, pelo visto — acrescento, me recordando da maneira como derrubou aquele homem com o dobro do seu tamanho. Ela me olha de relance e, ainda assim, consigo ter um vislumbre de orgulho. § Ao chegarmos à mansão, Laura desafivela o cinto, pronta para sair da picape. Contudo, eu a seguro pelo cotovelo, impedindo-a de sair. A loira me olha sem entender. — Tenho que te entregar uma coisa — digo, deslizando a mão até o porta-luvas e retirando de lá uma caixinha preta de couro. Ergo a pequena caixa na altura de nossos olhos. Laura está com uma expressão surpresa, alternando o olhar entre mim e a caixa. — Coincidentemente, guardei isso aqui — faço uma careta. — Alan achou que fosse se casar com uma garota qualquer por quem acreditou estar apaixonado. — respiro fundo. — Tive que esconder para garantir que não cometesse uma loucura. Laura imita minha expressão. — Conheceu o jeito dele — dou de ombros. — Alan é péssimo em entender os sinais. — Não posso dizer que tenho pena — cruza os braços. — Seu irmão é bastante mulherengo. Preciso concordar com a loira. — O que essa caixinha tem a ver comigo? — pergunta, estreitando os olhos. — Isso pertencia à minha mãe — explico, abrindo a caixinha, que revela a aliança com um diamante exageradamente grande. — Antes, pertenceu à minha avó. — Kaleo… eu não posso — murmura, balançando a cabeça à medida que se afasta. Sorrio de canto. — É uma tradição, bella — aproximo a joia dela outra vez. — Se não usar, pode levantar suspeitas da minha família e das pessoas que trabalham para mim. A loira morde o lábio inferior. — Droga — suspira, estendendo a mão para que eu entregue a joia. — Vamos fazer isso direito — provoco. — Não é só porque estamos nos casando apenas no contrato que vamos fazer as coisas de qualquer maneira, tesoro. Pego sua mão delicada, deslizando o anel em seu dedo anelar. Laura solta uma respiração pesada, observando a própria mão. — Ficou perfeito, mia cara… — Pare de me chamar assim! — exclama baixo. Consigo, com muito afinco, não rir de sua irritação. Toda vez que ela tenta me fazer parar, mais vontade eu tenho de chamá-la pelos apelidos mais bregas, só para ter o prazer de observar essa sua expressão de indignação.
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