Tio Rick ficou tão animado com a chegada do Brian, pediu-me para ir para casa e arrumar o quarto que era meu quando criança para recebê-lo. Eu não neguei.
Estava intocável, do mesmo jeito que eu havia deixado, as minhas bonecas de pano que mamãe fez para mim estavam todas na prateleira do mesmo jeito que eu havia deixado. Nada havia sido tocado ou trocado, nem os lençóis da cama. Tio Rick devia ter trancado e esqueceu dele por anos, pois tudo estava empoeirado. Levei horas para deixar tudo preparado para o convidado. Mas eu sabia que seria inútil.
Brian estava mudado, com ares da riqueza, blindado de ouro reluzente. Naquele momento deveria estar a ser recebido com um banquete. Eu pensava comigo mesmo.
A noite caiu e nem sinal do hóspede. Eu sabia que Brian não voltaria. Só tio Rick acreditava que ele continuava a ser o mesmo. Não era.Brian era um nobre, não deixaria o conforto que o rei Henrique lhe ofereceria no palácio para se hospedar na nossa humilde casa.
Tio Rick já dormia na poltrona quando fui o chamar para comer. Pobrezinho, cansou de esperar.
Aproximei-me dele e dei um beijo no rosto. Ele acordou assustado.
—O quê? O que houve?
Não Segurei um riso.
—Tio,vamos comer?
Ele estalou os dentes dando de ombros.
— Estou sem fome.
— Mas o senhor precisa comer.
Nesse momento, um clarão iluminou o céu e logo um estrondo muito forte. Olhei pela janela, a chuva começou a cair devagar, depois forte.
Naquela noite, a tempestade veio tão forte, derrubou casas, houve enchentes pela redondeza e seis pessoas morreram, sendo quatro crianças...
— Tio, o senhor tem que se alimentar. Está doente. Fiz uma sopa de espinafre, para fortalecer.
Disse cobrindo-o com um cobertor que havia buscado no quarto.
De tanto insistir, ele comeu e depois de um chá bem quente, se recolheu.
A chuva ainda caía, porém, mais tranquila, eu não conseguia dormir com toda aquela chuva forte assustadora, então decidi ler algumas cartas que eu havia recebido dos meus alunos da Espanha.
Todas foram emocionantes, nem percebi quando as lágrimas rolaram no meu rosto. Quantas saudades...
Na manhã seguinte a chuva já havia passado, mas a tragédia estava por todo o lugar. Casas destruídas, rios alagados, lama por toda parte.
Eu acabava de preparar o desjejum quando alguém bateu na porta. Quando abri, o meu coração acelerou, m*l consegui respirar.
— Bom dia, milady.
Brian abriu um sorriso que fez o meu corpo arrepiar. Respirei fundo e ergui a cabeça.
— Bom dia. O meu tio ainda não acordou.
Lembro perfeitamente do seu olhar franzido para mim. Foi quando olhei para frente e vi o cocheiro carregando a sua bagagem.
— Não vim de visita, milady.
Voltei o meu olhar para ele que sorria de canto. Não tinha outro jeito a não ser abrir caminho para que entrasse. O cocheiro entregou-lhe a bagagem e saiu em seguida.
— Tio Rick estava-te a esperar ontem.
Disse fechando a porta.
Ele olhava tudo ao redor, lembrando dos tempos de criança.
— Eu sei.Peço humildemente que me perdoe por fazê-la esperar.
Mas que atrevimento. Não era eu que esperava por ele.
— Pois deve pedir perdão ao meu tio. Não a mim.
De novo aquele sorriso de canto que me deixava derretida.
Ficamos alguns segundos nos olhando. Como estava formoso… senti lá, no fundo, uma faísca se acender.
—Brian?
Tio Rick despertou-nos. Ainda bem! Mais um minuto sozinha com ele não sabia o que podia acontecer.
—Tio Rick.
Ele foi ao seu encontro e o abraçou. Era tanto ouro pendurado no pescoço que a cada passo que dava fazia um barulho aclamativo.
— Filho, achei que não fosse vir.Sente-se, por favor. Fique a vontade.
Brian sentou numa poltrona e tio Rick em outra. Eu permaneci em pé diante dos dois.
— Desculpe-me, tio Rick. Eu queria muito ter vindo ontem, mas… sabem que o rei não está bem?
— É mesmo?
— Sim. Nem me recebeu. Não informaram direito, mas não está nada bem. Fiquei a aguardar, mas era tarde quando me confirmaram que ele não poderia atender-me. Daí a chuva caiu.
Ficaram longos minutos conversando depois que servi o desjejum.
Não fazia ideia do que falavam, pois preferi trancar-me no quarto e responder às cartas dos meus pequenos.
Na tarde daquele dia eu estava em casa sozinha, pois tio Rick e Brian foram para a cidade abrir o armazém. m*l falei com Brian.
Ele também não insistia.
Sentada na poltrona lendo um livro, ouvi quando uma carroça parou enfrente a nossa casa.levantei-me e olhei pela janela,Brian veio em disparada.
Algo aconteceu com tio Rick.
Pensei.
Abri a porta aflita com o coração gelado.
— O que houve?
— O rei está morto. Estão a exigir a presença de todos no palácio Graham para o cortejo.
Levei a minha mão a boca. Um tanto aliviada por não ser nada com tio Rick.
— E eu devo ir?
— Melhor não contrariar uma ordem da rainha.
Revirei os olhos não querendo aceitar. Eu não habitava mais em Londres. Só estava de passagem.A minha lealdade era do rei da Espanha.
— Eu… posso levá-la, milady
.
Não tinha outra opção...?
Dividir a mesma carroça com Brian fora muito tenso. m*l falamo-nos, mas sempre o pegava me olhando intensamente. E toda a vez que eu olhava nos seus olhos, uma chama se acendia em mim, num fogo que me consumia devagar.
Desviava os olhos para o outro lado totalmente sem graça. Tentando não lhe mostrar o que eu sentia.
Logo chegamos ao palácio, e toda a cidade estava lá, do desembargador ao faxineiro. Havia uma multidão ocupando o imenso pátio do palácio. Brian conduziu-me até tio Rick.
Não demorou muito e os guardas reais anunciaram a presença da rainha e do príncipe. Eles surgiram do topo do palácio e todos os olhares estavam apontados para eles, reverenciando-os. Olhei ao redor, senti o braço do tio Rick em contacto com o meu.
— Eu não devo lealdade a eles, tio.
Cochichei.
—Por Deus, filha!
Ele olhou-me desesperado.
— O príncipe está nos olhando.
Brian falou do outro lado. Olhei para cima e deparei com os olhos do príncipe em mim. Ficamos alguns instantes nos encarando.Olhava-me tentando-me amedrontar, me condenando a forca por eu não me curvar diante deles.
Acenaram para o povo e saíram.
O príncipe deu mais uma olhada gélida antes de sair, mas eu não me curvei...
****
Passamos o dia todo no cortejo do corpo do rei. Eu estava exausta, quis ir embora várias vezes, mas tio Rick não me permitiu. Era tanta gente chorando como se fosse um parente que estava morto ali. Quanta bajulação por um rei que só sabia explorar o povo, cobrando impostos absurdos, tomando os bens daqueles que não pagavam em dia.
Eu só estava lá havia duas semanas...
E mesmo assim, todo o reino estava lá, como se não tivesse coisas mais importantes para fazer.
Eu estava incrédula, quatro crianças morreram devido às enchentes da chuva na noite passada, pessoas perderam parentes, casas, o pouco que tinham, essas foram as que mais choraram pelo rei do que pelo que perderam...
— Inacreditável. — exclamei assim que entrei em casa.— A cidade está um caos e o povo é obrigado a seguir o cortejo da realeza.
Desamarrei meu chapéu e me sentei na poltrona.Brian fechou a porta atrás de si e me olhou radiante.
Tio Rick havia ficado na cidade, disse que precisava resolver uns assuntos da venda do armazém.
— Eu preferia que acompanhasse o meu tio. Eu sei quais assuntos ele tem para resolver.
Jogos e álcool.
Abaixei o meu olhar e fiquei a observar por uns instantes as minhas mãos.
— Está tudo bem?
A voz de Brian soou rouca e bem firme.
— Só… fico preocupada com tio Rick. Está doente e mesmo assim não quer que eu cuide dele.
Brian se aproximou e se sentou na poltrona a frente.
— Ele sempre foi um cabeça dura.
— Pois é.E quanto mais velho, mais cabeça dura ele fica.
Soltei um sorriso fazendo o Brian sorrir também. O meu corpo todo se arrepiou.
— Ele falou comigo que não quer ir para a Espanha. Que o lugar dele é aqui. Onde nasceu e quer morrer aqui.
— Eu entendo. Mas ele precisa de mim. E eu só vou ficar bem quando eu o tirar daqui e levá-lo para perto de mim.
— Eu sei. Você tem que fazer o que é certo.
—Exatamente.
Ficamos nos olhando por uns instantes. Todos os momentos que passamos juntos quando crianças, vieram na memória...
Aquele olhar que me hipnotizava, que me atraía, que me puxava para um abismo, aquele mesmo olhar que estava sobre mim naquele momento.
O meu dia só começava quando eu via aquele olhar. Eu era apaixonada por ele, mas nunca me atrevi a contar.
Eu só tinha doze anos, mas eu sabia o que era uma paixão.
E eu estive apaixonada por ele durante anos, eu achava que sentia o mesmo por mim, só que, como eu, não tinha coragem de confessar, até não receber mais as suas cartas. Acreditei que havia encontrado outra pessoa, uma namorada talvez, e simplesmente esqueceu de mim...
Era como se alguém arrancasse com as mãos o meu coração. Como foi difícil para mim aceitar que Brian não era mais o meu amigo. Que não se importava mais comigo. No começo até entendi, pois conhecera o pai e estava tão contente que não teve tempo de me escrever, mas depois, percebi que eu estava enganada.Brian havia realmente esquecido de mim...
Mas naquele exato momento, ele olhava-me, mas era diferente, de um jeito que me deixava desconcertada. Sem jeito, sem entender o que causava em mim.
Desviei os meus olhos para o lado completamente perdida.
O silêncio durou alguns segundos, até Brian quebrar o gelo.
— Eu nunca esqueci de você,Alana.
Olhei para ele franzindo o cenho.
—Como?
— Durante todos esses anos, vinte quatro horas por dia, pensando em você.
Ele pareceu ler os meus pensamentos. — A visão de você indo embora naquele navio ficou na minha memória durante noites, me fazendo sonhar o mesmo sonho. Você levou um pedaço de mim,Alana.
Eu não sabia o que falar, apenas tentava controlar a minha respiração.
— O meu coração foi com você.
Foi como se eu tivesse acabado de ouvir um coral de anjos cantando ao meu lado.
— Eu sempre fui apaixonado por você.
Eu estava certa...
— Mas nunca tive coragem de dizer. E quando você partiu, percebi que eu havia desperdiçado a oportunidade de te confessar isso. Eu escrevi várias cartas me declarando, mas não tive coragem de enviá-las. A última escrevi há uma semana.
Então era isso. Ele não deixou de me escrever e sim, não teve coragem de enviar.senti-me mais aliviada em saber que eu estava enganada a respeito dele.
— Podia ter enviado… bom, como fazia sempre.
— Você parou de me escrever. Achei que me havia esquecido.
—Não.Claro que não. Como eu poderia te esquecer? Eu que achei… por que fomos tão covardes?
— Eu não sei. Eu tive medo de estragar a nossa amizade. Acabou que nos afastamos de qualquer forma.
Confesso que eu me sentia melhor.
Brian Leonel sentia o mesmo por mim, e como eu, teve medo de contar.
— Eu segui a minha vida, mas nunca deixei de pensar em você, nem um minuto se quer. Eu tinha certeza do que eu sentia por você. Não sabe o quanto eu esperei encontrar-te novamente.
Me contorci na poltrona.
— Então percebeu que era apenas uma paixão de infância.
Brinquei para não demonstrar nervosismo. Ele olhava-me intensamente.
— Não era só uma paixão de infância, Alana. Eu amei-te...
Mal conseguia manter a minha respiração, com certeza eu já não conseguia mais esconder o meu nervosismo. Ele amou-me?
Voltei um sorriso torto.
— Por que está a dizer isso agora,Brian?
Eu já chamava ele de Brian...?
— Porque eu precisava dizer isso olhando nos seus olhos...
E se tio Rick não chegasse naquele momento, não sei o que poderia ter acontecido... Mas eu vivi aquele momento...