Tio Rick passou o dia inteiro preocupado com que o rei podia fazer contra mim. Para ele, eu não deveria ter recusado pela segunda vez o convite e o presente do rei. Mas e eu? Ninguém me perguntou o que eu queria. Sempre a vontade do rei em primeiro lugar. Não tinha que ser daquele jeito.
Afinal, não entendia a cisma que o rei tinha por mie Ele podia ter quem quisesse. Pôr qual motivo?
Eu não cederia. Não importava quantas vezes tentasse.
Tio Rick estava se banhando enquanto eu preparava a mesa para o jantar. A noite estava fria e não se via a lua no céu, pois as nuvens carregadas a cobria. Logo a chuva não demoraria a cair. O que me deixou preocupada. A última chuva forte deixou estrago e muitas pessoas ficaram sem teto por causa da enchente.
Caminhei até a sala e percebi que a lareira precisava mais de lenha, o fogo estava baixo e não estava aquecendo.
—Tio, estou indo lá fora pegar mais lenhas.—esperei uma resposta, mas não obtive. Estava entredito no banho, eu não ia demorar.
Quando abri a porta, fui surpreendida por um clarão no céu, em seguida um estrondo ensurdecedor. Pensei se deveria ir até onde tio Rick guardava as lenhas, num estaleiro no fundo da nossa casa.
Olhei a minha frente, tudo estava escuro, mas ao longe se ouvia cavalgadas que se aproximavam cada vez mais depressa.
Assustada, entrei e bati a porta e olhei cuidadosamente pela janela. Por que eu estava assustada?Certamente era alguém indo para casa depois de um longo dia de trabalho.
—Disse alguma coisa, filha?
Tio Rick se aproximava ajeitando-se na roupa de dormir.
—Eu só ia buscar mais lenhas.
As cavalgadas silenciaram. Olhei novamente pela janela e meu coração gelou quando vi o brasão da família real estampada na carruagem luxuosa da realeza.
—O que foi?—tio Rick perguntou curioso. Eu não consegui dizer uma palavra. Os guardas desceram de seus cavalos e ficaram em escolta enfrente a carruagem enquanto alguém saía dela.
—Mas é o rei em pessoa!
Tio Rick exclamou olhando pela janela.
Como assim o rei?
Ele ficou uns instantes parado olhando tudo ao redor. Estava usando uma túnica longa que cobria toda a sua vestimenta. Os guardas iluminavam seu caminho enquanto se aproximava.
Dei uns passos para trás aflita. Tio Rick olhou para mim preocupado.
—Filha, você não devia recusar o convite do rei.
—Tio, o que será de mim?
—Pediremos clemência.
As batidas fortes na porta só me deixaram ainda mais nervosa. Ele não ia ter clemência.
—Calma.—tio Rick abriu a porta e o olhar do rei mostrava que estava furioso.
—Majestade? Sou apenas um humilde mercador e minha casa não tem o conforto que vossa alteza merece. Mas queira entrar, por favor. É uma honra recebê-lo.
Tio Rick abriu o caminho e o olhar do rei se direcionava a mim enquanto entrava lentamente.
—Essa é minha sobrinha Alana .Veio da Espanha algumas semanas.
—Eu sei muito bem quem ela é e de onde ela veio.—ele deu mais uns passos em minha direção.—e eu ainda tenho a marca da bofetada que me deu no rosto.
—Como?—Tio Rick perguntou incrédulo.
—Sua sobrinha me deu uma bofetada alguns dias atrás na cachoeira, senhor.
—Alana? Fez isso? Bateu na face do rei?
—Eu...não sabia tio. Ele me atacou e eu só...me defendi.
— Filha, que você fez?
Ele passou a mão no rosto sem acreditar no que acabara de ouvir.
—Faça logo o que tiver de fazer, mas não faça nada com meu tio.
—Fazer o que? O que seria o castigo adequado para uma agressão contra seu rei?
—Por favor, majestade. Castigue a mim, mas poupe minha sobrinha.
—Não! Tio eu sou a culpada. Deixa meu tio e irei para prisão e aceitarei minha condenação sem excitar.
Ele estreitou os olhos e se aproximou mais de mim, estava tão próximo que pude sentir seu hálito quente no meu rosto.
—Por que recusou meu convite e meu presente, senhorita?
Franzi o cenho. Então era só isso? Foi tirar satisfação só por que não aceitei seus caprichos?
—Sou uma simples camponesa,majestade.Não...me adaptarei a corte. Enquanto ao presente...sei muito bem o que pretende...majestade.
—E o que eu pretendo, senhorita?
Alisou delicadamente meu rosto, eu desviei.
—Conheço muito bem a fama que tens, majestade. E eu não sou esse tipo de mulheres.
—Pode especificar?—seu tom de voz não era mais o mesmo.
Olhei para tio Rick que me encarava tentando avisar para eu não falar o que estava pensando.
—Majestade, não sou como as mulheres que está acostumado. Não sou comprada por presentes e nem por um lugar na corte. Tenho minha dignidade e...não posso atender seus caprichos.
Pronto, falei.
Aquele homem tinha que saber que Alana não era comprada.
Seus olhos ficaram vermelhos de raiva, olhava para mim como se quisesse me enforcar com suas próprias mãos.
—Vim disposto a levá-la, senhorita.
Ele se virou e caminhou à saída.
—E virá comigo.
Franzi o cenho.
Mas que ousadia.
—A majestade não entendeu? Eu não irei a lugar nenhum.
Ele parou e deu uma olhada para um dos guardas que estavam ali. Parecia um sinal, pois o guarda assentiu e de imediato empunhou a espada ameaçando a cortar o pescoço do tio Rick.
—A senhorita não entendeu?—ele girou o corpo e me olhou friamente.
—Tens uma dívida comigo. Poupei sua vida quando me deu aquele tapa. Agora está na hora de pagar.
—Filha, vá.
Tio Rick implorou.
—Por favor, majestade.
Minha voz saiu em súplica.
—Não precisa levar nada.—ele estendeu a mão para mim com um sorriso diabólico.
Olhei para tio Rick, aquela espada o ameaçando, seu olhar aflito, não por ele, mas por mim. Era tudo minha culpa, eu não podia ter recusado o rei.
Um estrondo quebrou o silêncio entre nós.
—Rápido, senhorita. Pretendo chegar ao palácio antes que a chuva caia.
Mais uma vez olhei para tio Rick. Eu não queria deixá-lo sozinho. Ele precisava de mim.
—Por favor, majestade. Leve a mim. Castigue a mim! Por favor, majestade. Eu já vivi o que tinha que viver. Mas Alana ainda é jovem! Clemência, majestade!
Uma lágrima insistiu em cair e eu não pude impedir. Eu não podia deixar tio Rick pagar pelo o erro que eu cometi.
Olhei para o rei e meu ódio pairou de imediato.
Caminhei até a porta sem segurar sua mão estendida, nem olhei para trás. Apenas subi na carruagem com ajuda do cocheiro logo em seguida, o rei mimado subiu e se sentou de frente para mim.
Seguimos viagem em silêncio, eu não suportava olhar para ele.
O olhar desesperador do tio Rick ficou na minha cabeça durante todo o caminho.
Eu ia morrer, e ele ficaria sozinho para sempre...
***
Naquele momento eu não sabia o que eu estava sentindo...cada passo que eu dava me levava para dentro daquele imenso palácio, e quanto mais me aproximava ,mais o medo me dominava...
Alaric ia uns passos a minha frente, eu olhava tudo ao redor. Quanto luxo...
Os servos iam o reverenciando e me olhavam com certa curiosidade. Eu precisava sair dali correndo, mas eu estava cercada pelos guardas reais, respirei fundo aceitando meu destino.
Alaric parou a minha frente e virou seu corpo para me encarar, fiquei imóvel e assustada. Ele olhou para os guardas ao meu lado e eles assentiram. Seguraram pelos meus braços e me conduziam pelo imenso corredor. Não tinha jeito, era o meu fim. Toda a minha vida passou pela cabeça, meus pais, minha infância, Espanha, meus alunos, tio Rick e...Brian.
Ah Brian, por onde andas?
Pensava enquanto seguia forçadamente os guardas pelo palácio. Sem perceber, uma lágrima rolou no meu rosto.
Paramos diante de uma jovem muito simpática, ela sorria para mim percebendo meu nervosismo. Ela abriu a porta do quarto e me convidou a entrar. Eu não estava entendendo mais nada. Eu não ia para a prisão?
—Está sob a proteção do rei. Ninguém te fará m*l.
Disse a jovem tentando me tranquilizar.
Sob a proteção do rei?
Então eu não era uma prisioneira.
Eu estava ali para ser a diversão do rei. Como suspeitei no início.
Era essa a dívida que eu tinha com ele...
Cautelosamente dei uns passos para frente até estar dentro do quarto espaçoso e cheio de regalias.
Confesso que por um momento me senti uma princesa...só por um momento.
—Como se chama?
Não respondi. Ainda estava hipnotizada com tanta formosura daquele quarto.
—Bom, eu me chamo Katrine e estou aqui para cuidar de você.
—Cuidar de mim?
Olhei para ela confusa.
—Sim. Eu preparo as moças para o rei.
Respondeu já desfazendo o nó do meu vestido. Num impulso, segurei sua mão para impedi-la.
Ela me olhou franzindo o cenho. Estranhando meu comportamento.
—Não precisa ter medo do rei. Ele será bem generoso depois.
Tentou mais uma vez, mas eu dei uns passos para frente me afastando.
—Sinta-se privilegiada. Todas as virgens são bem tratadas pelo rei.
Ela caminhou até a mim e finalizou o que começou. Eu estava apavorada demais para me preocupar com minha nudez.
Meus Deus!O que vai ser de mim quando o rei perceber que...
Sacudi a cabeça afastando aquele pensamento.
—Seu banho está pronto.
***
Katrine penteava os meus cabelos enquanto eu me refletia no espelho atenta e nervosa. Ela balbuciava algumas palavras que não prestei atenção a nenhuma.
Madre mia.
O que será de mim...?
Enquanto Katrine tagarelava, eu pensava um jeito de me livrar do rei, pelo menos naquela noite.
Eu poderia falar a verdade, dizer que já não era pura, que eu havia me entregado ao homem que eu amava...
Onde estaria esse homem?
Casado com outra, certamente...
Não.
Eu não podia contar a verdade...ou podia?
Alguém bateu na porta e Katrine foi abri-la, ouvi sussurros e logo ela voltou para mim sorrindo.
—O rei mandou chamá-la.
Meu coração faltou saltar pela boca. Fiquei paralisada, sem reação.
Não tinha jeito, eu teria que ir.
Seria meu fim...?
E levantei lentamente, Katrine me envolveu com a capa longa vermelha de cetim cobrindo minha cabeça com o capuz, deu uma leve apertada em minhas bochechas para deixá-las rosadas.
—Não esqueça de nada do que falei.
Olhei para ela com os olhos arregalados.
Mas que diabos havia me falado?
—Vá depressa!
Fui escoltada por dois guardas durante todo o percurso longo, corredores imensos, escadarias, mais corredor e finalmente paramos diante da porta dos aposentos do rei. Meus batimentos aumentavam, m*l respirava.
Um dos guardas bateu na porta e a mesma se abriu.
Em passos lentos caminhei para dentro e logo a porta se fechou atrás de mim.
Olhei ao redor e vi num canto menos iluminado, ele estava ali, em pé envolvido em suas vestes da realeza, seu olhar estava apontado para mim.
Fiquei imóvel, não conseguia dar um passo.
—Finalmente!
Exclamou se aproximando de mim até parar alguns centímetros a frente.
—Estás ainda mais bela, milady.
Estendeu o cálice de ouro para mim, hesitei.
—Vamos, só um brinde.
Insistiu. Mas a quê brindaríamos?
Eu estava ali obrigada, não porque queria estar.
—Não tenho motivo algum para brindar, majestade.
Não acreditei que falei isso.
Alaric mudou seu semblante. Girou o corpo e deixou os cálices em cima da mesa, virando-se para mim outra vez.
—Sabia que era difícil. Mas não imaginei o quanto.—sorriu diabolicamente.—Adoro isso.—se aproximava em passos lentos.
—Esperei por esse momento desde quando a vi no cortejo do meu pai. A única que não se prostou diante da família real. Foi ousada, milady.
Tocou de leve no meu rosto me obrigando a dar uns passos para trás.
—Percebi qual pura e inocente és quando me atacou na cachoeira, para proteger sua inocência. Não conheci nenhuma com tanta bravura. Ao contrário, eu tive que fugir de algumas...
Convencido.
—Majestade, creio que eu não sou a pessoa certa para estar aqui com vossa majestade essa noite.
Ele franziu o cenho.
—Por quê?
—Posso não ser...boa o bastante para satisfazê-lo.
Ele sorriu.
—Isso é impossível.
Num impulso, e puxou para si colando nossos corpos.
—Majestade, por favor!
Ele me encarou confuso.
—Eu...eu não concordo que seja assim...
Ele me soltou sem tirar seus olhos de mim.
—O que está querendo dizer?
—Eu quero dizer que...
As palavras faltaram de tão nervosa que eu estava.
—Não precisa ter medo de mim.
Ele se aproximou novamente e segurou meu rosto com as mãos.
Me encarou uns segundos e encostou seus lábios nos meus.
Seu beijo foi profundo, havia desejo, uma vontade imensa de mim.
Não pude reagi enquanto sua língua explorava minha boca.
Brian me veio à cabeça...seus beijos, seu toque, suas carícias...
—Não!
Me afastei de imediato para longe dele.
Alaric me olhou desaprovando minha atitude.
—Tens uma dívida comigo, milady.
—Posso pagar com minha vida. Mas não com...—engoli a seco.—Não vou ceder aos seus caprichos, majestade.
Seus olhos estreitaram com furor.
—Está me desafiando?
—De forma alguma. Só deixo claro que eu não sou como as mulheres que está acostumado. Não sou um brinquedo que se usa uma vez e depois joga fora. Eu tenho sentimentos.
Não sei o que havia dado em mim. Mas o silêncio pairou naquele quarto por alguns instantes.
Até Alaric me agarrar desprevenida e me olhar fixo nos olhos.
—Então deixo claro que eu adoro um desafio.—me beijou raivosamente, tentei me soltar, mas ele era bem mais forte. Não tive outra opção a não ser morder seus lábios. Só assim ele me soltou, vi o canto da sua boca sangrar.
—Como ousa?
Perguntou quando sentiu o sangue escorrer da sua boca.—Sua dívida agora será eterna, maldita. Guardas!
De imediato já estavam de plantão.
Alaric me olhou prazeroso.
—Prendam essa mulher!
Pronto. Pagaria minha dívida na masmorra eternamente. Mas o rei não tocaria em mim...