— Onde estava? Procurei-te diversas vezes hoje. — Nina esperava Eliza em seu quarto e a questiona assim que ela adentra apressada.
— Estava com os turistas fazendo meu serviço de guia. Nina, todos estão amando os sorvetes da tia Cissa. Tem sido um sucesso! — ela diz já tirando a blusa e o short, para entrar no banho.
— Graças a Deus e a você por isso. Mas essa história de fazer b***s como guia turística e tradutora, olha só no que deu? Está indo de novo para a floricultura sem almoçar. Precisa pensar na saúde Eliza. — Provoca Nina. Sentada na cama de Eliza enquanto ela se despe e entra no banheiro. — Eu vou descer e fico um pouco lá para você, para que possa almoçar antes de ir.
— Não precisa amiga. Deixei a marmita arrumada para comer lá mesmo, quando não tiver movimento. — Eliza fala de dentro do banheiro. Nina se joga na cama, deitando-se. — Nina o que vai fazer hoje à tarde? Devia ajudar sua mãe... Aquilo ali está bombando.
— Ah Liz, eu já te disse, não levo o menor jeito com cozinha. E a Lara é quem cuida da administração. Elas são sócias, não posso pedir esse cargo para ela. Eu estou ralando para me formar em administração, não quero servir de garçonete. Fora que se eu for para lá, quem vai ficar na floricultura para Dulce, pela manhã? Agora que ela está doente, não aguenta mais. E você precisa desse dinheiro extra com os turistas para finalmente fazer o curso que tanto sonha.
Eliza sai do banho enrolada de toalha. — Nina você sempre se sacrifica por todos nós, não é? E olha, se você sair da floricultura e consequentemente eu também sair, Dudu vai empregar a Flávia, aquela moça que engravidou do turista ano passado, lembra? Ela também está precisando de emprego. Já a ensinei a fazer alguns arranjos principalmente os da igreja e ela já sabe muita coisa.
Ela pega no seu guarda-roupa um vestido azul, de mangas balonê, cinturado e longo, que possui uma tira de pano imitando um cinto. Ela ajeita esse cinto na sua cintura, apertando-o, calça suas sandálias de couro rasteiras, prende os cabelos em um coque e passa seu perfume. A amiga parece pensativa, deitada em sua cama.
— Vai comigo Nina? — a amiga acorda de seu pensamento e levanta confirmando que sim. — Você está bem?
— Estou... Sabe do que eu me lembrei? Assim, do nada, aqui deitada?
— Não. — Eliza põe as mãos na cintura.
— Daquele nosso baile dos 15 anos. Mais precisamente dos belos moços que nos cortejaram... — os olhos dela brilham ao falar seus pensamentos. Eliza respira fundo.
— Cortejaram é? Fala sério, Nina. Eu fui cortejada, agora vocês? Poupem-me. Não gosto de me lembrar daquele dia, sempre que lembro sinto uma imensa tristeza pelo que fiz aquele moço.
— Nunca quis saber dele, Liz? De todos três o seu era o mais alto e mais gato. E foi o mais gentil.
— Meu? — ela sorri. — Quem me dera ele ter sido meu. Eu o perdi para sempre quando o deixei com a cara vermelha, sem dar nenhuma explicação. Sabe, eu pensei muito nele, por muito tempo. Mas o homem nunca apareceu, nunca vi ninguém parecido, ou que tivesse a sua voz. Acho que eu reconheceria aquela boca linda assim que eu a visse. Ele me disse que morava no lado norte, e pelo tamanho do anel de ouro que ele tinha no dedo, ele deve ser bem rico. Não deve ter sido fácil para um rapaz de boa família, levar um tapa de uma plebeia da Vila. Eu não voltaria se fosse ele..., mas agora a realidade me chama e eu preciso trabalhar, vamos?
— Vamos. — Nina responde e acompanha Eliza, que pega a sua bicicleta rosa, com cestinha e bagageiro. Ela levanta aquele vestido comprido azul marinho e se senta no coxo da bicicleta e Nina ponga na sua garupa. As duas descem ladeira abaixo, sorrindo e fazendo todo mundo sorrir as vendo na bicicleta e gritando.
Assim que chega à porta da floricultura, Nina desce da garupa e Eliza, ainda sorrindo da maluquice, leva sua bicicleta para a porta e a 'estaciona' na lateral da loja. — Ainda bem que chegamos inteiras. — diz Nina.
Eliza destranca a porta da floricultura e abre, pega os jarros de plantas e dispõe do lado de fora as jardineiras, pendura as samambaias, ajeita os baldes com rosas e outras flores debaixo do toldo.
— Liz! — Nina prossegue. — Você pretende dar mesmo uma chance ao Maurício?
— Eu? Com o Maurício? Tá maluca Nina? Quem te disse uma coisa dessas? — Eliza sorri da pergunta de Nina.
— Ele. — Nina diz se encostando ao balcão.
— Acho que ele entendeu errado quando eu aceitei jantar na casa dele. Mas foi a sua mãe quem me convidou. Por isso eu aceitei. — Ela se senta na cadeira atrás do balcão, após organizar tudo.
— Graças a Deus que é só mais uma confusão dele. Maurício é bonito e tudo, mas... Sei lá. Eu não gosto dele. Não é para você. — Nina diz tentando não comentar que sonha em um dia a amiga reencontrar o garoto da máscara preta. O único que foi capaz de arrancar um beijo de Eliza e fazê-la sorrir sozinha, se lembrando dele.
— Não é mesmo. Quero que ele arranje alguém que goste dele. Essa coisa de namoro e amor não é para mim. Já disse a ele que assim que eu tiver conseguido a dinheiro para estudar, eu vou-me embora e deixo todas as lembranças ruins daqui para trás. Apesar de gostar da Vila e de ter pessoas que eu amo ao meu lado como você, Lara, Dudu e Tia Cissa e Fran, eu preciso sair desse lugar. você entende, não é? Prometo que venho te buscar.
— Aham. Você é tão inteligente amiga. Não pode ficar presa aqui nessa ilha. A não ser que conseguisse um emprego com os Firenze. Já pensou? Você executiva? — elas sorriem e Eliza apoia a cabeça com o braço dobrado em cima do balcão.
— Queria que um anjo passasse aqui e dissesse Amém para abençoar seu desejo. Mas como vou conseguir um emprego lá, se eu não tenho uma faculdade? Aquele povo só pega pessoas com experiência, indicação ou extremamente qualificadas. E eu não tenho nenhuma dessas coisas. — A amiga dela lamenta com um suspiro e Liz a olha de canto e faz aquela cara de tédio. — Pelo visto os turistas de hoje não estão dispostos a comprar flores. Nossa, que paradeiro. — Liz bufa.
— Você devia ficar na porta. Sempre que fica em pé do lado de fora isso aqui fica cheio de gringo gato. — Nina diz e ambas sorriem. — Eu não entendo bem como você ainda consegue chamar tanta atenção, com essas roupinhas de velha. Amiga, você devia largar de ser tão pão-duro e comprar umas roupinhas. Acho que estando extremamente arrumada, podia chegar à sede da Firenze e pedir para falar com o dono da p***a toda, que ele te daria um emprego na mesma hora. — Eliza sorri.
— Nina, os anos passam e você não muda. Continua essa sonhadora, que acha que as coisas vão acontecer assim como nos livros de romance ou contos de fadas. — Nina sorri.
— Não custa nada sonhar! Ainda! — as duas voltam a rir.
— Como será que deve ser o Sr. Firenze? — Liz indaga curiosa. — Eu o imagino sendo um homem de estatura mediana, cabelos pretos, meio gordinho da cara redonda, olhos pretos, sei lá... Uns 30 anos? E... Extremamente metido a b***a. Aquele tipo de pessoa que fica com o celular na mão — daqueles bem caros — acompanhando as ações na bolsa de valores, ou analisando os preços do último lançamento de um carro importado. Ou um novo modelo de jatinho. Eu já vi que ele anda muito de helicóptero, sempre os vejo pousar em sua mansão.
— Amiga, eu já vi uma foto do senhor Firenze em uma revista de fofocas, só que ele estava de lado, mas deu para ver que ele é lindo. Ele tem cabelos volumosos, lisos, é alto e nada barrigudo. E é bastante jovem. Ganhou um prêmio por ser um jovem empreendedor. — Ela olha a amiga enquanto Nina fala.
— Essas revistas usam Photoshop em tudo. Mas, para um homem tão rico não deve ser difícil comprar a beleza. Como diz tio Fran: — as duas se juntam para falar em coro — Não existe ninguém feio, o que existe é gente sem dinheiro! — As duas caem na gargalhada. — Seu pai é uma figura Nina!
Quando elas ainda estão rindo dos dizeres de Fran, dois carros pretos de luxo com os vidros escuros param em frente à floricultura. As amigas se entreolham surpresas, abismadas, impressionadas com os possíveis clientes.
— Será que eu cometi algum crime cibernético internacional e a CIA veio para me levar presa? — Eliza sussurra perto do ouvido de Nina. Nina põe a mão na boca para tampar o sorriso, enquanto dois motoristas descem do veículo e param de frente às portas traseiras dos respectivos carros e dois homens bem-vestidos, com ternos que deviam custar quase o preço da floricultura inteira, saltam de lá e adentram a simples lojinha.
Eliza reconhece um deles, é o Lu, um amigo que ela fez recentemente na loja e que ela o ajudou, conversando com uns j*******s via videoconferências.
— Olá Mon' amour! Ainda se lembra de mim Princesse? — Luciano pergunta colocando uma perna de seus óculos na boca.
— Oui, monsieur Luciano. — Eliza responde e Nina se sente perdida com tantas palavras estrangeiras.
O outro homem loiro, de cabelos curtos, de óculos escuros e uma barba por fazer, alto e esguio, encara Liz encantado.
É Antônio, que veio junto com Luciano para falar de negócios com Liz. Ele resolve testá-la, antes.
— Ciao, signorina, ho sentito parlare diverse lingue. Sono curioso di sapere come hai imparato tutto questo?
(Olá, senhorita, ouvi dizer que fala diversos idiomas. Estou curioso para saber onde aprendeu tudo isso?).
— Piacere di conoscerti. Ho imparato alcune lingue a guardare film classici attraverso siti web e film presi in affitto. Cassette tape e DVD.
(Prazer em conhecê-lo. Aprendi algumas línguas assistindo a filmes clássicos em sites e filmes alugados. Fita cassete e DVD.).
— When Luciano told me this story, I did not believe it, I confess.
(quando o Luciano me contou essa história, eu não acreditei, confesso.) — Antônio continua mudando o idioma. Eliza entende a pegadinha e resolve brincar com ele.
Eliza disse: Ele me pediu outro dia para falar com um japonês. — Disse isso em língua japonesa, turca, e em espanhol. — Gostaria de me ouvir em mais algum idioma senhor?
Antônio sorriu sem graça, enquanto Luciano prendeu a risada pelo desaforo de Eliza.
— Não. Não é necessário. Pude ver que não é enrolação. A senhorita sabe mesmo, de fato. — Ela confirma, com um gesto de cabeça.
— A que devo a honra de sua visita Lu? — Eliza se volta pra Luciano e deixa Antônio a lhe olhar, quase babando. Só não mais do que Nina está babando por ele. A garota ficou muda e hipnotizada por aquele belo homem loiro, com pequenos olhos azuis quase cinzas. Aquela barba bem-feita e encorpada e aquela boca rosa. Musculoso e alto, vestido em um terno cinza-escuro, uma camisa azul por baixo, sem gravata. E aquela calça também cinza parecendo que foi costurada no corpo, nem justa demais e nem folgada, dando a Nina a dimensão real de seu volume. Ela se abanava enquanto Eliza conversava com Luciano.
Luciano põe os óculos escuros no bolso de seu terno.
— Não é bem uma visita, meu anjo. Estamos aqui para lhe fazer uma proposta. — Eliza abre a boca na mesma hora e olha para Nina que agora voltou a si e parece surpresa. Nina se senta rápido no banco, interessada nessa tal proposta para a amiga.
— Uma proposta? — Eliza pergunta empolgada. — Que tipo de proposta? — ela coloca para trás uma fina mecha de cabelo que se soltou do coque.
— Uma proposta de emprego, meu doce. — Ele pega no queixo de Liz. Ela sorri.
— Prossiga! — Nina fala e gesticula circulando o dedo. Luciano olha para ela e sorri. Ela pisca os olhos.
— Queremos que venha trabalhar conosco. Precisamos fechar um contrato muito importante com aqueles j*******s com os quais você conversou outro dia e na nossa empresa ninguém sabe falar essa língua. E precisamos de uma assistente pessoal para o senhor Firenze. Com esse negócio iminente, a agenda dele está uma loucura e ele não está conseguindo organizar o tempo. E como você é a intérprete e por isso terá que lidar diretamente com ele, de toda forma achamos que seria interessante unir as duas funções, satisfazendo nossas necessidades e em contrapartida lhe oferecendo uma vaga fixa, como você tem direito e sendo bem remunerada. — Luciano respondeu, ao passo que Antônio lhe tomou a palavra.
— Além de todos os benefícios que os funcionários da rede Firenze recebem, como plano de saúde, bolsa de estudos, 13° e 14° salários, participação nos lucros, auxílio-transporte, auxílio-escola para os dependentes e vale-alimentação, você também irá receber uma ajuda de custo mensal para poder se vestir adequadamente para os eventos que terá de ir juntamente com o Sr. Firenze. O que nos diz? — Luciano olha para Antônio com ar reprovador.
— Eu preciso pensar. Como sabem eu trabalho aqui. Não posso simplesmente virar as costas para a mulher que me empregou quando mais ninguém fez isso. — Eliza disse friamente. Ela está bastante cética quanto a este emprego maravilhoso que acaba de cair do céu. É perfeito demais para ser verdade. É um sonho!
Mal sabe ela quem de fato é William Firenze. Na verdade, ninguém ali faz ideia de quem é quem. Antônio foi o rapaz que beijou Nina aquela noite, e ambos não se reconhecem.
Nina está ali sem entender a atitude da amiga diante da chance de sua vida, mas vai respeitar a decisão que está tomando diante daquelas pessoas.
— Tudo bem anjinho. Só quero te dizer que mesmo que não queira aceitar a proposta para ser assistente, nós realmente precisamos de você como intérprete. — Luciano faz uma cara de aflição. — Preciso muito que me salve. Eu aceito você somente pela manhã e te pago um bom salário, pelo menos até essa negociação terminar. Eu adoraria ter você para sempre e o dia inteiro, mas tudo bem se não puder. Porém, quanto ao serviço de intérprete eu não abro mão. Eu te pago exatamente o que você quiser receber — Luciano diz a ela, enquanto Antônio o olha e engole a seco diante daquelas promessas. Luciano é de fato um assessor internacional, um fechador de negócios, um ninja em descobrir informações sem esforço que agora está usando seu poder de convencimento, disfarçado, com Eliza.
— Segunda-feira eu lhe dou a resposta. Pode ser Lu? — e pelo visto conseguiu. Antônio agora tem certeza de que ela aceitará a proposta e ri internamente pela personalidade de Eliza.
— Oui mon'amour. Mas se eu precisar de alguma ajudinha antes disso, você me ajudaria? — Ele sorri para ela, de forma zombeteira.
— Oui Seigneur. — Ela sorri para Lu, tentando segurar o verdadeiro sorriso que quer fugir de seus lábios.
Antônio estica os braços e se despede delas, mesmo irritado com seu desprezo a ele está encantado com tamanha beleza, inteligência e austeridade.
Eles deixam a floricultura e no caminho de volta a empresa Luciano o recrimina por ter tomado a frente da conversa antes da hora e ter antecipado coisas demais, como dizer que ela receberia auxílio para se vestir, dizendo o quanto aquilo soou humilhante, fazendo Antônio repensar um pouco no uso de suas palavras, afinal, ele era um chefe de RH.
Mas na floricultura, após a saída deles, a coisa foi bem diferente. Assim que os dois carros dobraram a esquina Eliza pulou e saltou eufórica, fazendo Nina também festejar, por entender que ela aceitaria a proposta.
— Então você vai aceitar? — Nina pergunta assim que Eliza a desgruda.
— É claro que sim amiga. Parece que um anjo passou e disse Amém, enquanto você falava. Jesus... Olha minhas mãos? — Eliza mostra as mãos para Nina, trêmulas e frias. Não se sabe se era pelo nervosismo e euforia da notícia ou se era fraqueza, visto que ela, até àquela hora, não havia se alimentado da marmita que ela arrumara e que estava guardada na geladeira. — E não bastava eu ser contratada para fazer algo que eu gosto, ainda tem o fato de me tornar assistente pessoal do CEO. Gente do céu! Será que... Ah meu Deus! — Eliza leva as mãos até a cabeça. — Nina, eu vou andar de helicóptero... Iate... Jatinho... — o arregalar de olhos de Eliza é tão grande que parece que as duas bolas azuis vão saltar de dentro da caixa.
Após pular e festejar e abrir a boca diante das coisas que Liz disse, Nina consegue falar — só não entendi por que não aceitou logo de uma vez.
— Sou uma mulher que sabe negociar. — Liz diz colocando a mão no peito e fazendo cara de confiança. — Se eu não n**o a proposta e digo que vou pensar isso aumenta o valor do meu passe. É preciso fazer certo charme e valorizar seus dons. Aprendi isso assistindo James Bond. — Nina sorri da inspiração de Liz. — Eles estavam desesperados e necessitados demais para que eu aceitasse. Então simplesmente não corro riscos de perder a oportunidade, e posso exigir o que eu quero e o que não quero. Então segunda chegarei lá com uma contraproposta. Eles me fizeram a proposta e eu direi a minha condição. — Após dizer isso ela arrebitou o nariz e passou o dedo na ponta dele, empurrando-o para cima.
— E eu, uma anta, achando com meus botões que você não aceitou porque de fato estava preocupada com a Dudu, ou que foi por conta da arrogância daquele loiro lindo e pauzudo lá. Vai ser gostoso assim lá no inferno! — Nina bate a mão na mesa.
— Jesus, tu viste? Mas o que tinha de beleza tinha de antipatia. Nosso sangue não bateu. Hum, hum! Amiga, vou fazer diversas exigências, coisas pontuais que na verdade eu sei que eles não poderão cumprir, assim para que ambas as partes saiam satisfeitas do acordo, eles terão de me oferecer ainda melhores condições para que eu possa ceder às necessidades e caprichos deles. Mas no fundo, se eles me pagassem o dobro do recebo aqui, eu ia sem pestanejar. Amiga... Parece que a vida sorriu para mim. Juro-te que em um ano estou pedindo demissão e partindo para os Estados Unidos para fazer meu curso superior. Aiaiaiaiai... — Ela bate murrinhos no balcão, fazendo um som. Nina a abraça pelas costas.
— Você merece amiga. Estou ansiosa para ver você naquelas saias lápis e blusas sociais, de secretárias. Com terninhos elegantes e... Bem, essa parte será bem engraçada... Você de scarpin. — Nina se embola de rir e Eliza faz uma cara de susto.
— Oh my God! Será que eu serei obrigada a usar saltos? Cristo Redentor! — Eliza faz um sinal da cruz. E Nina se retorce de rir ainda imaginando Eliza revirando os pés nos saltos agulha que irão obrigá-la a usar.
— Tantas vezes te ofereci os meus para aprender, você nunca quis. — Ela concorda e se lamenta pondo a mão na testa.
— Amiga, hoje. Nós. Vamos. Sair. — Ela sacode Nina pelos ombros.
— Jura? — Liz confirma e Nina puxa o celular do bolso. — Vamos avisar a Lara.
Não passa meia hora que Nina avisa o que aconteceu na loja e fala que vão sair — a convite de Liz — para comemorar, e Lara já chega à porta da loja para saber a notícia pessoalmente.
— Liz, conte-me tudo e não me esconda nada. — Lara fala quase gritando.
— É isso aí, eu vou trabalhar na Firenze, ao lado do todo poderoso, sendo assistente pessoal e intérprete. — Ela se levanta, estica os braços com os punhos fechados e os encolhe e estica enquanto rebola o bumbum, numa dancinha que faz Lara sorrir ainda mais.
— Liz, como foi isso? De onde saiu isso? Estou em choque. Como eles descobriram você?
— Há uns dias eu fiz um favor para um rapaz que conheci no porto enquanto recebia os turistas, ele precisava conversar com uns j*******s, mas não sabia falar japonês e ao ver-me falando com uns coreanos, me perguntou se eu também falava japonês e me pediu para ajudar ele. Eu fiz então hoje ele voltou aqui, com um homem do lado, gato todo, porém antipático e me fez essa proposta.
— Uau! E que dia você começa sua vida de executiva?
— Na verdade eu irei segunda-feira até lá, para dar a resposta. Fiz um pouco de charme.
— Mais gente! Uma desesperada dessa, pé rapada, fazendo charme para a Firenze Hotéis? — Lara sorri e as amigas a acompanham.
— Lara, Liz vai ganhar um card. para comprar roupas adequadas para acompanhar o patrão em eventos da alta sociedade. Agora veja bem, imagine Eliza em um scarpin de salto 15? — As duas riem tão alto enquanto Liz franze o cenho e semicerra os olhos tentando reprovar as risadas, mas não aguenta por muito tempo e passa a rir dela mesmo, na imagem que projeta em sua mente.
Lara sai da loja sorrindo e volta para a sorveteria. Nina também vai embora cuidar das coisas em casa enquanto a mãe está na loja de sorvetes e Liz fica sozinha na floricultura. Ela fica feliz e ao mesmo tempo aflita por ter que mudar quem é para viver nesse mundo de gente grande.
Mais tarde as amigas se encontram e vão até o porto para fazer a tal comemoração. Liz conta que já conversou com Dudu o que aconteceu e falou sua decisão e que Dulce havia ficado muito feliz, deixando-a aliviada. Liz também diz que com o plano de saúde da empresa vai ser melhor para a amável senhora fazer seu tratamento de saúde. E que a mãezinha chorou bastante com a gentileza de Liz em pensar nela.
As amigas conversam bastante e até bebem vinho. Quase meia-noite é que Liz vai para casa, seguindo direto para o banco do portão em forma de castelo.
Como sempre, não há ninguém na rua. Só alguns sapos e os grilos fazendo seu canto irritante. Mas hoje até eles fazem música para Liz. Ela senta-se naquele banco de cerâmica em forma de trono, gelado pela noite fria, olha para o céu atentamente e conta para seu pai a grande notícia. Liz sorri animadamente. Depois se levanta e dança a música dos grilos para espantar o frio e ao mesmo tempo comemorar de novo, agora sozinha, pela chance de mudança.
Era destino! Agora as coisas vão mudar radicalmente, ela pensa.
E ela m*l sabia o quanto mudaria...
Enquanto ela dança e gesticula em pé sobre o banco, William a assiste atentamente de sua casa.
As imagens passando na grande tela de seu quarto.
Ele queria saber o motivo de tanta alegria. Daria um milhão para saber o motivo daquele sorriso e do porquê ela estar toda arrumada àquela hora da noite.
E pela primeira vez William se retém ante a possibilidade de Eliza estar com alguém. Um alguém que não é ele. Um alguém que a faz sorrir daquele jeito e conversar sozinha em voz alta e cantarolar e saltar no meio da noite. Pela primeira vez, desde a morte de seus pais, William deixa uma lágrima escapar e desliga a TV.
Eliza volta para casa, espantada da rua pelo frio. Deita-se em sua cama e se agasalha. Ela fica lembrando-se de todos os acontecimentos do dia, desde a manhã até à noite. E acaba lembrando-se das perguntas de Nina sobre o homem mascarado e em como em todas as noites abraça seu travesseiro e imagina-o sendo o rapaz, o seu príncipe encantado.
Ela se lembra daquele beijo como se fosse hoje. E adormece!