Capítulo 1

1734 Words
Valentina narrando A caneta pesava na minha mão como se fosse feita de chumbo, eu encarava o contrato sobre a minha mesa de carvalho do escritório, mas as letras pareciam dançar, transformando-se em manchas negras que zombavam da minha desgraça. — Valentina, pelo amor de Deus, seja razoável — Rafael, meu sócio, bufou pela décima vez naquela manhã, ajeitando a gravata com movimentos nervosos. — É uma oferta irrecusável. O Francisco Benício não é homem de ouvir "não". Ele quer as terras, ele tem o documento assinado pelo seu pai... por que dificultar? — Porque meu pai nunca assinaria aquilo, Rafael! — minha voz saiu mais aguda do que eu pretendia. — Eu conhecia o meu pai. Ele amava aquele lugar. Francisco é um abutre, um criminoso que se esconde atrás de ternos italianos. Rafael se inclinou sobre a mesa, o rosto vermelho. — Você está sendo infantil. Se não assinar por bem, ele vai dar um jeito. Você sabe como as coisas funcionam no Rio. Eu sabia, sabia melhor do que ele, o que Rafael não sabia era que eu tinha o "Arquivo X". Um pen drive escondido onde meu pai guardara o verdadeiro rosto de Francisco Benício. Vídeos que fariam o estômago de qualquer pessoa normal revirar. Francisco não era apenas um empresário agressivo; ele era um monstro, um estuprador, um homem que usava o poder para violar tudo o que fosse puro, se ele descobrisse que eu tinha aquilo, as terras seriam o menor dos meus problemas, ele me queria morta. Saí do escritório sufocada, o sol do Rio parecia queimar minha pele com uma intensidade hostil. Dirigi até a Baixada como se estivesse fugindo de um fantasma. O Miguel... Deus, o Miguel era meu único porto seguro, éramos amigos há anos e, há apenas duas semanas, eu decidir dar uma chance a ele, ele era doce, um estagiário com sonhos grandes, mas agora, olhando para o abismo à minha frente, eu me perguntava se era justo arrastá-lo para a minha ruína. A noite caiu como um manto de chumbo, eu não conseguia pregar o olho, virava de um lado para o outro na cama, os lençóis grudando no meu corpo suado. Cada estalo da casa parecia um tiro. O pânico era um gosto amargo no fundo da minha garganta. Exausta de lutar contra a insônia, desci as escadas na penumbra para beber água. Meus pés descalços não faziam barulho na madeira, mas meu coração martelava contra o meu peito. Quando alcancei o último degrau, meu sangue congelou. Um cheiro forte e doce de maconha invadia a sala. E ali, sentado no meu sofá como se fosse o dono do mundo, estava uma sombra. A luz da luminária de pé se acendeu, e eu perdi o fôlego. Ele era o pesadelo em forma de homem. Alto, ombros largos que pareciam ocupar todo o espaço, vestindo uma camisa branca que contrastava com a pele bronzeada e coberta de tatuagens que subiam pelo pescoço. Usava luvas de couro pretas, calça jeans escura e coturnos pesados. Era absurdamente bonito, de uma forma perigosa e c***l. Mas eram os olhos dele que me paralisavam: orbes escuros, vazios de qualquer humanidade. E no centro de tudo, uma pistola preta repousava sobre a mesa de centro, apontada diretamente para o meu peito. — Boa noite, Val — ele rosnou. A sua voz era rouca, vibrando com uma frieza que me fez tremer dos pés à cabeça. — Quem é... quem é você? O que está fazendo aqui? — As palavras m*l saíam, tropeçando na minha língua travada. — Sou a última pessoa que você vai ver na vida — ele disse, e um sorriso lento e calculista surgiu em seus lábios. Não era o sorriso de um homem; era o de um predador que já saboreava a sua presa. — Por quê? Não faz isso comigo... por favor... Meus joelhos cederam e eu sentei no chão da escada, o meu corpo inteiro entrando em convulsão de tremor, ele se levantou. Cada passo que ele dava na minha direção soava como a contagem regressiva para o meu fim, ele parou a centímetros de mim, exalando um cheiro de maconha e perigo. — Porque você foi uma menina malvada e disse "não" ao seu dono — ele grunhiu, a voz carregada de um sadismo contido. — Eu... eu não tenho um dono — sussurrei, as lágrimas começando a transbordar. — Vai ter um agora. E ele não é como o antigo — ele disse, segurando meu queixo com os dedos enluvados, forçando-me a encará-lo. — Só não me machuca, por favor — implorei. Ele se inclinou, o seu rosto quase tocando o meu, o calor que emanava dele era opressor. — Eu vou te machucar, Valentina. Quero te machucar muito. E a melhor parte? Quero que você goste disso. O choque daquela frase me atingiu como um tapa, seus olhos não brilhavam com a sede de sangue que eu esperava de um matador de aluguel. Havia algo mais ali. — Você tem duas opções, Valentina — ele continuou, a voz descendo para um sussurro perverso. — A primeira é morrer. Posso estourar seus miolos agora e deixar o seu sangue decorar essa parede. A segunda opção... é você se vender para mim. Meu coração errou a batida. — O quê? Ficou maluco? Eu nunca faria isso! — gritei, a indignação lutando contra o pavor. — Não vai fazer? — Ele soltou meu rosto e pegou a arma. — Então vamos pelo caminho difícil. Primeiro, usarei um alicate para arrancar seus dedos, um por um. Depois, cortarei sua língua para você nunca mais dizer "não" a ninguém e... — Espera! — gritei, cobrindo o rosto com as mãos. — Não... eu não quero morrer. — Então você é minha? — Ele sussurrou, acariciando minha bochecha com o couro frio da luva. — Eu não sou sua e nem... Ele não me deixou terminar. Tirou uma serra pequena e brilhante do bolso da calça. — Não vamos complicar, garota. Quais são suas últimas palavras? Eu recebi cinquenta mil reais para te apagar. Se quiser continuar viva, deixe-me ser o senhor da sua vida. O homem que comanda cada respiração sua. Se não for assim, você não sobrevive a esta noite. O pânico me venceu, eu olhei para aquela serra, para aquela arma e para o vazio nos olhos dele, eu estava sozinha. Francisco tinha enviado a morte, e a morte estava me oferecendo um contrato de escravidão em troca da vida. — Eu aceito — a minha voz saiu arrastada, um trapo de som. Aceitar aquilo era como assinar minha sentença de morte em vida, mas o meu instinto de sobrevivência falava mais alto que a minha dignidade. — O meu dono... é o Francisco Benício? Eu vou ter que ficar com ele? — balbuciei, o terror de ser entregue àquele monstro me consumindo. Ele rosnou, um som animal que vibrou no ar. — Nunca mais repita isso! — Ele me prensou contra o corrimão da escada. — Eu sou o seu dono. Você continua viva porque eu comprei a sua vida. Eu decido quando você respira e quando você sangra. Entendeu? — Você... pretende se divertir comigo e depois me matar? Como posso confiar em você? — Nunca confie em mim — ele disse, afastando-se com uma frieza brutal. — Apenas obedeça. Esqueça esta casa, esqueça sua vida antiga. Valentina Melo morreu hoje. Pegue o que for essencial. Temos cinco minutos. Ele caminhou até a cozinha e pegou um galão, o cheiro de gasolina invadiu a sala instantaneamente, e meu estômago embrulhou. Ele ia queimar tudo. — Está esperando o quê, p***a? Move o r**o, Valentina! — ele vociferou. Corri escada acima, as minhas pernas trêmulas, o que eu levaria? Minha vida estava sendo reduzida a cinzas. Peguei uma mochila, joguei algumas roupas e, acima de tudo, o pen drevi com as provas contra Francisco. Se eu quisesse ter alguma chance de barganha no futuro, precisava daquilo. Desci correndo, ele arrancou a mochila da minha mão e jogou meu celular no chão, esmagando-o com o coturno. — Sem rastros. De hoje em diante, você é um fantasma. Seguimos para o carro que estava parado nos fundos, quando ele abriu o porta-malas, eu recuei, um grito sufocado morrendo na minha garganta. Havia um cadáver feminino ali dentro. Uma mulher jovem, com a pele pálida e fria. — Meu Deus... você a matou... — Matei no caminho — ele disse, com a indiferença de quem comenta sobre o clima. — O tipo físico e o cabelo são parecidos com os seus. O suficiente para enganar a perícia quando o DNA for colhido das cinzas. Ele era um psicopata, um monstro completo. Assisti, paralisada, enquanto ele carregava o corpo para dentro da minha casa, colocando-o no sofá onde ele estivera sentado. Ele pegou uma tesoura e cotou o cabelo dela, com uma agilidade assustadora, começou a preparar a cena do crime. — Sua vez — ele disse, virando-se para mim. — Corta o cabelo. — O quê? Não! — É o único jeito, Valentina. DNA na cena. — Ele se aproximou, e eu senti que não tinha escolha. Meu corpo ficou tenso como uma corda de violino enquanto ele fazia uma trança grossa no meu cabelo longo, que eu cuidara por anos. Com um movimento seco, ele cortou, eu senti o peso indo embora, o toque das costas agora exposto ao ar frio. — Vou costurar seus fios na cabeça dela — ele sussurrou, enquanto trabalhava no cadáver com uma precisão macabra. — Para parecer natural quando os peritos encontrarem os restos carbonizados. Aquela cena era brutal demais, ver meus próprios cabelos sendo fixados em uma morta para que o mundo acreditasse que eu era ela... foi o momento em que minha sanidade rachou. — Entra no carro — ele ordenou, acendendo um isqueiro Zippo. O clique do isqueiro foi o último som da minha antiga vida, ele jogou a chama sobre a gasolina, e a sala explodiu em um laranja infernal, as lembranças do meu pai, minhas fotos, meu passado... tudo estava virando fumaça. Enquanto o carro se afastava e eu via o brilho do incêndio pelo vidro traseiro, percebi a verdade terrível. Eu não tinha sido salva. Eu tinha sido sequestrada pelo d***o e pelo brilho nos olhos dele enquanto ele me olhava pelo retrovisor, o meu inferno estava apenas começando.
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