Ceifador narrando
Valentina Melo tinha que morrer, esse era o contrato cinquenta mil reais pelo último suspiro daquela advogada de olhos castanhos e sorriso de porcelana, mas o mundo do crime tem uma regra de ouro: eu só entrego o que eu prometo, e eu nunca prometi a Francisco Benício que ela ficaria morta de verdade. Só prometi que ela desapareceria.
Para o mundo, para a polícia e para aquele empresário desgraçado, Valentina virou fumaça e cinzas, o corpo que deixei no sofá, o incêndio criminoso, os fios de cabelo costurados... tudo foi uma coreografia macabra para garantir que o DNA dela fosse "encontrado" na cena do crime enquanto os bombeiros ainda lutavam contra as chamas na Baixada, ela estava ao meu lado, chorando e desesperada, sem saber que o seu destino já tinha sido riscado pela minha caneta muito antes do primeiro galão de gasolina ser entornado.
Arrastei-a pelo braço para dentro de uma das minhas casas de apoio no morro não era a minha casa principal, mas era um lugar onde ninguém entrava sem o meu aval, joguei-a sobre a cama, e ela se encolheu instantaneamente, abraçando os seus joelhos, os olhos arregalados de choque pela brutalidade com que eu resolvo as pendências da vida.
— De hoje em diante, seu nome é Giulia — anunciei, a minha voz saindo como um trovão naquele espaço apertado, segurei o rosto dela com força, obrigando-a a me encarar. — Você não tem permissão para sair desta casa, nem para abrir a porta para estranhos, seu único contato com o mundo sou eu para todos os efeitos, Valentina Melo está apodrecendo no inferno, só eu posso te ver. Entendeu?
— Sim... eu... eu estou entendendo — ela balbuciou, a sua voz sumindo entre os dentes que batiam de pavor.
— Não tenho paciência para criancice — grunhi, apertando ainda mais sua mandíbula. — Espero que seja uma garota quieta, se eu sonhar que você passou da linha que eu desenhei, as consequências vão ser piores do que qualquer coisa que você imaginou.
Ela tentou reunir um resto de dignidade, os olhos brilhando com uma faísca de revolta.
— Vou ser sua prisioneira? Por que está fazendo isso comigo? Eu não quero ficar aqui! Você não pode me obrigar!
Soltei um riso seco e perigoso, prensando-a contra o colchão.
— Não te trouxe à força, p***a! Você aceitou o trato na escada da sua casa. Agora sua alma, seu corpo e cada respiração que sai desse seu peito me pertencem. Você está viva porque eu quis. E só vai morrer quando eu decidir que cansei de você.
— Então é isso? — ela perguntou, a sua voz embargada. — Me trouxe para me torturar? Para me fazer refém? E quando enjoar de brincar de casinha, vai me apagar?
— Não sou obrigado a responder suas perguntas, "Giulia". Fica dentro desta casa. Se botar o pé na viela, eu vou saber. E aí vai ser o seu fim, ou o fim de quem tentar te ajudar. Eu não tenho problema nenhum em empilhar corpos.
Saí do quarto sem olhar para trás, ouvi o som dela se encolhendo em posição fetal, os soluços abafados ecoando no corredor.
Eu sabia que era medo e eu não dava a mínima, no Morro dos Prazeres, o medo é a única moeda que não desvaloriza, eu sou o Ceifador. Nasci nas sombras e nelas pretendo ficar, sem sentimentos, sem fraquezas.
Tinha uma última etapa para o meu plano ser selado, Francisco precisava de uma prova de que o serviço foi concluído, entrei no meu carro e peguei o Livro n***o, no meu mundo, a morte precisa ser registrada com o fluido que a define, peguei uma faca de ponta, afiada como uma navalha, e fiz um corte rápido na palma da minha mão esquerda, o sangue quente brotou, escuro e denso. Deixei que ele gotejasse sobre o papel, manchando o nome de Valentina Melo. Peguei a caneta e fiz um risco pesado por cima. Morta.
Meu telefone vibrou, não demorou o nome no visor apareceu era ele Francisco Benício, o desgraçado deve ter visto o plantão na TV. Enrolei um pano branco na minha mão ferida e montei na minha moto, e segui para a Avenida Brasil, o asfalto rangendo sob os pneus, o sedã preto já estava lá, estacionado sob a sombra de um viaduto.
Entrei no carro em silêncio. Francisco estava desmoronado no banco do motorista. Pupilas dilatadas, olhos vermelhos e o rosto inchado. Ele chorava como se tivesse perdido um m****o do próprio corpo. O cara era um lunático completo.
— Você matou o amor da minha vida? — ele sussurrou, a sua voz trêmula de uma emoção que beirava o delírio.
— Foi o que você pagou para ver — respondi com desprezo, abrindo meu caderno manchado. — Valentina Melo não existe mais.
Ele deu uma gargalhada histérica, daquelas que dão arrepios.
— A culpa foi dela! Ela não me queria... preferiu a morte a me dar aquelas terras... e eu... eu amava aquela desgraçada.
Senti um soco no meu estômago que não foi físico, um ciúme súbito, n***o e corrosivo, subiu pela minha garganta. A ideia de que aquele verme tinha desejado a Valentina, de que ele se sentia no direito de "amá-la", me dava nojo. Ela não era dele. Ela era minha.
— "Amava"? — repeti, a minha voz carregada de veneno.
— Sim, eu amava! — ele gritou, socando o volante com força. — Ela era perfeita!
— Dobre suas palavras comigo, Francisco — rosnei, abrindo a porta do carro. — Não sou um dos seus capangas e não dependo de nada que venha de você, o serviço está feito, agora some da minha frente antes que eu decida que o próximo nome no caderno é o seu.
Saí do carro sentindo o meu sangue ferver, se dependesse de mim, ele nunca mais saberia que Valentina respirava o mesmo ar que ele, ela agora pertencia a mim.
De volta ao Prazeres, minha cabeça era um turbilhão, eu ainda não entendia por que tinha deixado a Valentina viva, capricho? t***o? Talvez a beleza dela fosse um insulto à morte que eu espalho todos os dias.
Parei no bar da Dona Zefa e pedi uma cerveja gelada, eu estava sentado num canto, observando o movimento dos vapores, quando um perfume barato e excessivo invadiu o ambiente.
Rita, ela apareceu usando uma minissaia tão curta que era um milagre ainda esconder alguma coisa, aproximou-se com aquele sorriso de quem acha que é a dona do dono.
— Gostoso... — ela murmurou, passando os braços pelo meu pescoço e mordendo o lábio. — Te procurei o dia todo. Estou com fogo, Ceifador. Vamos subir?
— Não — respondi seco, afastando os braços dela. — Não estou num bom momento. Me deixa em paz, Rita.
A presença dela me causava náuseas.
— Qual é? Não precisa ser grosso — ela insistiu, tentando me tocar de novo.
— Escuta aqui — segurei o braço dela com força. — Estou sabendo que você anda por aí se chamando de "primeira-dama". Deixa eu te explicar como a banda toca: não tem primeira-dama aqui. Você é só uma marmita. Comeu, guardou, tchau. Entendeu?
— É por causa daquela garota na viela vermelha? Aquela que você escondeu lá hoje?
O mundo parou por um segundo, no mesmo fui tomado por uma fúria assassina.
— Quem te falou sobre isso? Qual vapor você está dando para conseguir essas informação, sua v***a? — Minha mão voou para o pescoço dela, apertando até que ela perdesse o fôlego.
— Calma... eu... eu só queria saber... — ela engasgou, os olhos arregalados.
— Não se atreva a meter o bico nos meus assuntos, você não quer conhecer a minha pior fase — soltei-a com um empurrão.
— Eu vou descobrir! — ela gritou, recuperando o fôlego, a sua voz cheia de rancor. — Eu sei que você come outras, eu finjo que não vejo. Mas trazer uma patricinha para o morro e guardar ela no lugar onde a gente transava? Isso é demais para mim!
— Demais para você vai ser quando eu te furar toda e jogar seu corpo no lixão — sibilei, chegando perto do rosto dela. — Fica longe daquela casa. Se eu souber que você abriu a boca para alguém, ou que chegou perto da viela vermelha, eu vou te torturar de um jeito que você vai implorar para eu puxar o gatilho.
Saí do bar sem rumo, sentindo o ódio pulsar nas minhas têmporas. Ninguém podia saber da Valentina. Ninguém.
Para que Giulia pudesse nascer, eu precisava apagar cada rastro da existência de Valentina, ela estava nas minhas garras agora.
E por mais que ela quisesse fugir, a minha vontade era a única lei que importava, eu ia possuí-la com calma, quebrar cada uma das suas resistências até que ela entendesse quem manda.