Ficar parecia mais fácil. Era isso que eu sempre dizia a mim mesma quando algo doía demais para ser confrontado. Ficar evitava escândalos, evitava perguntas, evitava o trabalho emocional de reconstruir tudo do zero. Ficar me mantinha conhecida naquele sofrimento antigo, quase confortável de tão previsível. Mas naquela manhã, sentada na cozinha da tia Naná, percebi que ficar também tinha um preço — e ele era alto. O café esfriava na minha xícara enquanto eu observava o vapor subir lento, dissipando-se no ar. Eu estava ali fisicamente, mas minha mente insistia em revisitar a casa que deixei para trás. Cada canto carregava uma memória que agora doía de outro jeito. Não era saudade. Era ferida aberta. — Você tá aqui, mas ainda tá lá — disse tia Naná, sem me olhar. Levantei os olhos devaga

