Eu sempre soube. Não de forma clara, não com palavras organizadas, mas com aquele incômodo constante que a gente aprende a ignorar para continuar vivendo. Um desconforto que se infiltra nos gestos pequenos, nos silêncios longos demais, nos olhares desviados. Agora, longe daquela casa, essa verdade começou a se organizar dentro de mim. Ele nunca teve vergonha de mim. Tinha vergonha do meu corpo. Na primeira noite na casa da tia Naná, eu fiquei acordada por horas, olhando para o teto baixo, ouvindo os sons da favela que nunca dormia completamente. Gente conversando, moto passando, música distante, risadas misturadas com discussões. Era barulhento, mas não era hostil. Era vida acontecendo sem pedir desculpa. Diferente da minha antiga vida, onde tudo precisava ser contido para não incomo

