Meu corpo sempre chegou antes de mim. Antes do meu nome, antes da minha voz, antes de qualquer tentativa de existir. Onde eu ia, ele entrava primeiro, ocupando espaço, provocando olhares, julgamentos silenciosos ou escancarados. Eu cresci aprendendo que meu corpo era um erro que precisava ser compensado com gentileza excessiva, silêncio e vergonha. Na Beira-Mar, isso começou a mudar — não porque meu corpo fosse celebrado, mas porque ele simplesmente… existia. Naquela manhã, acordei cedo e decidi ajudar tia Naná a lavar algumas roupas no tanque do quintal. O sol ainda não estava forte, e o ar tinha aquele cheiro de dia que começa sem promessas. Vesti um vestido simples, mais justo do que eu costumava usar. Não porque quisesse provocar nada, mas porque era o que estava limpo. Quando saí

