A ideia de ir embora não veio como covardia. Veio como descanso. Ela surgiu numa manhã comum, quando acordei antes do sol e fiquei sentada na beira da cama, ouvindo o morro ainda adormecido. Havia algo diferente no silêncio daquele horário: não era ameaça, nem alerta. Era pausa. E, pela primeira vez em dias, pensei no quanto seria simples pegar uma mochila e desaparecer. Fugir seria mais fácil. Não exigir explicações. Não testar limites. Não viver com o corpo em constante estado de atenção. Levantei e fui até a cozinha. Tia Naná já estava acordada, como sempre. Ela me olhou com aquele olhar que atravessa sem precisar de pergunta. — Você pensou em ir — disse. Não foi acusação. Foi constatação. — Pensei — respondi. — Não hoje. Mas pensei. Ela assentiu, mexendo o café. — Pensar nã

