Aqui Ninguém Me Olha Com Pena

1592 Words

Demorei para perceber. Não foi imediato, nem bonito, nem acompanhado de uma epifania clara. Foi uma constatação lenta, quase desconfortável, que surgiu enquanto eu lavava a louça na casa da tia Naná, com a janela aberta e o barulho da rua entrando sem pedir licença. Ninguém me olhava com pena. Parecia simples, mas não era. Passei anos sendo observada como quem avalia algo quebrado. Olhares que misturavam falsa compaixão com desprezo m*l disfarçado. Pessoas que falavam comigo em tom mais baixo, como se eu fosse frágil demais para o mundo. Ali, isso não existia. A vizinha que passou pela porta apenas acenou com a cabeça. O garoto que descia a rua correndo desviou de mim sem pedir desculpa nem rir. Um homem que carregava sacos pesados pediu licença com naturalidade, sem olhar duas vezes.

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