A casa parecia menor naquela manhã.
As paredes estavam no mesmo lugar, os móveis também, mas tudo parecia me empurrar para dentro, como se eu não coubesse mais ali. Talvez eu nunca tivesse cabido. Só aceitei ocupar o espaço que me deram.
Desci para a sala com passos lentos. Não porque estivesse fraca — eu estava cansada. Cansada de fingir normalidade, de engolir palavras, de existir com cuidado para não incomodar.
Meu pai estava sentado no sofá, assistindo ao jornal. A televisão falava de crimes, de crises, de coisas distantes. Ele nem levantou os olhos quando passei.
— Bom dia — murmurei.
— Hm — foi a resposta.
Minha mãe estava na cozinha, lavando louça que já estava limpa. Um hábito antigo. Lavar para não falar. Ocupação para evitar confronto.
— A gente precisa conversar — eu disse, parando na porta.
Ela suspirou, sem se virar.
— Samantha, hoje não.
— Quando então?
Ela virou o rosto só o suficiente para me olhar de lado.
— Você tá sensível demais. Vai passar.
Vai passar.
Tudo sempre “passava” para eles. Menos em mim.
Sentei à mesa. Minhas mãos tremiam levemente. Não era fome o que eu sentia. Era um peso no peito, uma pressão constante, como se algo estivesse prestes a explodir.
Minha irmã entrou logo depois. Arrumada demais para uma manhã comum. Maquiagem impecável. Perfume forte. Confiança transbordando.
Ela parou ao me ver.
— Ainda aqui? — perguntou, como se eu fosse um objeto esquecido.
Não respondi.
Ela abriu a geladeira, pegou suco, se serviu com calma exagerada. Sentou-se à minha frente.
— Você vai ficar se fazendo de vítima até quando?
Levantei os olhos devagar.
— Eu não tô me fazendo de nada.
Ela riu.
— Claro que tá. Sempre fez.
Meu pai aumentou o volume da TV.
— Não começa — ele disse, sem tirar os olhos da tela.
— Eu só tô falando a verdade — ela respondeu. — Alguém precisa.
A verdade dela sempre foi uma arma.
— Qual é a sua verdade? — perguntei, sentindo o estômago revirar.
Ela me analisou. Não como irmã. Como quem avalia um defeito.
— Que você nunca foi mulher de verdade.
A frase caiu no meio da mesa como um prato quebrado.
Minha mãe se virou de repente.
— Para com isso.
— O quê? — minha irmã rebateu. — Vai fingir que não é isso que todo mundo pensa?
Meu coração começou a bater forte demais.
— O que você quer dizer com isso? — perguntei.
Ela se inclinou para frente, apoiando os cotovelos na mesa.
— Vamos parar de fingir. Homem nenhum quer assumir uma gorda. Vocês ficam bem no escuro, no conforto… mas não na vida real.
Minha respiração falhou.
— Você não pode falar isso — murmurei.
— Posso sim. E alguém precisava te avisar. Gorda não é mulher. É fase. É erro. É vergonha.
Minha mãe levou a mão à boca.
— Chega! — disse, mas sua voz saiu fraca.
Eu me levantei num impulso.
— Você acha que eu não sei o que falam de mim? — perguntei, a voz tremendo. — Você acha que eu nunca ouvi?
Ela deu de ombros.
— Então por que se faz de surpresa?
Meu pai finalmente olhou para mim.
— Samantha, senta. Para de escândalo.
Escândalo.
Senti o sangue subir ao rosto.
— Ela dormiu com o meu namorado — eu disse. — Na minha cama.
Silêncio.
Minha mãe abaixou a cabeça.
Meu pai pigarreou.
— Isso é coisa entre vocês — ele respondeu. — Não envolve a gente.
Foi ali que eu entendi.
A frase da minha irmã não era só dela.
Ela ecoava o que todos pensavam, mas nunca diziam em voz alta.
Eu não era mulher.
Era tolerada.
Voltei para o quarto com as pernas moles.
Fechei a porta com cuidado, como se qualquer barulho pudesse me quebrar de vez. Encostei as costas na madeira e deslizei até o chão.
“Gorda não é mulher.”
A frase se repetia na minha cabeça, martelando, se misturando com lembranças antigas. Comentários disfarçados. Risadinhas. Olhares que passavam por mim como se eu fosse invisível.
Levantei devagar e fui até o espelho.
O reflexo estava ali, inteiro. Não distorcido. Não monstruoso. Apenas eu.
Meu corpo ocupava espaço. Sempre ocupou. E eu passei a vida inteira tentando diminuí-lo para caber nos outros.
Levantei a blusa.
Vi a barriga macia, as marcas na pele, os quadris largos. Toquei meus próprios braços, minhas coxas. O corpo que me carregou até ali. Que aguentou trabalho, rejeição, solidão.
— Isso não te faz menos — sussurrei, sem saber para quem.
Mas a voz da minha irmã ainda ecoava mais alto.
Lembrei de cada vez que meu ex evitou me tocar em público. De como ele apagava fotos comigo. De como sempre pedia para eu “me arrumar melhor”.
Não era amor.
Era tolerância.
Sentei na cama — pela última vez naquele dia — e senti o peso do que estava se formando dentro de mim. Não era só tristeza. Era raiva. Uma raiva quieta, densa, que não explodia… se acumulava.
Peguei o celular.
Mensagens dele. Várias. Desculpas. Justificativas. Nenhuma assumia culpa. Todas tentavam me convencer de que aquilo era inevitável.
Bloqueei.
Deixei o aparelho cair ao meu lado.
Ouvi risadas na sala. Minha irmã falando alto. Livre. Vitoriosa.
Meu peito apertou, mas algo diferente aconteceu. A dor não me encolheu. Ela me endureceu.
Levantei.
Abri o guarda-roupa e comecei a separar minhas coisas. Não tudo. Só o essencial. Roupas. Documentos. Algumas fotos antigas — de quando eu ainda acreditava que tinha um lugar ali.
Olhei o quarto uma última vez.
— Se eu não sou mulher pra vocês — falei em voz baixa — então eu vou aprender a ser pra mim.
Saí sem avisar.
A porta se fechou atrás de mim com um som seco, definitivo.
E, pela primeira vez, aquela frase não me esmagou inteira.
Ela doeu.
Mas também me empurrou.
Porque às vezes, o fundo do poço não é o fim.
É o ponto exato onde a gente começa a subir.