Capítulo 4 - Fique bem longe da minha escuridão

998 Words
Se existia algo que Âmber nunca soube fazer, era dominar sua empolgação. Havia tanto para ver e conhecer, tantos amigos para conquistar, que ela simplesmente não podia se conter. Por isso, quando viu aquele menino solitário, com cara de sério, sentado sob uma árvore no canto do pátio, ela não pensou duas vezes. – Oi, tudo bem? Eu sou a Âmber! Por detrás da grossa e preta armação de seus óculos, o garoto levantou o olhar. Após encará-la por alguns instantes, voltou a baixar a cabeça e continuar sua leitura. – Você não sabe falar? – Ela perguntou franzindo a testa – Porque escutar você sabe, já que olhou para mim quando eu falei, mas pode ser que só escute e não fale, já soube sobre casos assim. O menino voltou a encará-la e novamente repetiu o movimento anterior, voltando a prestar atenção ao seu livro. De repente, pôde ver de soslaio que um pé inquieto, com sapatilha vermelha, batia repetidamente sua ponta no chão. – Quer que eu busque um caderno para que possamos conversar? Assim você pode escrever o que gostaria de falar! Tenho certeza que poderemos ser bons amigos se... Antes que terminasse sua frase, o garoto levantou-se, apanhou a mochila e saiu andando. Aquilo foi demais para Âmber. – Ei! Ei você! Não me deixe falando sozinha! – Ela gritou enquanto o seguia – Volte aqui e pelo menos decline respeitosamente da minha presença. Seus pais não te deram educação? Ouvir isso fez com que o menino parasse sua caminhada, girasse em torno do próprio eixo e a encarasse. – De que adiantaria se eu declinasse respeitosamente da sua presença? Você fala tanto que nem iria escutar! Virando-se novamente ele seguiu o seu caminho, deixando Âmber paralisada com a pequena boca em formato de "O". *** Quando o sinal tocou, todos os alunos entraram eufóricos para seu primeiro dia de aula. Irritado com toda aquela bagunça, Edward esperou até que todos entrassem para então fazer o mesmo. Quando procurou uma carteira vaga em sua nova sala de aula e sentou-se sem olhar para os lados, ele não pôde perceber quem estava bem à sua esquerda. – Olha só, é o menino sem educação. – Uma voz fina e irritantemente conhecida disse para provocá-lo. Com um olhar capaz de derreter uma geleira – queimando de raiva de mais uma vez ser importunado – ele a encarou, sério demais para seus dez anos. – Você não sabe a hora de parar não é mesmo? – Disse olhando-a nos olhos. Aquela frase, que era constantemente dita por sua mãe, irritou Âmber profundamente. – E você não faz ideia de como ser uma criança, não é mesmo? – Ela afrontou seu colega. – Do que você está falando? – Edward questionou arqueando uma sobrancelha. A garota soltou o ar em uma bufada. – Estou dizendo que você parece ter cinquenta anos, não dez, que é o que provavelmente tem, já que está na mesma sala que eu. – Isso não é problema seu. – Eu sei que não é. Acontece que eu acho muito injusto que uma criança não possa se comportar como uma. Caramba, você terá a vida inteira para ser sério e estudar como louco, porque não tira a cara desse livro e presta atenção às pessoas ao seu redor? – Pelo que vejo você não aprecia o hábito da leitura, senhorita... – Âmber. Obrigada por perguntar. –... Ela respondeu com um sorriso – Mesmo que seja com o intuito de me ofender. E engana-se senhor... O menino permaneceu em silêncio. – Você tem um nome não é? – Edward. – Ele respondeu após um suspiro. – Então, como eu ia dizendo, engana-se Edward, eu adoro ler! Gosto tanto que, inclusive, sou escritora e já terminei meu primeiro livro! Aquilo era realmente uma surpresa. – Acontece meu caro... – Ela continuou – Que ao contrário de você, eu sei que há um momento certo pra tudo e quando estamos na escola, mas não estamos no meio da aula, é o momento certo para nos conhecermos e trocarmos experiências. – Que experiência tem você do alto de seus dez anos? – Olha, você tem linguagem literária, gostei! Pois saiba que já vivi muita coisa em meus dez anos! Você não? Edward refletiu por alguns segundos sobre suas precoces e amargas experiências. – Algumas coisas... – Tá vendo? Temos muito a oferecer um para o outro! Mas, para isso, temos que nos conhecer primeiro. – Você se diz escritora, mas não tem linguagem literária. – É porque eu guardo isso para os momentos de escrita. – Ela respondeu revirando os olhos – Há tempo certo para tudo Edward! E agora é o tempo exato para que você se torne meu amigo! – Acrescentou com um sorriso, enquanto estendia a mão para ele – Então, amigos? Edward raciocinou por alguns instantes. Aquela garota era estranha demais. Mas, ele também era um tanto estranho. Desde que se conhecia por gente, ninguém havia insistido tanto para ser seu amigo. Na verdade, ele nem mesmo tinha amigos. Concluiu que não faria m*l. Ele bem que tentara mantê-la longe de toda a escuridão que carregava dentro de si, mas se ela queria mesmo se aproximar, lhe daria essa chance. Vamos ver se ela aguentaria seu mau humor constante. – Amigos, grilo falante. – Estendeu a mão de volta com uma tentativa de sorriso. A garota se animou e sorriu ainda mais largamente. – Viu só, já temos algo em comum e já encontramos nosso primeiro tópico de conversa: Pinocchio! Edward a encarou satisfeito por ela ter entendido a referência de sua brincadeira. E foi assim, por Âmber ter toda a alegria e força de vida que lhe faltava, que a partir daquele momento, ela se tornou uma parte tão importante dele. Grilo Falante: Personagem do desenho animado Pinocchio (1940 - Walt Disney©) Pinocchio: Personagem de ficção, cuja primeira aparição se deu em 1883 no romance As aventuras de Pinocchio de Carlo Collodi.
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