Capítulo 5 - Luana

2322 Words
♥♠ Terça feira. Como toda terça feiras aguardam. O lugar está longe de ser bonito, paredes velhas, tintas descascadas, idosos com sanidade afetada, jogados no chão debatem-se em constância frenética, logo no início da recepção. Apenas um lembrete do que isso pode fazer. Todas as terças, tenho o mesmo sentimento de insuficiência, acompanhado por um rancor terrível, como Luiza consegue viver com isso? Nem ao menos se se deu o trabalho de fazer uma visita. Se quiser pensou em suas necessidades, como roupas, remédios, alimentos especiais visto que ela é alérgica a lactose. Hoje trouxe o exemplar de Como não te amar? Da autora, mas requisitada do momento, Giovana Dantas. Tomada por incerteza, será que fiz certo? Trazer um livro tão complexo, forte, intenso e real. Mudo de ideia, ao enfileirar esses adjetivos notando exatamente que acabei descrevendo Luana. Força, coragem, intensidade qualidades que a manterão viva por dez anos nesse local, onde sonhos são enterrados mortos ou não, afinal ninguém aqui tem o necessário pra fazê-los acontecerem, esperança. O demorado horário chegou, vem à vontade de correr, o mais rápido que posso, como quando pequenina seus braços serviram de refúgio, porto de aterrissagem... Avisto-a, despreocupada em sua cadeira de balanço, contando histórias para cinco idosos, sentados na sua frente. Ajoelho sob sua cadeira, depositando a cabeça em seu colo macio. Nada interrompe sua leitura, esse é seu momento precioso. Suas mãos encontram e se perdem em carícias nos meus cabelos, fecho os olhos, aspirando fundo, como se o tempo fosse cheiro, e pudesse ser guardado dentro de mim. – Fim da história hoje queridos. - Sua voz materna para com seus colegas, só aumenta minha admiração. Um por um, seus companheiros se dispersam. - Como eu amo as terças! – Senti tanta sua falta titia. - Nessa ocasião, solitária a lágrima corre livre pelo meu rosto. – Nem tive tempo pra saudade menina bonita, aqui tem tanta coisa pra fazer acredita? - Tenta me convencer de que está bem. Não importa quão triste esteja, dona Luana nunca reclama. – Como está sua mãe? – Do mesmo jeito titia, aquilo ali já não tem mais jeito. – Sempre a um jeito garotinha. Estou feliz que não seja mais só você... - Fico perdida em sua frase, só pode estar se referindo a ele. Tia Luana está sempre lúcida, quando não oferecem a ela esses remédios, que com algum dinheiro e persuasão, consegui convence-los a cessarem. – Rafael tem sido bom pra mim titia. - Seu sorriso cansado, tão perfeitamente encantador, aliás, cada parte dessa guerreira deixa qualquer ser de carne e osso maravilhado. – Ele é bom garoto, vai crescer em breve, o menino só precisa de cuidados... – Aposto que estão falando m*l de mim. - A voz do anjo adentra meus ouvidos, fico tentada a espia-lo, mesmo assim não retiro meu rosto um segundo se quer do colo dessa mulher. – É nossa diversão, não acabe com ela garoto. - Um beijo estalado é depositado em sua testa. Rafael está de joelhos, de frente pra mim, repousa sua cabeça no colo da anfitriã. Alcança meus lábios em um rápido selinho. E sorri ao ganhar cafuné de titia. – Oi doce. – Oi. – Luana se você continuar com essas carícias mulher, troco Layla por você num piscar de olhos. - Brinca. – Ah menino, nem que você fizesse muito esforço, conseguiria esquecer Layla. - Minha defensora vem ao meu favor. - E nem tente, ok? Ou terá que lidar com minha ira. - Austin recebe um t**a na cabeça, risadas tomam conta dos nossos minutos contados. – Viu só anjo? – Por uma mulher tão linda como você Lulu, valeria a pena, Layla anda muito rabugenta. - Ganha um beliscão nas costelas, dessa vez sou à agressora. - Ai, car@lho, viu tia, por essa e por outras, mereço você... – Se eu fosse uns 30 anos mais nova. - Nostálgica, viaja em pensamento. - Acho que nem assim, nem com a mais bela das mulheres, Layla está sob sua pele menino, tarde demais pra gente, ou qualquer outra... – Pra você ainda não, nunca será titia, se estalar os dedos, chuto a b***a de Layla nesse instante, e caso com você. Teremos uma longa e duradoura lua de mel... - Mais um beliscão forte em seu braço. – Como ousa? - Faço-me de ofendida. – Desculpa titia mais essa menina, merece uns tapas. - Ainda rindo, Rafael me puxa sem delicadeza para seus joelhos dobrados, deita-me por cima deles, acerta minha b***a com dois tapas leve. Só para quando recebe um puxão de orelha, voltamos a nossa posição inicial, três gargalhadas altas misturadas, formam a sinfonia perfeita. – Layla, não judia do menino com esses beliscões. - Repreende. – Titia não de asa cobra, além disso, Rafael matou uma prova na faculdade par estar aqui, ainda assim é seu queridinho? - Austin ganha outro puxão de orelha. – Desse jeito vou sair daqui metade de um homem, duas loucas me atacando, sorte de vocês serem gostosas, se não, estariam ferradas. - Sorrisos, apenas sorrisos. - Além do que titia, Layla quer acabar com qualquer chance de nos casarmos, é tudo inveja, me quer pra ela, enche sua cabecinha de minhocas. Acha mesmo que um cara, cheio de responsabilidade como eu, mataria aula? - Sorrisos, e apenas sorrisos... A conversa rolou solta, ganhamos cafunés, carinhos, abraços, sermões, uma dose de amor semanal. Estar nesse hospício, era triste, ainda pior sabendo que dona Luana não precisava estar aqui, que está apenas por mero capricho de Luiza. Vou tira-la daqui, decidi isso há algum tempo. Ainda não sei como, com minhas próprias forças tentei, foi em vão. Mais vou achar um meio, uma forma de fazê-la viver novamente a vida que foi tirada da doce velha escritora, mais sábia e mais amada do mundo. Luana Gianini, ainda não usou o ponto final da sua história, certamente não usará nesse lugar. ♥♠ – Obrigada, por estar comigo Rafa. - Deito-me sobre seu ombro, sua visão fixa na estrada, tão sério por trás do volante de seu Audi R8, gostaria de ter uma mínima ideia do que se passa dentro da cabecinha loira, seguimos rumo a Corporação Austin. – Vou sempre estar meu doce, sempre... - Sua mão direita está pousada em meu joelho, observo-o, instantes tão pequenos, quanta evolução fizemos juntos, estamos aqui, estamos juntos, é real, posso me enganar, entretanto, seria mentir pra mim mesma, dizer que não estou completamente envolvida com o anjo. Todas as regras, todas as histórias, tudo que passamos, foram programadas, ainda assim nada saiu como foi programado. Somos um trem desgovernado quando nossos corpos se juntam. São inúmeras horas de afeto pra serem todas minimamente calculadas. Luiza o escolheu pra mim, mas eu mantenho. Não vejo motivo pra contestar sua vontade, já que agora é minha também. A princípio, Rafael Austin aparentava ser apenas um playboy rico e mimado, incapaz de lutar por algo, ganhando tudo de mão beijada. Dono de uma beleza incomparável, e sabia disso, usava ao seu favor, não me apetecia até então, porém, o jogo virou, viu que estava me perdendo, começou a ganhar, nunca parou desde então. Era um bom jogador, talvez não fosse párea, tinha quinze anos, estaria apaixonada se não fosse Luiza. Talvez ela tivesse razão no começo, era só um conflito de interesse reverso, e lutadores como ele é acostumado com a vitória leve. Não dei isso a ele, me tornei um desafio. Que Austin aceitou, e se batalha acabasse agora? Quem ganharia? Posso me imaginar longe das esmeraldas? Posso enxergar sem ele? É escuro demais aqui. Por sorte, sou acostumada com a visão das trevas. Aprendi a sentir a dor, a conviver com ela... Renunciaria ao duelo, se fosse fácil, se a derrota não a levasse pra sempre de mim. Com todos os erros e defeitos, Luiza Gianini era minha mãe, é doente, precisa de cuidados, a melhor forma de fazê-los, é deixando que ela tome conta de mim, da minha vida... ♥♠ - Vou dar uma palavrinha com Teodoro. - Descemos do carro, seguindo rumo à sala presidencial. Preciso dizer que os holofotes estão concentrados no anjo loiro? De mãos dadas atravessamos o grande salão. Olhares são diversos, ciúmes, inveja, respeito... Cochichos altos. Rafael era um verdadeiro molhador de calcinhas, que culpa essas mulheres tinham de desejá-lo? Fica de aprendizado, quem nunca teve um amor platônico, jamais entenderá o sentido de drama. O filho do chefe era meu futuro, e futuro patrão de cada uma delas. Suspiros, suspiros, suspiros... Se eu fosse Austin acharia exaustivo tamanha atenção. Acredito que o seu ego seja inflado o suficiente, porém, elas não param... Só fico aguardando a primeira coitada, tomar coragem pra se aproximar. – Deseja alguma coisa senhor Rafael? - Retiro o coitada. Anastácia é uma v*******a. Perdão o peso da palavra. Se fosse há uns três anos atrás, já estaria preparando minha cabeça para ter dificuldade de passar por portas baixas. No entanto, meu menino cresceu, que bela ostentação tenho do lado. – Valeu, como é mesmo seu nome? - Retruca. – Ana... Anastácia - Fingir gaguejar já é demais. Garota para que está f**o. – Doce, quer alguma coisa? - Anastácia mede-me da cabeça aos pés, aposto que gostou do meu louboutin azul. Usar sapatos coloridos era tendência, desejar namorado alheio não. – Jujubas. - É a primeira coisa que vem em minha mente. Mesmo que não possa comê-las. Corto os pensamentos doloridos da memória, recordando amontoado dolorido que tenho na garganta. – Jujubas, por favor, aquelas vermelhinhas, ela adora. - Debochado, termina a frase. - Leve até a sala dela, alguns bombons também. - Retira uma nota de cem reais entregando para as despesas. – Fique com troco pela sua gentileza, querida. - Delicadamente incentivo meu namorado continuar a caminhada. Desculpe pisar em cachorro morto jamais estaria no meu dia, sentimento de culpa rondam-me. "Ah que se dane, ela quer o que é meu". Seja vaidade ou não, estufo o peito ao entrar no andar presidencial, pertencer a esse lugar foi mérito meu, visto que Luiza nunca planejou de maneira alguma que tanto eu, quanto ela trabalhasse. – Boa tarde, senhorita Gianini, acabaram de chegar pra você. - Recebo a cesta de maçãs vermelhas brilhantes, totalmente apetitosas. – Que lindas, quem mandou Carolina? - Cheia de entusiasmo, tenho opinião formadas que foi enviada por certo par de olhos azuis. – Thor Telles. – Ah, que gentileza. – Nossa como ele é fod@ pra car@lho né garotas? - Rafael destorce a voz em tom feminino. Ciúmes. Pega uma maçã, morde. - Esse cara que te comer. - Resmunga despreocupado, planos malucos estão se formando na cabeça loira. – Rafael. - Repreendo-o. - Carolina coloque na minha mesa, por favor. – Cara gentil do car@lho né doce? Com certeza mandou maçãs pra mim também. - Irônico, reluta. - Vou mandar um pepino de agradecimento, ele vai curtir né amor? – Rafael, por favor, não começa. – Não tem fundamento Layla? – Não! Sem segundas intenções, foi só um gesto de me agradecer... Eu sou uma profissional muito boa no que faço. - Nervosismo escorre pelos meus poros. Sem forças pra discutir, brigar com Austin por conta de maçãs é novidade. Talvez o dono das maçãs seja um pouco intrigante pra ele. – Será que? Ele te deu as maçãs por que quer ser o lobo m*l? Comer a chapeuzinho? Ajude-me a entender doce? Está fod@. – Mentiu né? - Embargada de decepção, seguro a bile preso na garganta. – Do que você está falando? – Sobre acreditar em mim, estar orgulhoso, você disse que eu era fod@, era mentira? - Duvido que tenha alguma genuinidade naquelas memórias. – Doce, olha pra mim. - Ágil agarra meu rosto com ambas as mãos, cravando nossos olhares. - Você é fod@, jamais duvide disso, ou deixe alguém duvidar, beleza? - Espera confirmação, apenas balanço a cabeça. - Certeza que será a melhor advogada que essa empresa já teve. Só que por onde passa rebolando essa b***a, os caras ficam de p*u duro. Telles que te comer. - Recuso-me a digerir, dificilmente estarei preparada pra duvidar da índole de Thor. – Mesmo que isso fosse verdade, o que não é, Rafael. Não vai acontecer, você vai ser o único, pra sempre. - Cuspo as palavras. – Não - Cola seus lábios no meu. Inspira o ar ao nosso redor. Seu coração está acelerado. - Não vai. - Abraçados, por poucos instantes. - Tenho que ir. - Tão rápido quanto um furacão, a tempestade em forma de gente já está próxima ao elevador. – E seu pai? Você disse que tinha que... - Elevo minha voz. – Você vem primeiro... Você vem em primeiro garota. - Uma piscadela e um sorriso malandro num rosto angelical, a porta do elevador fecha. – O que esse garoto vai fazer? - Penso em alta voz. – Provavelmente merda... - Ana aparece. Quem melhor que ela, que ouviu e acompanhou cada passo da nossa relação, pra me entender nesse momento. – É provavelmente! Que não seja das grandes... - Compartilho um sorriso cúmplice. – Tomara. - Retribui. – Como está à agenda do doutor Teodoro? - Indago, curiosa. – Uma loucura. – Imagino, vamos, vou te ajudar com isso... A estrada seria segura sem Rafael, contudo, quero descobrir pra qual enxurrada de perigo vou entrar agora... Se for pra me afundar no mundo dele, eu topo. Cogito a possibilidade de parar por aqui, contar tudo a Rafael, todo o plano mirabolante de Luiza, e que não vou fazer parte dele. Apreciar o restante dos meus dias, cuidando, e sendo cuidada... Seu temperamento explosivo podia ser um contratempo, no entanto, valeria a pena ariscar. Cada dia que se passava, nosso envolvimento era maior. Estava ficando desproporcional, sem espaço pra ninguém, em breve, muito em breve, eu aprenderia dizer as três palavras. Se a carruagem continuasse andando assim... ♥♠  
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