Capítulo 1 - Sucesso profissional

2223 Words
7 anos depois... Derrubo-o antes que toque novamente. – Maldito seja o dia em que você nasceu, despertador – Desfaço-me dos lençóis negros de seda egípcia, minha agenda mental começa a trabalhar, músculos espreguiçam, estranhos estalos comuns, não evito os bocejos automáticos. Tem sido difícil dormir quatro a cinco horas por dia. Regras, Luiza é controladora, quando saio da linha diminui o tempo que durmo, a falta de sono deixa a pessoa mais suscetível ordens. Sigo uma rotina diária, começo pelo look inédito e cotidiano, morre de orgulho desses terninhos, lembra a estilista Coco Chanel, ousada o suficiente pra vestir o primeiro terno feminino, foi um tiro no alto declarando independência das mulheres no mundo da moda, com orgulho faz jus a saia secretária cós alto, blusa de alça soltinha por baixo, acompanhado do blazer preto aliado secreto, de uma pessoa que sente o frio com intensidade maior que as demais, e precisa estar elegante. Na cozinha encontro minha alimentação regrada deixada ali por Luiza, pílulas para o cabelo, olheiras, vitaminas pra imunidade, café da manhã a base de shakes nutricionais enjoativos, desnecessários quando se está 15 quilos abaixo do peso mínimo ideal. Todos enfileirados na ordem que devo tomar. A corporação dos Austin's me espera, sou auxiliar de Teodoro, faço relatórios, leio processos, contratos importantes, resumo-os e entrego para que sejam lidos, resolvidos por ele. Aos 21 terminei a faculdade de direito, mais aos 18 já trabalhava na empresa. Mamãe Austin e o filho não curtem advogar, trabalhar, contabilidade, e afins... São figuras públicas importantes "se" levarmos em conta as grandes festas organizadas por eles. Sogrinho notou meu esforço, fez o convite, de bom grado aceitei. Contrariando mamãe que achava desnecessário trabalhar como funcionaria, se muito em breve seria dona, como havia planejado detalhadamente. Nunca me apoiou a fazer cursos ou dedicar meu tempo pra outras coisas além da beleza, segundo dona Luiza uma mulher bonita tem mais valor que as inteligentes. Por isso cuidar do corpo, cabelos, unhas, era mais valioso do que da mente. Com muita persuasão consegui convence-la a aceitar meu trabalho, todos os elogios que recebia dizia que foi por sua insistência em me fazer estudar, dei a ela crédito de um mérito totalmente meu, funcionou. Pessoas gostam de ter seu ego inflado. Aqui estou, cumprindo uma linda carreira ao lado de um dos grandes ícones no mundo dos negócios. Sou aplicada, cumpro as regras, – boa à maioria delas – comprometida, sempre soube o que queria e onde iria chegar. Mas sempre almejei o dia em que mamãe veria a luz brilhar em mim sentindo orgulho da pessoa que me tornei. Ser o melhor e dar o melhor de mim sempre. Batom vermelho. Blush. Rímel. Coque descolado no cabelo, vários fios soltos. Salto 15. Óculos. Pronta, pra mais um dia da minha vida controlada e 'quase' perfeita. iPhone vibrando, menino de covinhas sorri na tela, não fosse tão maldito, anjo descreveria perfeitamente meu namorado. – Lay – bocejo – você fugiu – bocejo –  de novo? – Pelo tom rouco da voz. Acabou de acordar mordo os lábios por imaginar como deve estar lindo com os olhos inchados e rosto amassado. Rafael está terminando a faculdade aos 24 anos. É apaixonado por arquitetura, o que tornará promissor na profissão escolhida. Tudo que faz da vida é dormir, estudar e namorar comigo. –  Boa "TARDE" queridão – aposto que percebe minha ironia, consigo imaginar o canto da sua boca formando um lindo sorriso preguiçoso. Acaricio a mecha n***a solta de meu cabelo, pensando em como ele faz isso tão melhor que eu. – Bom dia doce, valeu por colocar esse "troço" para despertar –  fazer esse ser humano entrar na linha vem sendo minha missão, árdua e deliciosa, dada por duas mulheres, dona Luiza, minha genitora, e Mariah, progenitora dele, ou diabas no meu vocabulário secreto. – Se você não levantar dessa cama... – Estou de pé – às ameaças funcionam, principalmente quando se referem ao s**o. E sei que nesse exato momento, está levantando – qual motivo de toda essa radicalidade? Às seis da manhã? – Você não viu nada bebê. E são seis e quinze. – Sabe que vai me pagar por ter fugido da minha cama, não sabe? –Sua voz começa em tom de alegria. Imagino as formas em que me fara pagar, vão ser exatamente na sua cama, ou não. Entretanto o silêncio pesou...  Sei o quanto está chateado, fecho os olhos pra tentar focar nas metas, não quebrar as regras do jogo. Se ele soubesse o quanto queria que acabasse... – Sabe, um dia vou entender essas tuas paranoias chatas para car@lho. Regra número 10 da dona Luiza, para como ter um bom casamento: "NUNCA, dormir juntos antes de casar, e dividirem o mesmo quarto" isso não se refere ao s**o, mais todas as noites em que rolamos na sua cama, espero que durma e corro pra casa. O aperto no peito é desconfortável, uma sensação intensa e difícil de lidar, precisei ser muito persistente pra não me entregar totalmente. Ainda assim meu desatino tem lindos fios loiros na cabeça e terríveis olhos verdes. Tentei o método de focar nos interesses físicos, para me distanciar emocionalmente, funcionou, nos dois primeiro encontros, depois disso posso ter quebrado a REGRA 9 : "Não se envolver emocionalmente." O silêncio é alto dentro de mim. – Rafa, vou me atrasar, quando você chegar da faculdade combinamos alguma coisa, beijos –  Não espero resposta. Desligo. Minha deusa da intuição alerta-me de que a ideia foi péssima. Sinto que terei surpresas no meu dia... ♣♥ – Bom dia doutor Teodoro – nós tratamos formalmente na empresa. De alguma forma é importante pra eu ter algum merecimento do meu posto, não ser apenas a "NORA" do chefe. – Bom dia Layla, vai pedir que cancele minha reunião das dez – Seus olhos verdes são idênticos ao do filho, e nesse instante me analisa sem embaraço. Cancelar essas reuniões é como dar um tiro nos olhos, empresários odeiam se sentir menosprezados, ou em segundo plano. Foram raras às agendas do meu patrão quais tive que cancelar, desgastantes o suficiente para nunca querer repetir a dose. – Com todo respeito, o caso dos Telles está mais próximo do que os dos Reinolds, com sua permissão, acreditam que deveríamos trocar os horários? –  Uma vez que os Reinolds estavam marcados para as nove. – O contrato dos Telles, quero deixar em suas mãos – tremo. Eu literalmente tremi na base. Os poucos casos que Teodoro advoga pessoalmente, são de clientes milionários bem generosos e importantes, elevam o sobrenome Austin e à empresa em si. Esse gesto significava que estava pronta aos seus olhos. Pronta para realmente advogar,  e abandonar o posto de mera auxiliar. Controlar as emoções para não derramar as aguinhas acumuladas, foi duro. Sei que entendeu a comoção muda, queria dizer qualquer coisa, agradecer, beijar as suas bochechas coradas, chorar, pular, gritar, mas travei... Só travei. Não sei exato por quanto tempo estagnei, meu cérebro estava funcionando a total vapor pra se concentrar, aprendi a ser profissional, trabalho orientando pessoas, preciso acima de tudo, saber o que falar e aconselhar, o momento certo. Tenho conhecimento, experiência e vivência, sou treinada para isso. Preparei-me toda uma vida e não estava preparada, vai entender... _Não vou te decepcionar.  _Sei disso Gianini. Agora, acho que é melhor preparar uma estratégia para os Telles – ele encara seu relógio de pulso, entendo a deixa. _Sim senhor, mais uma vez, obrigada – um aceno de cabeça diz que estou dispensada. Saio da sala do chefe, até a mesa de Ana, secretária administrativa do doutor Teodoro. Minha amiga, desde a época da escola, iniciamos o estágio na corporação Austin's juntas, passamos noites em claro estudando para isso. Minha confidente, loira e se.xy. Solto um gritinho baixo e sufocante de satisfação, estou tão feliz a ponto de explodir. Das poucas pessoas na empresa com as quais tenho contato. Ana é a única que não me acha uma verdadeira golpista, deve isso ao fato de ter acompanhado boa parte da minha vida. – Ana, consegui – gritinho – consegui – pulinho discreto – consegui – à loira segura minhas duas mãos, olha nos meus olhos transmitindo sua confiança em mim, diretamente para mim. Seu rosto compadece a minha felicidade e dividimos agora parte do nosso pequeno paraíso profissional. Pessoas entraram e saíram da minha vida o tempo todo, mas ela eu preservei, identifiquei Ana como uma pérola de valor inestimável. Cuidou de mim, dos meus surtos, dos surtos que dou quanto surtam comigo. Aguentou minhas reclamações em todos os meus términos com o Austin filho, por vezes secou lágrimas indecentes que não respeitavam os momentos de dor. Nunca bajulou, sempre deu sermões, protegeu o máximo que pode das loucuras da minha mãe... Enfim, posso com toda certeza chama-la de amiga. Sabe aquela pessoa que faz brigadeiro de panela e depois não apenas te incentiva, como também faz o abdominal com você? Ao longo dos anos fui descartando amizades neutras, garotas que se aproximavam de mim pra ficar perto de Rafael, depois ficavam com ele quando nós brigávamos. Foi assim que aprendi, que se alguém não agrega valor a você, afaste-se, às pessoas apenas iam embora e nunca liguei pra nenhuma às quais partiram. Se alguém começa a destruir minhas razões ou me decepcionam, abro mão. E nessa lista de amigos seletos, sobrou Ana, à fiel escudeira. Um celular vibrando nesses momentos é tão desproporcional. – Eu sempre soube que ele te escolheria amiga, agora me diz, vai ser os Reinolds ou, os, os, os... – Travou. Isso não é um bom sinal, fixa o olhar num ponto atrás de mim. Veste a cara de "deu merd@”. Meus novos clientes se adiantaram, provavelmente está atrás de mim em um momento de comemoração nem um pouco profissional. Ana sussurra: – Recomponha-se – faço, modéstia parte, com maestria. Isso foi um teste, Teodoro Austin é cheio de artimanhas. Caí, me levantei. Se estiver me testando, cartas na mesa e de volta ao jogo. Viro lentamente com meu sorriso largo de bem vindos, encaro os deuses gregos da mitologia completa diante de mim e por um segundo imaginei desabar sobre o salto agulha. – "Ignições do meu lindo cérebro, funcionem, JÁ!" – Mando ordens para o teimoso e espero que não frite todos os meus neurônios de uma vez. Estou quase dando um curto circuito. Nessa vida já vi muita gente bonita, mais esses dois apelaram.  Cumprimento o primeiro, deve ter no máximo trinta anos, olhos claros, dente brancos daqueles de comercial das pastas de dentes, cabelos escuro, espetados pra todas as direções e segura o riso, ofereço um aperto de mão firme e preciso. Acredito que não deva ser normal encontrar secretárias se abraçando, mas foi simpático em não esbanjar a sua primeira má impressão de mim. O segundo é meio que uma miragem, isso aqui é um deserto? O calor que de repente se formou, afirma que talvez seja mesmo. Seus cabelos castanhos claro descem rente num topete alinhado para trás, não parece usar gel, mas os cabelos são organizados demais e lhe caem um pouco abaixo da nuca. Diria que nem muito grande nem tão curto, perfeito pra mim. Com certeza usa um shampoo sensacional, que mulher não desejaria um cabelo desses? Nenhum frizz, lisos, elegantemente penteados, um par de olhos azuis topázio, feito mar escuro daqueles que dá vontade de se afogar sabe? – Não que essa vontade seja minha, imagina. – O mais estranho é que posso sentir seu olhar sobre mim cheio de segundas intenções. Segura minha mão numa quantidade de tempo bem maior que o necessário, levando até sua boca deposita um beijo delicado o hálito deve estar cravado na pele agora, meu coração dispara no peito num misto confuso de sentimentos perturbadores, dos quais só consegui decifrar um. Medo. Senti um medo poderoso se apossando. Abre um sorriso alucinante quando as safiras dos seus olhos encontram os meus. SENHOR AMADO DAS EXECUTIVAS EM ACENSÃO, rogo silenciosa: Ajude-me. – Que bela recepção – Diz o responsável pelo sol presente aqui! Que voz gostosa é essa? O suficiente pra eu não querer ouvir nunca mais. – Sejam bem vindos senhores – Ignoro o comentário anterior temendo minha própria sanidade. Não posso decifra-lo como m*****o ou extremamente educado, muitos homens multimilionários, lindos, deuses acham que conquistar todas as mulheres de terninho é fácil? Talvez seja realmente. No entanto gostaria de ser reconhecida pela excelente profissional que vou ser, não só pela beleza, nunca me faço de rogada sei que tenho de sobra. – Por gentileza, me acompanhem até o escritório. – Forço a voz pra não sair como um grunhido piedoso, indicando o caminho com as mãos. – Depois de você doutora. Será que todo ser humano tem o azar de lidar com tamanha beleza em seu primeiro contrato de trabalho? – Obrigada! – Ofereço um sorriso gentil, me aproximo de Ana em tom formal, – querida faria a gentileza de nos trazer um café? –  Como boa amiga faz leitura labial, segura o riso ao ler meus lábios "E, por favor, chame o SAMU?”. Celular tocando. Conhecendo o pouco que conheço de Rafael Austin problemas loiros estão por vir. Só espero que esse problema espere meu primeiro contrato, extremamente importante ir embora.  
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