" Inocência nunca será Ingenuidade, Pureza nunca poderá ser caracterizado como Inocência."
"Pois os inocentes são aqueles que Nascem não tendo o conhecimento de nada, puro são os que machucam sem ter a consciência de seus atos. "
— ScPrincess.A
MELLYSSA BIANCHI DELACROIX
***
— Você vai vir? — Balancei a cabeça negando.
— Quero apreciar a chegada da noite. Vão na frente. — Elas concordam me deixando sozinha sentada no banco. O jardim parecia estar mais colorido ao pôr do sol. Apreciei quando os poucos raios atingiam as folhas verdes amareladas, um verde mais claro indicavam folhagens novas.
No meio de toda a vegetação, roseiras se exibiam, lembro que meu único trabalho dois anos atrás era apenas cuidar delas. Agora, este trabalho era apenas das noviças mais novas.
Abri a bíblia para poder estudar, entender mais coisas sobre o mundo espiritual.
— [...] O amor é bondoso, caridoso...
Meu peito palpita de ansiedade, as palavras, uma a uma, se encaixavam no que sentia.
— [...] Não machuca; não destrói, não se corrompe... — A brisa soprava e por uns segundos desejei que ela passasse pelos fios de meus cabelos. Que ela levasse todas as minhas incertezas, os medos, e no lugar, me devolvesse a alegria por estar aqui.
— O amor é... — Deslizei meu dedo sobre o papel não notando estar ficando tarde. Continuei a leitura até que meus olhos não conseguissem decifrar as palavras por conta da escuridão.
Então, me deixei levar pelos pensamentos. Fechando os olhos e sentindo o leve aroma de rosas, escutando a água cair na fonte e os peixes pularem eufóricos. Sorri ao sentir em cada pequena coisa, a presença de Deus.
— Ei, moça! — Havia quatro sombras do outro lado do portão de ferro me chamando, e pelo tom das vozes eram homens. Levantei sentindo uma grande fraqueza nas pernas e um formigamento na região da nuca. Apertei a bíblia sobre o peito sentindo as batidas se tornarem lentas e apressei os passos para dentro da Basílica.
Cada passo era como se minha vida dependesse disso, e tudo retornava a minha memória. A noite em que a irmã Angeline me encontrou caída em frente aos portões da Basílica Santa Cecília, em plena chuva forte.
Estava frio.
— Oh! Querida. Venha, saia dessa chuva forte, vai pegar um resfriado. — Ela cobriu meu corpo com uma manta. Estava sentindo muita dor na parte de baixo da barriga, segurei no local específico e deixei que a irmã me guiasse para dentro, expliquei para ela que meu estado era de abandono, não havia ninguém que pudesse me ajudar, tão pouco familiares que poderiam impedir as atrocidades que sofri até chegar aqui.
Passei pela cozinha, ignorando todas as meninas que estavam jantando.
— Noviça Melyssa? O que houve? Está tremendo e me parece nervosa. — A madre segura meus ombros preocupada, só então notei estar no corredor dos quartos.
— Mére? — Senti um grande arrepio percorrer toda a extensão da coluna espinal. Olhos aterrorizantes, sobrancelhas curvas e bem definidas. Aquele odor...
Álcool.
— Melyssa? Está me ouvindo? — Senti ser sacolejada.
— Tem homens no portão. — As palavras escorregaram de meus lábios.
— O que eles querem aqui à essa hora? — Mére uniu as sobrancelhas e seguiu para lá, me deixando sozinha. Notei uma agitação estranha nos batimentos cardíacos, seguido da respiração instável. Resolvi tentar deixar tudo de lado para poder conseguir descansar.
Então, me guiei para os dormitórios das Noviças. Um grande cômodo que se parecia muito com o salão de entrada. Andei até a minha cama e deixei a bíblia sobre ela. Suspirei sentindo tudo girar, então decidi fazer algo mais sensato.
Tomar um bom banho e finalmente poder descansar, talvez esteja delirando e que aqueles homens fossem apenas fruto da minha imaginação.
Apenas isso.
Pensei enquanto pegava o necessário, uma camisola de pano grosso e um sabonete. Sai do quarto atenta a qualquer movimento, pois já se passava do horário de banho e eu poderia encontrar com algum hóspede. Perto da porta do banheiro, olhei mais uma vez para os lados antes de adentrar o local.
Era o único lugar que continha um chão de piso branco, paredes pintadas de branco e divisões de cimento para cada chuveiro. E o mais importante, sem espelhos. Beleza nunca foi tão necessário preservar, pois ela vem junto de pecados. Beleza pode te dar ego, pensar primeiramente em si e deixar o próximo esquecido. Ela traz inveja, cobiça e finalmente o pecado.
Por isso não é apropriado ter espelhos grandes, apenas pequenos que nos ajudam a pelo menos manter os fios de cabelos no lugar.
Entrei em um dos boxers, fechei a porta e pendurei as roupas junto da toalha. Segui até o chuveiro e o liguei deixando a água fria percorrer por todo o meu corpo. Comecei a me ensaboar, mas por um momento, acreditei estar sendo vigiada. Ignorei terminando minha higiene, já aproveitando para escovar os dentes embaixo d'água.
Escutei algo caindo no chão me assustando. Talvez alguma das meninas vieram me procurar.
Sequei o corpo e depois me vesti, saí do banheiro podendo ver a vassoura caída no chão.
Segundos depois, escutei alguém começar a tomar banho. Ignorei deixando a troca de roupa suja no cesto.
Peguei um creme para pentear os cabelos e ajeitei todos os fios antes de me retirar para o quarto. No quarto, as meninas e as demais noviças estavam quase prontas para dormir.
— Mel? O que aconteceu para você ter nos ignorado daquela maneira? — Lisbeth pergunta, seus cabelos estão soltos, rebeldes um pouco abaixo dos ombros.
— N-nada de importante. — Sorri fazendo ela crispou os olhos para mim.
— Oi meninas. — Abigail aparece em nossa frente. Seus cabelos estavam úmidos, o que indica que ela estava no banho, isso me deixou aliviada quanto aos barulhos no banheiro.
— Oi. — Respondemos juntas.
— Estou exausta. — Aby sentou-se na sua cama ao lado da minha.
— Eu também. — Disfarcei entre os olhares desconfiados de Lis, focando a atenção para algumas meninas que acertavam os travesseiros na cara uma da outra.
— Então, teremos um longo dia amanhã. — Disse me deitando.
— ¹Bonsoir meninas.
***
¹Bonsoir: Boa noite.