Nick
O celular apitou avisando uma nova mensagem do meu amigo, estava intrigado e curioso para saber o porquê ele precisou de uma linha segura, será que ele estava encrencado? Coloquei o bule na cafeteira, para o pó ser coado pela água quente.
Olhei novamente para o meu celular, ele só tinha me enviado o endereço e a hora marcada. Estava me sentido como no tempo do exército, que enviávamos mensagens em código, um para o outro, marcando um local para podermos passar informações importantes.
Se ele precisou usar uma linha segura, isso significava que ele estava em apuros. O que será que aquele i****a fez dessa vez?
— Vai sair hoje? — Damiana despertou-me da minha viagem. Colocou mais três xícaras no balcão e mais água e pó na cafeteira.
O que significava que o meu café demoraria mais cinco minutos para ficar pronto.
— Um amigo quer conversar comigo, mas a noite, não tenho nada programado. As meninas já levantaram?
— Já estão descendo. Quem você vai encontrar?
— A pessoa mandou-me um código, não é seguro você saber.
— Tipo aqueles códigos para missões secretas?
— Mais ou menos isso.
Damiana preparou a massa das panquecas e colocou-as para fritar. Depois se virou para mim, com cara de quem queria me dar bronca.
— O que foi?
— Esse seu amigo está encrencado?
Droga! Ela era super protetora.
— Não sei, talvez esteja, pelo fato de ter me mandando uma mensagem em código.
— Nicholas Macalister, você tem duas filhas...
— Eu sei, eu sei, não sou louco de colocar-me em perigo.
— Hummm. Acho bom.
Damiana nunca gostou que eu fosse jornalista investigativo, temia que algo acontecesse comigo, odiava a ideia de depender da ajuda da própria filha para criar as gêmeas. Elas duas nunca se deram bem, fui o único genro que tratava Damiana como ela merecia. Por isso, ela cuidava e se preocupava com a gente, era mais que uma amiga, era uma verdadeira mãe.
Colocou duas panquecas na minha frente e uma xícara de café. Acrescentei um pouco de leite e...
— Bom dia, pai — as gêmeas falaram ao mesmo tempo.
A minha xícara de café tinha parado no meio do caminho, quando vi Natali vestida toda de preto e com uma maquiagem pavorosa, chegava me dar medo. A sua busca de identidade era incansável. Eu e Damiana, olhamo-nos sem entender.
— Oi, filhas. Por que... — engoli seco — está vestida assim, Natali? — Tive coragem de tomar um gole do meu café e quase queimei-me.
— Ela acordou do lado errado da cama — informou Natália.
Natali olhou feio para a irmã.
— Decidi ser uma estrela do rock.
Ficamos a olhando boquiabertos, depois uma sonora gargalhada saiu de nós três.
— Vocês não acreditam?
— Você não sabe nem cantar garota. Parece um CD arranhado.
— É só o papai pagar aulas de canto.
Comi um pedaço de panqueca, constatando que estava uma delícia.
— Só se for para ficar realmente no canto dos fundos da sala.
Natali se emburrou e cruzou os braços abaixo dos p****s. Terminei a minha mastigação e me virei para Natali.
— Filha, o que te motivou a essa decisão?
— A trilha sonora do Thor — falou sem humor.
Sabia que não era uma boa ideia assistir esse filme e o pior de tudo é que nem foi tão bom assim. Lacração total, ainda bem que na hora que o Thor estava pelado, elas estavam no banheiro. Beberam muito refrigerante, a minha ideia funcionou.
— Filha, ser estrela do rock é coisa séria, tem que ter muita dedicação e estudos.
— Estudos?
— Claro! Não é só subir no palco e cantar. Você seria uma referência no mundo. Tem que ter aulas de música, tem que técnicas de respiração, tem que saber como preparar a voz para cantar, entre outras coisas — falei tudo isso na intenção de que desistisse dessa ideia absurda, Natali, nunca foi fã de estudar. — Que informação que você quer passar? Temos exemplo de sobra de referência negativa, precisaria fazer a diferença.
Os seus olhinhos brilharam, isso acontecia quando sentia admiração por alguma coisa que eu dizia. Eu ficava derretido toda vez que ela me olhava daquele jeito. Achei que se aborreceria, se trancaria no quarto, mas o que ela fez pegou-me de surpresa.
— Obrigada, pai.
Os seus braços apertaram forte o meu pescoço e deu-me um beijo gostoso na bochecha.
— Sabia que você me apoiaria.
O que? Quando foi que apoiei alguma coisa?
Ela saiu da cozinha, roubando uma panqueca do meu prato, indo direto para o quarto.
— Aonde ela vai?
— Ontem ela procurou na internet uma escola de música, então... — informou Natália e deu de ombros.
Fiquei pasmo, por essa eu não esperava.
— Mas...
— Sabe o que elas precisam? De uma mãe, para poder orientá-las — comentou Damiana. — Natali não sabe o que quer ser na vida e isso preocupa-me muito. Elas precisam de uma referência feminina para poder guiá-las pelos caminhos da vida.
— Você poderia fazer esse papel.
Tomei mais um gole do meu café e mordi um pedaço da panqueca.
— Eu tento, mas ela vê-me como avó. Elas precisam de alguém que as vejam como amiga. Eu já estou velha, os jovens não ouvem mais os velhos.
Natália só observava a nossa conversa e não dizia nada. Damiana tinha razão, as minhas filhas precisavam de alguém com quem se espelhar e eu sabia que elas sentiam falta de ter uma mãe.
— Não quero colocar qualquer uma dentro de casa, já bastam a dor de cabeça que tive com as minhas ex-namoradas feministas, depois da minha separação.
— Você casou com a minha filha sabendo o que ela era, não foi por falta de aviso.
Realmente, Damiana alertou-me a cobra que era a filha, mas apaixonado como eu estava, não dei ouvidos. Suspirei terminando de engoli a minha comida.
— Se for para me casar com alguém, dessa vez, precisa ser a mulher certa, sem a cabeça voltada para revolução.
— E como saber que é a pessoa certa para você, pai?
Coloquei o último pedaço de panqueca na boca e tomei o restante do café antes de responder.
— Primeiro: ela não pode se interessar pelo meu dinheiro.
— Isso é o essencial, porque todas as outras não saiam do shopping, gastando até o que o senhor não tinha.
— Você sente falta de ter uma mãe, querida? — Damiana perguntou para Natália.
— Ah, tem certas coisas que só podemos contar para uma mãe — comentou Natalia
— Tipo o que? — Fiquei curioso.
— Ora, Nick, namorados, ficantes, amigas retardadas que enche o saco. Essas coisas. Mais panquecas? — retrucou Damiana.
Neguei com a cabeça, essa conversa estava começando a embrulhar-me o estômago. Mesmos assim, Damiana colocou meia xícara de café para mim. Fiquei olhando aquele líquido escuro sem mais nenhuma vontade de tomar.
— Namorados?
Natália riu e beijou-me carinhosamente.
— Fica tranquilo, pai, não temos nenhum namorado. — Suspirei aliviado. — Mais um dia teremos. — Fiquei tenso de novo.
Não gostei dessa história.
Sem acrescentar mais nada, ela saiu.
— Você ouviu o que ela disse? — questionei Damiana.
— Elas estão na adolescência, Nick, mais cedo ou mais tarde, um ou dois caras aparecerão, pedindo a sua permissão para namorar com elas.
Bufei. Quando me tornei pai, sabia que esse dia chegaria, mas ainda torcia para que demorasse mais.
— Vamos mudar de assunto?
— Elas precisam de uma mãe, uma amiga, a quem possam confiar. Uma mulher forte, equilibrada, que já levou socos da vida, que ao invés de se vitimizar, como as feministas fazem, tenha transformado a sua dor em força. Que saiba aconselhar e prepará-las para a jornada, para relacionamentos. Essa mulher existe, e mais cedo ou mais tarde ela aparecerá.
Damiana tinha razão, eu desejava muito dividir a minha vida com alguém, uma mulher que me completasse e fizesse a diferença nas nossas vidas.
— Enquanto a mulher certa não aparece, aproveito para curtir a minha família.
Saboreei o meu café, constatando que já estava frio, cuspi o líquido logo em seguida e preparei-me para o meu encontro. Precisava sair, já que estava no horário de falar com o meu amigo. Pensar nas minhas filhas namorando, rendia-me algumas gotas de dipirona. Fora que estava curioso para saber em que merda o meu amigo se meteu.