Intrusa

1503 Words
Kate Respira, inspira. Não era real, Kate, era apenas mais um pesadelo. Sentei na cama e toquei a minha carótida, sentindo a minha pulsação acelerada. Controlei a minha respiração e verifiquei o relógio, na certeza de que ainda era de madrugada, por causa da penumbra do quarto. Era quatro e trinta da manhã, pelo menos, tive trinta minutos de descanso dessa vez. Passei a mão no rosto para tirar o suor e levantei para usar o banheiro. Utilizei o sanitário para esvaziar a bexiga, depois lavei as minhas mãos e o meu rosto, para tirar a sensação do pesadelo do meu corpo. A culpa ainda me acompanhava desde daquele último confronto, o capeta fazia questão de atormentar os meus sonhos todas as noites. Nem o fogo do inferno conseguia extinguir o meu passado, o que limitava os meus relacionamentos no presente. A minha comunhão com Deus tornou-se mais forte, tinha uma grande devoção a Nossa Senhora, e ultimamente rezava com mais fervor, por consequência dos pesadelos que tinha retornado. No entanto, o meu medo de relacionamento não diminuiu, pelo contrário, por causa da minha profissão, acreditava cada vez mais que não existia nenhum homem que não fosse um pervertido. O meu ex-marido era a prova e a causa dos meus tormentos. Não era possível ser submissa a um homem que não tinha Deus e não era puro de coração. Deus fez a mulher da costela, com a mesma dignidade do homem e não do pé. A mulher nunca foi inferior ao homem, ela o completava. Mas o que via no meu trabalho era outra coisa... — Todos os homens são egoístas, agressivos, machistas, idiotas e dominadores. Isso! Nenhum deles merece sua compaixão, somente a sua vontade de justiça. Falava isso para me convencer em não me deixar me envolver com ninguém, apesar da minha psicóloga insistir do contrário. Eu não tinha amigos, nunca mais abri o meu coração, já me acostumei com a solidão, mesmo assim, às vezes, isso me assustava. De vez em quando, pensava em seguir as recomendações da minha terapeuta e sair com alguém, mas quando chegava uma mulher na delegacia vítima de agressão, descartava essa ideia rápido. Entrei de volta no quarto, evitando ligar a luz. A escuridão combinava com o vazio da minha alma, ao contrário do tempo, não havia esperança de luz para mim. O sol não brilhava no horizonte do meu coração há muito tempo, e eu preferia assim. Peguei a minha arma e fui para a cozinha. Por mais que eu tinha certeza que não seria atacada dentro da minha casa, mesmo assim, não me separava dela. Porém, ao chegar na sala, percebi uma movimentação estranha no sofá. Coloquei a minha arma em posição, mirando no meu alvo e me aproximei devagar. A escuridão me atrapalhava, não conseguia enxergar direito. Então, tive que chegar muito perto para surpreender meu inimigo. Liguei o abajur ao lado do sofá e... — Aaaahhhh! — gritamos ao mesmo tempo. — Que susto que você me deu, Kate. — Que diabos você está fazendo na minha casa, Miranda? Ela sentou no sofá com a respiração acelerada e passou a mão no rosto como se quisesse acordar. — O coronel mandou te vigiar. — Era só o que me faltava. Eu não preciso de uma babá. — Ele está preocupado com você, sabia que não cumpriria com as horas de folga. Bufei, ele não estava errado, não conseguiria voltar a dormir, a minha solução seria acertar alguns socos no saco de areia. Certamente, iria para a academia da delegacia e acabaria trabalhando na minha folga. — Eu quase te dei um tiro, sabia? Como entrou aqui? — Ela mostrou o distintivo. — Já devia ter imaginado. Liguei a luz no interruptor da parede ao lado da porta e voltei a sentar no sofá para controlar os meus batimentos cardíacos. Se isso virar rotina, acabaria enfartando. — Por que está armada? — Força do hábito. — Não estava conseguindo dormir? — Tive um pesadelo e vim beber um copo d’água. — Com a arma? — A acusação estava explicita no tom da voz. Ela conhecia uma parte do meu drama. — Já pensou se não fosse você, dormindo no meu sofá? Qualquer um podia entrar aqui com um distintivo falso e me surpreender. Terei que ter uma conversinha com o seu Juraci, ele não pode mandar ninguém subir sem a minha autorização. — Vai voltar a dormir? — Estou sem sono. Na verdade, eu tinha sono, sim, mas estava com medo que o sonho voltasse, por isso, que sempre estava cedo na delegacia. Contudo, eu estava de folga e segundo o coronel, estava proibida de aparecer no trabalho ou na academia que ficava no mesmo prédio. A minha opção era correr pela vizinhança, mas como Miranda estava de babá, as minhas opções se limitavam em voltar a dormir, ou arrumar a casa. Escolhi a segunda opção. Peguei um lençol, travesseiro e edredom para Miranda voltar a dormir no sofá. Comecei com a faxina matutina, só não arrumei a sala, pois, tinha uma hospede indesejada. Não éramos amigas, pelo menos, da minha parte, no entanto, ela via-me como a sua super-heroína e tentava me arrastar para festas e pubs, na esperança que eu reconhecesse o seu esforço. Rezei o terço, que sempre conseguia trazer um pouco de paz na minha vida atribulada, além de livrar-me de vários perigos. Miranda despertou quando terminava de preparar o café da manhã, ela apareceu na cozinha com a cara de sono, o cabelo bagunçado e a sua roupa amarrotada. Sentou-se à mesa, enquanto eu terminava de arrumar. — Bom dia! — ela disse bocejando. — Como passou a noite? Coloquei a garrafa de café sobre mesa e duas xícaras. — Bem, o seu sofá é bastante confortável. Você ficou acordada a noite inteira? — Estou acordada desde aquela hora que quase te dei um tiro — debochei. Voltei para a cozinha para buscar os pratos de sobremesa. — Como você faz para descansar? — Eu relaxo prendendo os bandidos, Miranda. — Que canseira! Revirei os olhos, eu era muito agitada para ficar parada, quase nunca sentia o cansaço pesar em meus ombros. Fui à cozinha e peguei as panquecas, o bacon e os ovos que preparei. Era um típico café da manhã americano, só faltava waffles. — Vai permanecer aqui, até minha folga acabar? Confirmou balançando a cabeça. — Ordens do coronel. — Tomei um gole do meu café em silêncio, Miranda fez o mesmo. — Kate, já faz um mês que fui recrutada para a sua equipe e não é segredo para ninguém, o quanto eu te admiro. Eu sonho ser igual a você. — Aff! Queira ser melhor do que eu. Ela ficou surpresa com o que eu disse, mas se recompôs logo. — Eu a observo desde que comecei a trabalhar na delegacia e percebi que você é sempre sozinha. Claro, conheço um pouco da sua história, com o seu falecido marido abusivo, mas você nunca teve vontade de tentar de novo? — Tentar o que? — Conhecer alguém, se apaixonar, t*****r. Engasguei com um pedaço de bacon. Para mim, era um tabu falar sobre sexo. — Sou casada com o meu trabalho, não acho que algum homem se interessaria por uma mulher que dorme armada. — Hummm! — Deu de ombros. — Alguns homens podem achar isso excitante. — Só se o cara for masoquista — retruquei. — Não é difícil de encontrar. Olhei para ela horrorizada, apesar de que ela não estava errada. Nesse meu trabalho já vi de tudo. — Prefiro ficar longe desse tipo de gente. — E como faz para t*****r? Outra vez o engasgo. — Terei uma consulta daqui a pouco, você continuará por aqui? — Mudei de assunto para não ter que morrer asfixiada. — Sim, não tenho muito o que fazer, coronel me deu folga também. Droga! Não conseguirei me livrar dela tão cedo. — Eu vou ficar bem, não precisa ficar me vigiando. Não tem nenhum lugar para ir? — Tem um barzinho com música ao vivo para ir à noite, quer ir comigo? — Ah, não, não. Vou aproveitar e descansar o que não consegui esta noite. — Você precisa sair, Kate, conhecer pessoas, de preferência um cara e ter uma boa noite de sexo selvagem. Larguei a minha xícara, constrangida com essa conversa. — Ah, quer parar de falar essas coisas? — Por quê? O que você faz quando está com vontade de t*****r? Usa algum brinquedo? — Brinquedo? Como assim? — Vibrador, bolinhas tailandesas, prótese peniana? Ah, meu Deus! — Não uso nada disso. — Então, faz com o dedo mesmo? — Que nojo? Essa conversa não podia ser mais constrangedora. — Chuveirinho? — Quer parar? — Contrata um profissional do sexo? — Olha, já está no horário da minha consulta, volto daqui a uma hora. Peguei as minhas chaves, meu capacete e saí. Ainda bem, que tinha essa consulta marcada, não suportaria passar mais um minuto, ouvindo Miranda falar tanta besteira.
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