🍂 CAPÍTULO 13 🍂

1519 Words
🪻 MIGUEL 🪻 A reunião descamba rápido demais para algo que não tem mais nem disfarce. — A diretoria entende que, neste momento delicado, o mais sensato é manter os bens sob a administração do senhor Haroldo — diz um dos conselheiros, ajeitando os óculos como se estivesse falando de clima e não da minha vida. Eu pisquei. Uma vez. Duas. — Vocês só podem estar brincando — respondo, apoiando as mãos na mesa. — sessenta por cento da empresa é minha por direito. Está no testamento. Assinado. Registrado. Minha mãe deixou isso claro. Alguns evitam meu olhar. Outros sustentam com uma coragem que só existe quando alguém poderoso está por trás. — A imagem do grupo foi muito afetada no passado. — continua outro. — Seu histórico militar, o acidente. Tudo isso levanta dúvidas sobre sua estabilidade para liderar. Meu maxilar trava. — Vocês estão usando a minha perna como argumento agora? — pergunto, a voz baixa demais para ser calma. — Ou minha ausência forçada, que foi decisão desta mesa? O silêncio pesa. Então meu pai sorri. Não é um sorriso largo. É mínimo. Controlado. Seguro demais. — Miguel, ninguém está te atacando. — ele diz, com falsa benevolência. — Estamos apenas pensando no melhor para todos. Esse conselho existe por um motivo. Manter a integridade da empresa, e evitar que possa ser m*l dirigida. — O melhor para você — corrijo. — Sempre foi. Essa diretoria não está pensando no interesse dos investidores. Estão pensando apenas em manter seus cargos e proteger seus caprichos. — Alguns de nós estávamos aqui, quando sua mãe ainda trazia você para correr pela empresa. — Um dos mais velhos tem a coragem de dizer. — Então, já está pronto para aposentadoria. — Declaro de saco cheio de todos eles. — Independente de quando estão aqui, ou não. Eu sou o herdeiro de todo o conglomerado, e é melhor que passem a me ver como isso, desde já. Estou prestes a me levantar quando meu celular vibra no bolso do paletó. Uma vez. Duas. Três. Meus seguranças não ligam. Nunca. Tudo é mensagem. Tudo é protocolo. Se estão ligando, algo saiu do controle. Levanto o dedo, interrompendo qualquer um que tente falar. — Um minuto. Atendo. — Fala. Do outro lado, o silêncio dura meio segundo a mais do que deveria. — Senhor, — a voz vem tensa, contida à força. — Nós perdemos a Clara. O mundo inclina. — Repete. — Ela saiu acompanhada. Houve troca de rota. Um bloqueio rápido. Profissional. Quando reagimos, ela já não estava mais no ônibus. Minha respiração some. Literalmente. — Feridos? — pergunto, automático. — Não. Foi limpo. Rápido. Não deixaram rastros pelas câmeras. E — ele hesita — deixaram isso. O sorriso do meu pai se amplia antes mesmo que eu diga o que está acontecendo. Não preciso ouvir mais nada. Desligo devagar. Levanto os olhos. Haroldo me observa com atenção cirúrgica. Satisfeito. Como alguém que finalmente puxou o fio certo depois de errar tantos outros. — Aconteceu alguma coisa? — ele pergunta, teatral. Eu me levanto com calma. Devagar demais para alguém que acabou de ter o mundo arrancado do lugar, e tem que correr para colocar tudo novamente nos eixos. — Você — digo, olhando diretamente para ele — acaba de cometer o maior erro da sua vida. O sorriso dele não vacila. — Cuidado com o tom, Miguel. Você está numa sala de diretoria. — Não. — respondo, pegando o paletó e olhando para ele mais uma vez. — Você está numa sala comigo. A diretoria começa a se mexer, desconfortável. Eles percebem. Todos percebem. Algo mudou. — Onde ela está? — pergunto, baixo, mortal. Haroldo inclina a cabeça. — Agora, agora, — diz. — Você sempre foi impulsivo. Eu só quis garantir uma conversa produtiva. Meu sangue ferve. — Se um único fio de cabelo dela estiver fora do lugar. — continuo — essa empresa, seu nome, seus aliados tudo vira cinza. — Você vai fazer o que eu pedir. — ele afirma, confiante. — Ou ela paga o preço. Esse seu pequeno surto aqui, na é motivo suficiente para que não confiem em você para liderar. Obrigado por sempre facilitar as coisas. A mesa desaparece. A diretoria não existe mais. Só existe Clara. E o homem que ousou tocá-la. — Você acha mesmo. — digo, com uma calma que não reconheço em mim — que depois disso eu ainda sou capaz de obedecer? Ele estreita os olhos. — Você não tem escolha. Dou um passo à frente. — Não — corrijo. — Você não tem. Saio da sala sem olhar para trás. Porque, a partir de agora, isso não é mais uma disputa por bens. É guerra. E eu nunca perdi uma missão quando aquilo que amo estava em jogo. O corredor ainda ecoa atrás de mim quando começo a agir. O celular já está no ouvido antes mesmo de alcançar o elevador. — Ativa o protocolo vermelho. — ordeno. — Agora. Não há perguntas. Não há hesitação. Em minutos, tudo se move. Meus homens civis. Os da segurança privada. E os outros, os que não aparecem em contratos, mas que ainda me devem favores, lealdade e sangue. Irmãos de farda. Homens que estiveram comigo em buracos que Haroldo não sobreviveria nem cinco minutos. — Quero rastreamento de todas as rotas secundárias, galpões, imóveis fantasmas, propriedades vinculadas direta ou indiretamente ao nome Fonseca. — digo, enquanto entro no carro. — Nada oficial. Nada que gere ruído. O motorista acelera antes mesmo de eu terminar. Minha mente funciona fria, afiada, mas por dentro é um caos. Clara. Presa. Sozinha. Por minha causa. A imagem dela me atravessa como uma lâmina: o olhar firme quando me enfrentou no restaurante, a dor contida, a dignidade intacta mesmo magoada. Eu prometi protegê-la. Mesmo sem o perdão dela, essa promessa nunca deixou de existir. E falhei. O celular vibra uma vez. Depois outra. Depois outra. Informações chegando rápido demais. — Temos algo. — diz uma voz conhecida. Um capitão que já me tirou de situações impossíveis. — Galpão desativado, zona industrial antiga. Registrado em nome de uma empresa laranja. Padrão de contenção compatível com sequestro de curto prazo. — Quantos? — pergunto. — Quatro homens. Armados. Um deles identificado como segurança pessoal do seu pai. Meu maxilar trava. — Ela está viva? — a pergunta sai baixa. Contida à força. — Sim. Sem sinais de deslocamento recente. Estão esperando instruções. Claro que estão. Haroldo quer negociar. Quer me dobrar. O erro dele foi achar que Clara é apenas uma moeda. Ela é o limite. — Não avancem ainda. — ordeno. — Quero perímetro completo. Silencioso. Quero visão, áudio, tudo. Ninguém encosta nela até eu chegar. — Entendido. Desligo. Encosto a cabeça no banco por um segundo. Só um. A culpa pesa mais do que qualquer arma que já carreguei. Eu a trouxe para esse inferno. Eu a expus ao homem que destruiu minha mãe, minha juventude, minha vida inteira. Tudo porque achei que podia resolver tudo sozinho. Porque subestimei o quanto meu pai é podre. — Eu devia ter te protegido melhor. — murmuro no vazio do carro. Endireito o corpo no segundo seguinte. Culpa não salva ninguém. A raiva, sim — quando bem direcionada. Enquanto a cidade passa borrada pela janela, uma certeza se forma clara, sólida, inabalável dentro de mim: Haroldo não tocou apenas na mulher que eu amo. Ele assinou a própria sentença. E desta vez… não haverá acordos. O galpão cai em silêncio em menos de cinco segundos. Meus homens entram como sombras, coordenados, letais. Não há gritos. Não há aviso. Apenas execução precisa. Meu sinal é mínimo. Um movimento curto dos dedos. Três disparos ecoam quase como um só. Os corpos caem antes mesmo de entenderem o que aconteceu. Clara está no centro do espaço, amarrada de pé, o rosto pálido, os olhos arregalados de terror. Um homem mantém a arma encostada em sua cabeça e isso me mata um pouco a casa respiração. O quarto homem é dominado, jogado no chão, imobilizado com brutal eficiência. Está vivo. Respirando rápido. Tremendo. Ele vai pagar por tocar na minha Clara. Meu olhar para ele entraga meus planos. Eu vejo o desespero na sua visão. Sabe que será pressionado, interrogado, quebrado até entregar o nome do chefe e tudo mais que estiver envolvido. Antes que qualquer um consiga reagir, o homem força algo escondido entre os dentes. Um estalo seco. O corpo entra em convulsão por segundos intermináveis e então fica imóvel. Silêncio. Nenhum deles fica vivo. Nenhum elo resta para ligar diretamente ao responsável. Haroldo continua nas sombras. Mas eu sei que foi ele, e apenas isso importa. Eu junto Clara contra meus braços, enquanto corto as amarras que prendem seus pulsos. Ela chora de desespero e aperto mais ela contra meu corpo, tirando a sua amordaça. — Estou aqui, querida. – Declaro sobre sua cabeça, beijando e sentindo o cheiro reconfortante que ela tem. — O que foi tudo isso? — ela soluça, e começo a caminhar, levando ela em direção a saída. — vou explicar tudo. ...
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