🪻 MIGUEL 🪻
Eu sabia que iria doer.
Mas não imaginei que doeria tanto.
Talvez porque ela não me rejeitou por eu estar manco.
Ela me rejeitou por eu ter sido covarde.
Por ter enganado a mulher que amo.
Clara não merecia isso.
Eu a vi chorando na praça do terminal. Vi a dor estampada nos olhos dela. E, mesmo assim, escolhi a minha covardia. Escolhi me esconder em vez de dizer quem eu era.
Duvidar do caráter dela foi a gota d’água.
Eu deveria saber que Clara nunca se importaria com a minha condição. Para ela, o que importa é estarmos vivos. Sempre foi assim.
Mas eu não consegui encarar o peso da promessa.
Carlos me deixou Clara para cuidar.
E eu me sinto incapacitado.
Olho para minha perna cinza. Não há sensibilidade, não há aviso, não há nada que me diga se posso confiar nela. Eu apenas me apoio… e vou.
Quando chego à casa da Clara, vejo-a saindo com a amiga e um homem. Meu estômago se revira de ciúmes, e preciso respirar fundo para não perder o controle.
Se eu não tivesse sido um i****a, ela poderia estar comigo agora.
Na minha cama.
Entre meus lençóis.
Feliz. Satisfeita. Talvez exausta.
Ou apenas falando sobre a vida. Sobre nós. Sobre o futuro que eu mesmo destruí.
— Miguel!
A voz do meu pai corta meus pensamentos como uma lâmina.
Respiro fundo antes de me virar.
Ele já descobriu que voltei para a cidade. Agora, o inferno começa de verdade. Eu esperava que, quando isso acontecesse, minha vida com Clara já estivesse resolvida. Que ao menos esse lado estivesse em ordem antes da tempestade.
— O que você quer? — pergunto, fingindo indiferença.
— Quero resolver, de uma vez por todas, a questão da empresa.
Olho para ele com desdém. Dois seguranças o acompanham, como se ele estivesse lidando com um criminoso.
Ironia.
Eu também tenho seguranças à distância. Porque, na verdade, sou eu quem está lidando com um bandido. Um homem sem escrúpulos.
Agradeço internamente por Clara não estar aqui para ver essa cena deplorável.
— Concordo. — respondo. — Já não sou um garoto. Posso assumir tudo o que me pertence.
Vejo o rosto dele mudar de cor. A raiva é instantânea.
A verdade é simples e c***l: ele comprou a diretoria inteira, espalhou escândalos sobre mim e fez parecer que, aos quase trinta anos, eu era incapaz de cuidar do próprio legado.
Cursei medicina na faculdade militar. Cumpri o tempo obrigatório. Quando voltei pronto para assumir o conglomerado de clínicas da minha mãe, ele virou tudo contra mim. Um escândalo fabricado, meu nome jogado na lama, e a solução “conveniente” foi me enviar de volta ao serviço militar — longe do que era meu por direito.
Minha madrasta teve papel ativo nisso. Sempre sorrateira. Sempre envenenando tudo pelas sombras.
— Teremos uma reunião amanhã — ele determina. — Lá veremos como isso vai ficar.
Eu sei que ele está armando algo.
Meu pessoal já está de olho nele e na víbora que chama de esposa. Ainda assim, não posso chamar atenção agora. Ele não pode desconfiar que eu não sou mais o mesmo homem indefeso de anos atrás.
Esse tempo fora me mudou.
Estou mais forte.
Mais preparado.
E pronto para enfrentá-lo.
— Sim — respondo, com calma calculada. — Veremos.
Todos os diretores e conselheiros já foram investigados. Mas essa carta precisa permanecer escondida. Quero dar a eles a chance de escolherem ficar do meu lado.
Se não escolherem…
Tenho outros meios.
Meu pai entra no carro e vai embora. Fico parado, evitando olhar para a casa da Clara. Mesmo com a guerra que se anuncia, meu pensamento insiste em voltar para o que realmente importa.
Ela.
Quero saber onde está.
Quero afastar aquele “amigo” i****a.
Quero corrigir tudo.
Mas sei que, agora, ela precisa de tempo. E se eu agir movido pelo impulso, só vou piorar o que já destruí.
Dessa vez, preciso fazer diferente.
Mesmo que doa.
Descobrir onde Clara está não é difícil.
Nunca foi.
O difícil é respeitar a distância.
Fico dentro do carro afastado, observando à distância enquanto ela caminha pela calçada com a amiga. Clara ri de algo que não consigo ouvir, e aquela imagem — simples, cotidiana — me atravessa o peito como uma lâmina.
Ela entra em casa.
Espero.
Espero até a luz acender. Espero até vê-la se aproximar da janela. Só quando tenho certeza de que ela está segura, permito que meu corpo relaxe minimamente contra o banco do carro.
— Movimento estranho às duas horas — avisa um dos meus homens pelo ponto.
Endireito a postura no mesmo instante.
— Onde?
— Carro escuro, parado desde antes da chegada dela. Placa fria. Já cruzamos.
Meu maxilar se fecha. Observo o carro a distância, me condenando por não ter percebido antes. Tão envolvido com ela, que fico cego para o óbvio?!
— Confirma.
Alguns segundos depois, a resposta vem.
— É homem do Haroldo.
Fecho os olhos por um instante, sentindo a raiva subir quente, mas não permito que ela me governe. Isso é exatamente o que ele quer. Medo. Pressão. Erro.
— Não toquem nele. — ordeno. — Apenas observem a distância. Quero saber até onde ele vai. Creio que não irá atacar, antes de me menosprezar na reunião amanhã.
Meu pai não perdeu tempo.
Nem eu.
— A partir de agora, ela fica sob vigilância constante. — continuo. — Dois homens por turno. Disfarçados. Nada que denuncie proteção.
— E se ele perceber?
— Não vai. — respondo, frio. — Se perceber, mudamos o jogo.
Desligo.
Meu olhar volta para a casa de Clara. Tudo em mim quer atravessar a rua, subir aquelas escadas e pedir perdão de joelhos. Mas proteção, agora, não passa por presença. Passa por estratégia.
Carlos me ensinou isso.
Proteção, às vezes, é invisível.
Volto para casa quando o dia já amanhece e me preparo para a reunião. Tomo banho, visto o terno com precisão militar. Não escolho nada ao acaso. Cada detalhe precisa transmitir controle — mesmo quando tudo dentro de mim está em guerra. Minhas medalhas orgulhosas sobre meu peito, deveria causar algum impacto na diretoria, mas, sei que elas não valem mais que o dinheiro que estão pegando para apoiar o Haroldo.
Quando chego à empresa, sinto o ambiente mudar.
Silêncio demais. Olhares desviados. Cumplicidade contida.
Entro na sala de reuniões e a vejo.
Soraia.
Minha madrasta está sentada à mesa como se estivesse prestes a desfilar, não participar de uma reunião da diretoria. Vestido justo demais, decote exagerado, maquiagem pesada. Pernas cruzadas de forma calculada, sorriso ensaiado.
Ela não pertence àquele lugar.
Nunca pertenceu.
É apenas a amante que meu pai enfiou dentro de casa semanas depois da morte da minha mãe. A mulher que circulava pelos corredores como se sempre tivesse estado ali. Como se não carregasse o cheiro da traição.
Meu olhar passa por ela sem cumprimentar.
Vejo o sorriso dela se tensionar.
— Miguel — ela diz, com aquela voz açucarada que sempre me causou repulsa. — Que surpresa, não achei que ainda o viria pessoalmente.
Sim, ela quer dizer que sempre achou que eu morreria em batalha. Não teve essa sorte, e, vou garantir que ela sofra bastante por isso.
— Eu venho a qualquer lugar que seja meu. Felizmente estou vivo para isso, e ainda vou estar por muitos anos. — respondo, seco, antes de me sentar. — Inclusive onde você não deveria estar.
O silêncio que se segue é pesado.
Meu pai entra logo depois, como se fosse o dono absoluto de tudo ali. Senta-se à cabeceira, satisfeito, confiante demais.
Perfeito.
É assim que homens como ele caem.
Enquanto eles falam de números, conselhos e “preocupações com a imagem da empresa”, minha mente trabalha em paralelo. Cada rosto naquela mesa já foi analisado. Cada histórico, levantado. Cada fraqueza, mapeada.
Eles acham que me conhecem.
Acham que ainda sou o garoto que aceitaram empurrar para longe.
Mas eu voltei.
E não é apenas a empresa que está em jogo.
É Clara.
E quem toca no que é meu, aprende da pior forma possível.
...