🪻 MIGUEL🪻
O buquĂŞ pesa mais do que deveria.
Seguro as flores com cuidado excessivo, como se elas pudessem denunciar tudo o que carrego por dentro. Continuo parado próximo a entrada, olhando ela pelo vidro. Não por medo do lugar — mas dela.
Clara está lá.
Sentada à mesa perto da janela, usando um vestido azul claro que parece feito para a luz da noite. O tecido acompanha a cintura, cai suave sobre o corpo, e os cabelos soltos emolduram o rosto que eu conheço melhor do que deveria mesmo nunca tendo tocado de verdade.
Fico ali, parado.
Observo o jeito como ela mexe no celular, como cruza e descruza as pernas, como olha para a porta a cada poucos segundos. Ansiosa. Esperando. Por mim.
Ou pelo homem que ela acha que eu sou.
Meu peito aperta. Penso em Carlos. Na foto. Na promessa feita em um leito de morte, com a poeira da guerra ainda grudada na pele. Eu deveria protegĂŞ-la. E, ainda assim, estou prestes a feri-la com a verdade.
Ela sorri para a tela do celular.
Provavelmente para mim.
A ironia quase me faz rir.
Respiro fundo. Ajusto a postura, respiro fundo e busco minha coragem. As flores tremem levemente na minha mĂŁo, mas nĂŁo recuo. NĂŁo agora.
Porque fugir foi fácil demais até aqui.
E amar Clara — do jeito certo — exige que eu atravesse essa distância, mesmo que o preço seja perdê-la quando ela finalmente levantar os olhos e me reconhecer.
Dou o primeiro passo.
As flores à frente. Como se elas fossem um escudo. Eu achei que já havia sentindo grandes medos na vida, mas, acho que, esse é o mais intenso que já senti.
🥀CLARA🥀
Reconheço o homem que vem na minha direção, antes mesmo de ultrapassar as primeiras mesas. Miguel parece nervoso, e aperto minhas mãos sobre a mesa, tentando entender o que meu vizinho faz aqui.
O buquê vem primeiro. Depois o corpo alto, a postura firme, o caminhar cuidadoso. Meu coração acelera, mas não de alegria — é estranhamento. Ele para diante da mesa, e o mundo parece desacelerar.
— Clara. — diz me olhando com uma intensidade, que não sei explicar, é como se fosse a primeira vez que estivesse me olhando.
Prendo o fĂ´lego.
— Acho que você está enganado. — respondo, minha voz saindo baixa, talvez falha. — Estou esperando outra pessoa.
Ele nĂŁo se senta. Apenas suspira, fundo, como se estivesse se preparando para algo irreversĂvel. EntĂŁo leva a mĂŁo ao bolso e tira duas fotos.
A primeira sou eu. Na formatura. A mesma foto que meu irmĂŁo amava.
A segunda, Carlos e ele.
O chĂŁo desaparece.
O ar some dos meus pulmões, e tudo o que sinto vem de uma vez: raiva, dor, traição, saudade. Levanto devagar, mantendo a voz baixa porque não vou dar esse espetáculo aqui, apesar de está tão magoada ao ponto de sentir meu coração doendo.
— Vamos para um lugar reservado — digo, dura.
Ele concorda sem discutir.
Assim que a porta se fecha atrás de nós, arranco o buquê da mão dele e bato em seu peito, uma, duas, três vezes, xingando tudo o que consegui guardar até agora. O engano. A omissão. O medo disfarçado de cuidado.
Ele nĂŁo se defende. NĂŁo se afasta.
Quando minhas forças acabam, fico ofegante, com os olhos ardendo. Miguel então me envolve pelos ombros, firme, protetor, e beija minha testa com um carinho que desmonta tudo.
— Me perdoa. — ele pede. — Eu tive medo de te perder.
As lágrimas caem antes que eu consiga impedir. E mesmo furiosa, mesmo ferida, eu sei.
É ele.
O homem que esteve comigo quando o meu mundo desabou.
Mas, o que ele fez comigo esses últimos tempos, é imperdoável. Me manipulou e agiu por minhas costas, como se eu fosse uma mulher sem caráter que ele deveria testar antes.
Cravo minhas unhas nas costas dele, até escutar seu gemido. Ele não diminui o aperto do abraço. Meu coração está acelerado, e ao mesmo tempo que estou querendo esmagar esse infeliz, também estou amando está finalmente no seu abraço.
— Eu nĂŁo esperava que justo vocĂŞ, me magoasse assim. — declaro de coração, e finalmente sinto seus braços diminuindo o aperto. — Eu confie em vocĂŞ. Quando me viu na praça da estação a primeira vez, em prantos esperando alguĂ©m que nĂŁo vinha mais, e a vocĂŞ, se tivesse o mĂnimo de consideração por mim, teria tirado um pouco daquele peso, revelando sua identidade.
— Me perdoa. — Ele sussurra sobre minha cabeça, voltando a me prender contra ele. — Eu. Tive medo de que não me aceitasse como estou agora. Ou que me aceitasse por pena. Eu, eu não sabia como agir. Tive medo.
— E eu não tive medo?! Não tive dúvidas? — Consigo empurrar ele e sair do seus braços, para olhar nos olhos dele. — Você sabe que a coisa que mais odeio no mundo é mentira. Agir por todo esse tempo, fingindo que não sabia quem eu era, foi o ato mais covarde que já vi. Não merecia isso, e não desejo nem mesmo pra você.
— Desculpa. — Ele sentou e eu vi no olhar dele o quanto parecia doer. — eu nĂŁo tenho nenhuma desculpa plausĂvel para dizer. Sei que o que fiz foi i****a. Eu queria tanto está perto de vocĂŞ. Desde que perdi a perna, me senti incompleto, insuficiente para vocĂŞ. SĂł queria saber como era está ao seu lado, antes que soubesse a verdade e nĂŁo quisesse mais está comigo.
— Você é i****a, ou o que, Miguel?! — suas palavras me magoam um pouco mais. — Acha que meu amor é tão volúvel ao ponto de se perder por causa de algo assim?! Eu te amei sem saber nada da sua aparência. Não sabia se era branco, preto, se andava sobre suas pernas, ou de cadeiras. Nada! Eu não sabia nada sobre sua aparência. Gordo, magro. Eu amei você pelo que é. Pelo que representou pra mim.
— desculpe, Clara.
— Hoje nĂŁo, Miguel. Isso que vocĂŞ fez, me magoou demais para ser perdoado assim. — Aviso, antes de sair daquele restaurante sentindo que fui traĂda, por quem eu confiava.
Carlos e eu tĂnhamos o pacto da verdade. Se a mentira Ă© mais fácil do que a verdade, enfrente a verdade, porque a mentira uma hora ou outra vai se desmanchar, e a verdade, por mais dura que seja, ainda vai está ali, sempre.
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