🍂 CAPÍTULO 10 🍂

1063 Words
🥀 CLARA 🥀 Acordo com o celular vibrando ao meu lado. Érica está ligando para saber como estou, e apenas resmungo, porque quem em plena consciência liga para alguém que está de ressaca?! — quero dormir mais. — aviso a ela, que ri da minha desgraça. — então tá, princesa. — eu desligo, e apenas abro um olho para olhar a hora. Por um segundo, não entendo onde estou. Então a lembrança da noite anterior vem inteira, quente e confusa. Olho mais uma vez a tela e prendo a respiração quando vejo a mensagem. “Estou voltando.” Meu coração dispara. Sento na cama, relendo as palavras simples como se escondessem um mundo inteiro dentro delas. Voltando. Para mim. Para nós. Finalmente vou dar um rosto à voz que me acompanhou durante o pior período da minha vida. Sorrio sozinha, nervosa. Levanto rápido demais, quase tropeço, e começo a me arrumar com uma ansiedade que não consigo controlar. Tomo banho, escolho uma roupa e já penso no que dizer, no que sentir, no que fazer quando o vir. Me olhou no espelho e vejo que estou com olheiras da ressaca e preciso resolver isso. Da última vez que Miguel soube que eu havia bebido ele ficou um pouquinho bravo. Isso não importa agora. Eu paro um instante minha mente voltando a noite. Eu lembro muito bem do que aconteceu e quero me bater por isso. Se o Miguel fosse m*l caráter, tinha se aproveitado da situação, e hoje eu estaria sem saber como nem mesmo reagir. Preciso agradecer a ele, por não ter aceitado nada ontem a noite. Bom, isso é o mínimo que alguém com responsabilidade deve fazer. Não aceitar, mesmo que o outro ofereça. Mas, mesmo assim ele merece um agradecimento e um pedido de desculpas, porque ele cuidou de mim, sem ter a mínima obrigação. Saio de casa decidida a tomar um café, talvez comprar algo novo. Quero estar bonita. Quero estar pronta para o Miguel. É quando o vejo. Miguel. O vizinho. Ele está do outro lado da rua, apoiado na bengala, me observando com atenção silenciosa. Meu impulso é atravessar sem olhar, fingir que não vi. E é isso que faço, porque apesar de querer agradecer a ele, ainda não me sinto pronta para isso, porque ele de alguma forma meche comigo, e hoje eu só posso me concentrar no meu Miguel. — Clara! — ele chama. Paro contra a minha vontade, e olho para ele dando um sorriso meio forçado, porque me sinto nervosa e envergonhada por ontem. — Está melhor? — pergunta, sincero. Assinto, breve. — Obrigada por ontem. — agradeço sincera. — me desculpe por agir daquela forma. — passo a mão no rosto, tentando tirar a vergonha que está ali. — Você foi, — suspiro olhando para ele. — Não sei o que faria se, — Não foi nada. — ele cortou meu constrangimento e deu um sorriso, que não foi nada satisfeito. Não fico. Não explico. Não sorrio. Sigo andando, repetindo para mim mesma que preciso de distância. Miguel, o vizinho, é perigoso para a minha confusão. Ele é real demais. Presente demais. Bonito demais. Mas o Miguel que eu amo. Esse esteve comigo no silêncio, nas cartas, nas mensagens simples dizendo que tudo ficaria bem. O melhor amigo do meu irmão. O homem que conheceu minha dor antes de conhecer meu rosto. Digo a mim mesma que a atração pelo vizinho é só isso: falta de uma imagem, uma mente tentando preencher um vazio. É mais de um ano, amando alguém que nunca vi. Em algum momento, eu também teria essa necessidade de ter uma imagem a me apegar. Mas, isso foi só algo de momento e não vai se repetir quando eu tiver realmente meu Miguel para mim. Ontem à noite não significou nada. Foi só confusão. Precisa ser. Porque hoje, finalmente, meu futuro está chegando e nada pode atrapalhar. 🪻MIGUEL🪻 Vejo Clara se afastar sem olhar para trás. Ela anda rápido, decidida, como quem foge de algo que não quer enfrentar. Sei exatamente do quê. Ou de quem. A rejeição silenciosa dói mais do que se ela tivesse dito qualquer palavra dura. Não é que ela fosse me escolher, entre eu e o homem que ela ama. Se é que em algum momento eu fui uma opção para ela. Volto para casa com o peso disso nos ombros. Me odeio por sentir ciúmes de mim mesmo. Na verdade, não é ciúmes. É a constatação que, entre alguém que ela nunca viu, e a mim, ela escolhe esse outro alguém. Sei que nossa história vai além disso. Quando Carlos morreu, foi algo difícil, em especial para ela que tinha apenas o irmão. No sofá, pego o celular. O nome dela ainda está ali, intacto, como se não tivesse ideia do caos que causou em poucas palavras. Respiro fundo antes de escrever. Não posso adiar mais. “vamos no ver hoje.” A resposta demora. Cada segundo estica minha ansiedade como um fio prestes a arrebentar. Quando o celular vibra, meu coração falha uma batida. “Hoje? Sim! Pode ser.” Fecho os olhos por um instante. Ela ficará tão decepcionada. Odeio que sou eu quem vai fazer ela passar por isso, mas, agora não posso mais esconder isso dela. Clara não merece se iludir com alguém como eu. Marcamos um restaurante simples, discreto. O tipo de lugar que não distrai, não esconde, não protege. Exatamente o que eu preciso — ou temo. À noite, me preparo com cuidado. Ajusto a prótese, escolho a roupa pensando menos na aparência e mais no que ela vai enxergar quando me olhar de verdade. Não só o homem. As escolhas. As cicatrizes. A verdade. No caminho até o restaurante, minha cabeça não para. Penso em Carlos. Na promessa. No erro de ter me aproximado dela como outra pessoa. No risco real de perdê-la no instante em que tudo vier à tona. Quando chego, ela já está lá. Clara está sentada à mesa, usando um vestido simples que realça tudo o que ela tenta esconder. O sorriso nervoso, os dedos inquietos, o olhar atento à porta. Ela está esperando por mim. E desta vez, não posso chegar como um estranho. Hesito olhando ela a distância. Não quero que ela me odeie e não sei se estou preparado para que ela me rejeite. Dói a possibilidade. 🍂🍂🍂
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