đ„ CLARA đ„
A rotina tenta se impor, mesmo quando tudo dentro de mim resiste. Acordo cedo, preparo café demais para uma casa vazia e sigo para a escola com a sensação constante de estar esquecendo algo importante. Meus alunos falam ao mesmo tempo, riem, reclamam das provas, e eu sorrio com naturalidade treinada. Eles não sabem que, por dentro, eu ainda estou enterrando meu irmão todos os dias.
No intervalo, confiro o celular por impulso. Ăs vezes nĂŁo hĂĄ nada. Em outras, uma mensagem curta de Miguel aparece na tela, simples e direta, como ele.
Estou bem. Pensei em vocĂȘ.
Ă pouco, mas muda tudo. Guardo o telefone no bolso com mais cuidado do que deveria, como se pudesse quebrar.
Ă noite, sento na varanda com as pernas recolhidas e deixo o vento frio tocar meu rosto. Ă nesse momento que a saudade pesa mais. Miguel liga quando pode. Nunca avisa. A voz dele surge baixa, firme, como um apoio inesperado nas costas.
Falamos de coisas pequenas. Do clima, do cansaço, de memĂłrias soltas do Carlos. Ăs vezes, ficamos em silĂȘncio. E esse silĂȘncio nĂŁo incomoda. Pelo contrĂĄrio. Ele me faz sentir acompanhada.
â VocĂȘ nĂŁo precisa ser forte o tempo todo. â Miguel diz certa vez.
Engulo em seco. Aperto o celular contra a orelha. Quando Carlos pediu para que ele cuidasse de mim, ele sabia o que estava fazendo, porque a voz dele me faz bem, me deixa calma.
â AlguĂ©m precisa ser. â dou de ombros, apĂłs ter falado como foi esmagador o enterro do meu irmĂŁo, a homenagem e o respeito.
â Eu fico com vocĂȘ quando cansar. â ele responde, eu agradeço em silĂȘncio.
Não sei quando isso acontece exatamente, mas percebo que começo a esperar por ele. Pelo som da notificação, pela ligação breve, pela certeza de que, em algum lugar distante, existe alguém que pensa em mim antes de dormir.
Nunca vi Miguel. NĂŁo sei como ele anda, nem como olha quando estĂĄ atento. Ainda assim, quando fecho os olhos Ă noite, Ă© a voz dele que me acompanha.
E, no meio do luto, algo perigoso começa a nascer.
Esperança.
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As semanas passam, e Miguel começa a ocupar espaços que antes pertenciam apenas ao silĂȘncio. NĂŁo de forma invasiva, mas constante. Ele aparece nas pequenas coisas. No celular vibrando no meio da aula. No sorriso involuntĂĄrio que escapa quando reconheço o nome dele na tela. No jeito como penso duas vezes antes de apagar a luz Ă noite.
Ăs vezes, recebo cartas. O envelope simples, a letra firme, quase austera. Abro devagar, sentada na beira da cama, como se estivesse lidando com algo frĂĄgil. Miguel escreve pouco, mas escreve com verdade. NĂŁo fala do que faz, nem onde estĂĄ. Fala do que observa. Do cĂ©u, do cansaço, da falta que o silĂȘncio faz quando nĂŁo Ă© escolhido.
Leio cada palavra com atenção excessiva. Guardo as cartas na gaveta do criado-mudo, alinhadas como se fizessem parte da rotina. Talvez façam.
Em uma noite mais fria, ele liga. Estou deitada, olhando o teto, quando a voz dele atravessa a linha.
â VocĂȘ estĂĄ acordada?
â Sempre â respondo, sem pensar.
Conversamos baixo, como se houvesse alguĂ©m dormindo entre nĂłs. Conto sobre um aluno difĂcil, sobre a saudade que vem sem aviso, sobre o medo de esquecer o som da risada do meu irmĂŁo.
â VocĂȘ nĂŁo vai esquecer. â Miguel diz. â Algumas pessoas ficam para sempre em nosso coração. â disse com uma dor oculta, que desejei perguntar.
Fecho os olhos. Seguro o celular contra o peito. Sinto algo quente se espalhar devagar, perigoso demais para ser ignorado.
Nunca vi Miguel. Nunca toquei. Ainda assim, começo a reconhecĂȘ-lo na forma como meu corpo relaxa quando ele fala. Como o mundo parece menos pesado quando sei que ele estĂĄ ali.
E, em meio a tudo isso, percebo tarde demais:
nĂŁo Ă© mais sĂł gratidĂŁo.
Ă vontade.
Ă espera.
Ă amor se formando em silĂȘncio.
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