đ„ CLARA đ„
A primeira vez que Miguel passa uma quinzena sem dar notĂcias, eu tento nĂŁo dar importĂąncia. Digo a mim mesma que ele estĂĄ ocupado, que o trabalho dele exige silĂȘncio, ausĂȘncia, paciĂȘncia. Repito isso como um mantra enquanto preparo o jantar para uma pessoa sĂł e deixo a televisĂŁo ligada sem realmente assistir.
Durante os dias começo a notar o relógio com mais atenção. O telefone parece pesado demais na minha mão. Não hå mensagens. Nenhuma ligação. Apenas o vazio insistente de quem aprendeu a esperar.
No trabalho, erro explicaçÔes simples. Meus alunos percebem. Perguntam se estou bem. Respondo que sim, sorrindo, como sempre faço quando não estou. No intervalo, vou ao banheiro e encosto a testa no espelho frio, respirando fundo. Odeio depender assim. Odeio sentir medo por alguém que nunca vi.
Quando finalmente o telefone toca, estou sentada no sofå, abraçando uma almofada. Atendo råpido demais.
â Clara.
A voz de Miguel soa diferente. Mais contida. Como se estivesse segurando algo.
â Eu vou demorar mais do que pensei â ele diz. â Algumas coisas mudaram.
Me levanto, começo a andar pela sala sem rumo. Tenho medo de perder Miguel, como perdi Carlos. Sei que ele não me dirå de exato que estå mudando na guerra, mas, algo mudou.
â Quanto tempo? â pergunto, tentando manter a voz firme.
HĂĄ um silĂȘncio breve.
â Seis meses. Talvez mais.
Paro no meio do caminho. O ar parece escapar dos meus pulmÔes.
â Eu entendo â respondo, mesmo que nĂŁo entenda nada. â VocĂȘ tem obrigaçÔes.
Do outro lado, ele solta um suspiro baixo, pesado. Miguel jå cumpriu seu tempo obrigatório. Duas vezes pra ser exata. Um como médico de base, e outro como soldado de campo.
â Me desculpe por isso. â disse culpado, e isso me deixa pior.
Depois que a ligação termina, me sento no chĂŁo da sala. Abraço os joelhos e deixo as lĂĄgrimas caĂrem sem resistĂȘncia. NĂŁo Ă© raiva. NĂŁo Ă© decepção.
à o medo simples e cru de perder alguém que ainda nem chegou.
E, ainda assim, escolho esperar.
Porque algumas ausĂȘncias jĂĄ aprenderam a morar em mim.
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Os meses seguintes se arrastam como dias longos demais. Miguel continua presente, mas de um jeito diferente. As mensagens chegam mais espaçadas. As ligaçÔes, mais curtas. NĂŁo hĂĄ frieza â hĂĄ cuidado excessivo, como se ele escolhesse cada palavra para nĂŁo tocar em algo sensĂvel demais.
Digo a mim mesma que é o serviço. Sempre é o serviço.
Conto tudo Ă minha melhor amiga, sentadas no banco do pĂĄtio da escola, dividindo um cafĂ© morno entre uma aula e outra. Ela me observa em silĂȘncio, do jeito que fazia quando meu irmĂŁo ainda estava vivo.
â VocĂȘ estĂĄ com medo â ela diz.
â Estou cansada â respondo. â De esperar algo que nĂŁo posso controlar.
Erica me dĂĄ um sorriso calmo, e me abraça pelos ombros. Ela tambĂ©m sofreu o luto por Carlos, porque eram amigos desde sempre e acho que existia uma paixĂŁo entre os dois que nĂŁo levaram em conta. Agora ela tambĂ©m sofre, e por isso nĂŁo me apoiei nela, porque seria egoĂsmo com sua prĂłpria dor.
Ă noite, arrumo a casa sem necessidade. Abro a gaveta do criado-mudo, releio cartas antigas, passo os dedos pela letra de Miguel como se pudesse encontrar respostas ali. Pergunto quando ele vem. Ele responde que em breve. Sempre em breve.
Começo a ir Ă praça nos dias de chegada dos militares. NĂŁo anuncio a ninguĂ©m. Ă um ritual silencioso. Sento no banco de sempre, observo famĂlias se abraçando, crianças correndo, choros que misturam alĂvio e saudade. Meu coração aperta todas as vezes.
NĂŁo espero sĂł por Miguel. Espero por Carlos. Por algo que sei que nĂŁo vai acontecer, mas que meu corpo insiste em desejar. Meu irmĂŁo era aquele tipo de pessoa que qualquer um gostaria de ter por perto. Leal e animado, sempre querendo ver as pessoas ao seu redor feliz. Carlos era mecĂąnico, e quando foi chamado para servir, foi de bom grado, porque queria que eu fosse protegida.
Em um desses dias, as lĂĄgrimas vĂȘm sem aviso. Escorrem quentes, teimosas. Levo a mĂŁo ao rosto, respirando fundo, tentando me recompor.
Sinto falta do sorriso do meu irmĂŁo.
Sinto falta da voz de Miguel.
Sinto falta de algo que ainda nĂŁo vivi.
E não percebo que, enquanto choro, alguém me observa do outro lado da praça.
Alguém que sabe exatamente quem eu sou.
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