🥀 CLARA 🥀
O barulho das conversas se mistura ao som metálico dos portões se abrindo. FamĂlias se apertam, mĂŁos se procuram, nomes sĂŁo chamados com urgĂŞncia. Eu fico sentada no banco de sempre, um pouco afastada, observando como quem assiste a um filme que já sabe o final.
Meu coração insiste em esperar.
Mesmo quando a razão pede que eu vá embora.
Seguro a alça da bolsa com força, tentando conter o choro. Penso no sorriso do meu irmão atravessando o portão, nos braços abertos, no jeito como ele sempre me chamava pelo apelido de infância. Piscar não ajuda. As lágrimas caem mesmo assim.
Eu queria apenas tĂŞ-lo visto mais uma vez, mesmo que nĂŁo fosse o suficiente. Queria dizer apenas mais uma vez o quanto eu o amava e ele era importante para mim. Meu irmĂŁo quem me criou desde os doze anos, e foi irmĂŁo, mĂŁe e pai. Como esquecer que ele nĂŁo voltará mais para mim? Meu luto parece que nunca passa, porque tenho amigos, mas, o espaço que Carlos ocupava Ă© impossĂvel de ser preenchido e Ă© quase impossĂvel viver com o vazio.
Um soluço sofrido escapa pela minha garganta.
É quando sinto um peso leve no ombro.
O toque é firme, cuidadoso. Não assusto. Apenas viro o rosto, surpresa. Um homem está sentado ao meu lado. Alto. Postura reta, apesar da bengala apoiada próxima à perna. O movimento dele é contido, preciso. Há algo sereno no jeito como ocupa o espaço e me olha como se me conhece.
— Fique bem. — ele diz, com um pequeno sorriso. — Um momento a dor vai passar, e ficará apenas a cicatriz. Vai vê-la, sentir, mas, não doera como antes.
A voz é grave, tranquila. Não reconheço. Ainda assim, algo em mim reage. Observo o rosto dele por um segundo a mais do que seria educado. Ele é bonito de um jeito discreto, marcado, como quem já viu demais.
— Obrigada — respondo, limpando o rosto com as costas da mão, tentando conter o choro que insiste em rolar por minhas bochechas.
Ele assente, como se entendesse tudo sem que eu precise explicar. Ficamos em silĂŞncio por alguns instantes, olhando para a movimentação Ă frente. Depois, ele se levanta devagar, pega a bengala e se afasta sem dizer o nome, sem pedir nada. Apenas caminha em direção a saĂda.
Meu peito aperta de forma estranha. Familiar.
Respiro fundo, tentando afastar a sensação absurda de que já conhecia aquele homem de algum lugar, que não sei nomear.
Digo a mim mesma que é só emoção.
SĂł saudade.
SĂł mais um dia difĂcil.
Mesmo assim, envio uma mensagem para Miguel perguntando como ele está.
Bastante ocupado. Entro em contato assim que poder.
Respondeu rápido, mas, apenas me fez se sentir estranha. Como se algo não estivesse certo. Ele deve está a quase um oceano de distância minha, e me sinto i****a por pensar demais em algo que não teria chances de acontecer. Não agora.
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Nos dias seguintes, a imagem do homem da praça insiste em voltar. Não o rosto em si, mas a sensação. O toque breve no ombro. O silêncio confortável. Tento convencer a mim mesma de que foi apenas um gesto de gentileza em um momento frágil. Ainda assim, algo não se encaixa.
Volto à rotina. Escola, casa, mensagens curtas de Miguel. Tudo parece no lugar, mas eu não estou. Em algumas noites, ao fechar as cortinas do quarto, sinto um arrepio percorrer a espinha, como se alguém estivesse ali fora, atento demais. Abro a janela. Não há nada além da rua tranquila e das luzes dos postes.
Comento com Miguel em uma ligação curta, tentando soar casual.
— Às vezes tenho a impressão de que alguém me observa.
Ele fica em silĂŞncio por um segundo a mais do que o normal. Suspiro resignada, porque as vezes acho que estou ficando paranĂłica.
— Você se sente ameaçada? — pergunta, a voz firme, protetora.
— Não! Só estranhamente consciente de alguma presença. — respondo rápido. — me desculpe, Miguel. Não sei explicar exatamente.
— Tranque bem a casa — diz. — E me avise se algo mudar. Vou pedir a um conhecido que dê uma olhada nisso.
O cuidado dele me acalma. Mesmo assim, a sensação persiste. Eu não gosto da ideia de incomodar ele com assuntos do tipo, enquanto ele está resolvendo questões muito mais importantes, mas, apenas me sinto segura para falar com ele.
Em uma manhã cedo, enquanto arrumo o quarto, percebo o movimento do outro lado da rua. Um homem se exercita na área comum, concentrado. Os músculos se contraindo sob a camiseta justa. Reconheço a postura antes mesmo do rosto. É ele. O homem da praça. Agora percebo que o uso da sua moleta, é devido ao uso de uma prótese na perna esquerda, que vai desde a coxa.
Fico parada à janela tempo demais. O sol destaca cada linha do corpo dele, a força contida, o foco absoluto. Sinto o rosto esquentar. Desvio o olhar, incomodada comigo mesma.
Como posso reparar em outro homem assim?
A culpa vem rápida. Penso em Miguel. Na voz. Nas palavras. No espaço que ele ocupa em mim sem nunca ter estado aqui.
Digo a mim mesma que Ă© sĂł curiosidade. Que Ă© falta de referĂŞncia. Que nunca vi Miguel e minha mente preenche vazios.
Fecho a cortina com mais força do que o necessário.
Mesmo assim, meu coração continua acelerado.
E, pela primeira vez, tenho medo, não do que observo — mas do que sinto.
Será que estou perdendo o interesse em Miguel?!
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