🥀 CLARA 🥀
Miguel liga naquela noite. Reconheço o horário antes mesmo do toque, como se meu corpo tivesse aprendido a esperar por ele. Atendo rápido demais, porque estou ansiosa para ouvir sua voz, e sentir aquela sensação de aceleramento, para evitar pensar na imagem do homem que mora ao lado.
— Oi — digo, tentando soar normal.
A voz dele vem cansada, carregada de algo que não sei nomear. Conversamos sobre banalidades, sobre o dia, sobre nada. Ainda assim, sinto uma distância invisível entre nós, como se as palavras percorressem um caminho mais longo do que antes. Tenho medo de está perdendo o que jurei sentir, ou ele está perdendo o que jurei que ele sentia.
— Em breve estarei aí. — ele diz, com firmeza ensaiada.
Já ouvi essa frase outras vezes. Mesmo assim, meu peito aperta.
— Em breve quando? — pergunto, antes que consiga me conter.
Há uma pausa. Curta, mas suficiente para me deixar alerta. Ele já serviu mais tempo que o necessário, e não entendo o motivo disso. Já impedi ele de me mandar qualquer dinheiro, porque fiquei com receio que fosse esse o motivo de sua permanência, mas, sei que é algo além disso.
— Logo — responde. — Promessa.
Promessa. A palavra pesa. Penso em quantas promessas cabem dentro da ausência de alguém que nunca vi. Em quantas imagens inventei para preencher o espaço de Miguel na minha vida. Definitivamente, me sinto uma i****a por me deixar ficar assim.
Depois que desligamos, fico sentada na cama, encarando o celular apagado. Sinto saudade de alguém que só conheço pela voz. Isso deveria ser suficiente. Sempre foi.
No dia seguinte, ao sair de casa, o vejo novamente. O homem da praça está encostado em sua bengala, ajustando algo na prótese com movimentos práticos, seguros. Ele ergue o olhar por um segundo e nossos olhos se encontram.
Não há surpresa no rosto dele. Apenas reconhecimento.
Desvio rápido, o coração disparado. Caminho apressada, sentindo o peso da culpa se instalar de novo. Não fiz nada. Ainda assim, parece traição.
À noite, escrevo para Miguel, mas apago a mensagem antes de enviar. Não sei explicar o que sinto. Talvez eu mesma ainda não saiba.
Só sei que algo está mudando.
E mudanças nunca pedem permissão.
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Cruzo com ele de novo no fim da tarde. Não é planejado, nunca é. Estou voltando da padaria quando o vejo parado em frente à casa ao lado da minha, a bengala apoiada no antebraço enquanto ele tenta alcançar a chave no bolso.
Penso em seguir direto. Digo a mim mesma que não é da minha conta. Mas meus pés desacatam qualquer ordem sensata.
— Precisa de ajuda? — a pergunta escapa antes que eu possa engoli-la.
Ele se vira devagar, como se já soubesse que eu estava ali. Os olhos claros me analisam com cuidado, não de cima a baixo, mas como quem tenta entender um enigma.
— Acho que sim. — responde, com um meio sorriso. — Essa porta parece ter algo contra mim hoje. Quase não consigo pegar a chave, e quando tenho, ela emperra e não quer abrir.
Seguro a porta enquanto ele abre. Nossos braços se tocam por um segundo, e o choque é real, físico, nada parecido com as sensações etéreas que associo a Miguel. Meu corpo reage antes da mente, um arrepio rápido, indesejado, mas, que me deixa se sentindo viva.
— Obrigada — ele diz, depois de entrar. — Sou Miguel.
O nome ecoa dentro de mim como um erro de digitação no destino. Minha garganta parece fechar, porque, o nome deveria ser qualquer outro, menos esse. Sei que é um nome comum, porém, não gostei disso.
— Clara — respondo, a voz mais baixa do que o normal, porque ainda estou reunindo forças para reagir.
Ele parece perceber algo no meu rosto, porque franze levemente a testa.
— Está tudo bem?
Assinto rápido demais.
— Somente cansaço.
Mentira. Mas ele não insiste. Há algo respeitoso no jeito como ele recua um passo, apoiando melhor a bengala, como se conhecesse os limites invisíveis das pessoas.
— Se precisar de qualquer coisa, — ele começa.
— Eu sei. — interrompo, sem saber por quê. — Obrigada.
Volto para casa com o coração descompassado. Fecho a porta e encosto a testa na madeira, respirando fundo. O nome ainda pulsa nos meus ouvidos.
Miguel.
Porque ele tem esse nome?! Já odeio fato de que vê-lo diariamente por minha janela, já me deixa estranhamente interessada, então, ele tem o mesmo nome do homem que tem meu coração. Parece que o destino gosta de brincar comigo, porque agora, quando penso em Miguel, é a imagem do meu vizinho que aparece na minha mente.
À noite, meu celular vibra.
Miguel: “Senti você distante hoje.”
Fecho os olhos.
Talvez eu esteja mesmo.
E talvez o problema seja exatamente esse.
Hoje, passei a tarde toda conversando com a Érica e o Henrique. Os dois são irmãos e também professores. Henrique chegou de viagem agora, e, consegui me manter ao menos interessada em algo que não fosse “os Miguéis”, porque já estou me sentindo estupefata com tudo isso.
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