🪻 MIGUEL🪻
Eu a vejo, antes que ela me veja.
Clara está sentada no banco da praça, o mesmo de sempre, com um livro apoiado nas pernas grossas e o cabelo preso de qualquer jeito, como se tivesse saído de casa sem perceber o quanto é bonita quando não tenta ser. O vento brinca com algumas mechas soltas, e por um segundo, esqueço de respirar.
Poderia ir embora. Deveria.
Mas meus pés me levam até ali, mesmo quando minha mente grita que isso é uma péssima ideia.
— Posso? — pergunto, apontando para o banco.
Ela ergue os olhos, surpresa contida, e assente.
Sento com cuidado, ajustando a prótese antes que ela perceba. Não sei se faz diferença. Sempre acho que faz.
— Você some às vezes. — ela diz, sem me olhar diretamente.
— Costume. — respondo. — As vezes, não parece ser o suficiente.
Estou ocupado demais resolvendo questões de negócios, e também sobre meu retorno como médico. Não ocupado o suficiente para me manter longe dela. Sem observar seus movimentos.
— Entendo. — Disse fechando o livro e me olhando com atenção. — Miguel. Você não percebe nada estranho da sua casa?! — ela olha para a frente, parecendo através das árvores e de tudo.
— Na verdade, não. É um lugar bem tranquilo. — declaro com sinceridade, mesmo sabendo o motivo do seu receio.
— Eu sinto como se estivesse sendo observada. — confessa. — Meu amigo, — ela parou um instante ao dizer. — Disse que não descobriu nada. Coloquei câmeras de vigilância no apartamento, mas, mesmo assim, não encontrei nada de errado, mas, ainda continuo com a sensação. — confessou e paro observando ela, querendo repreender essa mulher por ela está contando detalhes da sua vida para um estranho e por outro lado quero me desculpar, porque a sensação de está sendo vigiada é exatamente porque tem um pouco vigiando cada movimento dela.
Eu.
Meu estômago se contrai. Engulo qualquer palavra que possa me trair, querendo encontrar uma forma de amenizar seu desconforto, porque não pretendo parar com minha vigilância. Quero entender ela. Saber se estar faltando uma parte de mim, influência no que ela poderia sentir.
— Talvez apenas esteja se sentindo solitária. — Digo sem saber exatamente o que dizer sobre. — Esperando alguém aparecer.
Ela finalmente me encara. Seus olhos procuram algo no meu rosto, como se estivessem à beira de uma lembrança que não consegue alcançar. Eu encaro de volta, sem conseguir parar de olhar para seu lábio gordo e rosado, enquanto me avalia como se eu precisasse de um diagnóstico.
— Você me lembra alguém. — murmura.
O mundo inclina perigosamente.
— Lembranças enganam. — respondo, firme demais. — Às vezes criamos rostos para sentimentos.
Ela sorri, triste. E penso que fui impulsivo demais, por deduzir seus sentimentos no momento, e talvez chamar sua atenção para minha real indentidade.
— É talvez.
Ficamos em silêncio. Um silêncio pesado, confortável e c***l ao mesmo tempo. Quero contar tudo. Quero correr. Quero segurá-la.
Mas continuo ali, imóvel, guardando um segredo que pesa mais que qualquer ferimento de guerra.
Porque se eu falar agora, posso perdê-la.
E se eu esperar demais, talvez já a tenha perdido.
O assunto surge sem aviso, como quase tudo que realmente importa.
Estamos caminhando lado a lado, devagar, acompanhando o desenho torto da calçada. O som distante da cidade preenche os espaços que nenhum de nós parece disposto a ocupar com palavras inúteis.
— Clara. — digo, casual demais para quem está com o coração em alerta. — Você tem namorado?
Ela para.
O gesto é pequeno, mas definitivo. Seus dedos apertam a alça da bolsa, e por um segundo penso que fui longe demais. Então ela respira fundo. Aquele momento que ela falou de mim como seu amigo, ainda está viva demais em mim, e não sei disfarçar o suficiente.
— Tenho alguém — respondeu, olhando além de mim.
Meu peito aperta de um jeito quase físico. Vi ela muito próximo a um tal de Henrique, que é irmão da sua amiga. Não gostei, mas, continuei a distância, mesmo quando ele tocou o braço dela sobre a mesa, e até pegou em sua mão. Eu segurei toda a raiva e o ciúmes em mim, mas, não sei até quando consigo manter tudo o que sinto sobre controle.
— Alguém daqui? — pergunto, fingindo indiferença.
Ela balança a cabeça, negando.
— Não exatamente. Ele é militar.
Engulo em seco.
— Militar. — repito, como se testasse o gosto da palavra.
— Sim. — Ela sorri, tímida. — Engraçado, né? Ele tem o mesmo nome que você. Miguel.
O mundo fica silencioso demais. Eu sou o alguém dela.
— Coincidência. — consigo dizer, mesmo que algo dentro e mim esteja estremecendo demais no momento.
— É. — ela concorda, mas o sorriso desaparece rápido. — A gente conversa há um tempo. Ele esteve comigo quando eu mais preciseix, mas nunca nos vimos.
Caminhamos mais alguns passos. Espero que ela diga algo a mais, porque preciso saber o que ela sente por mim.
— E você gosta dele? — pergunto, a voz baixa.
Ela hesita. Esse silêncio dói mais do que qualquer resposta. Minha perna dói, e parece que a prótese pesa, chamando minha atenção para a realidade.
— Eu acho que sim. — Seus olhos buscam o chão. — Só, nunca disse. Não sei se é o momento. Ele anda distante.
Ali está. A verdade que eu temia e provoquei. Odeio mentir para ela. Odeio fingir que estou longe, quando na verdade estou morando do lado da sua casa, e ainda, vigiando ela como um louco.
— Distante como? — insisto.
— As mensagens são mais curtas. Os silêncios maiores. — Ela suspira. — Tenho medo de estar sozinha nisso.
Eu paro. Ela também.
— Às vezes, — digo, com cuidado. — as pessoas se afastam porque estão lutando batalhas que não sabem como explicar.
Clara me encara, intensa.
— E se for só falta de sentimento?
Meu coração grita, mas minha boca mente.
— Então ele é um i****a. — respondo. — Porque alguém que te perde, perde muito.
Ela sorri, emocionada.
E eu sigo ali, fingindo ser apenas o vizinho silencioso, enquanto sou exatamente o homem que está partindo o próprio coração em dois.
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