🍂CAPÍTULO 7🍂

1549 Words
🥀 CLARA 🥀 Miguel tem um jeito estranho de ocupar espaço. Não é barulhento, nem expansivo, mas quando ele está por perto, tudo parece mais atento. O ar, os sons, até meus próprios pensamentos. Caminhamos juntos até em casa, e eu percebo o quanto passo tempo observando detalhes que não deveria — o movimento contido dos ombros, o jeito firme com que segura a bengala, o olhar sempre alerta, como se estivesse sempre procurando algo. Isso me incomoda. Me incomoda porque eu amo outra pessoa. Ou acho que amo. Fomos juntos até a porta da minha casa, e ele ficou esperando que eu entrasse. Eu olho uma última vez para ele, antes de entrar. É claro que ele tem interesse em mim. Não diz, mas, a forma que ele me olha e fala comigo, eu tenho certeza disso. Eu mando uma mensagem para o meu Miguel, perguntando como ele está, e ele responde de imediato. Está organizando sua vinda? Quero saber, e ele responde em positivo. Ocupado demais, ou apenas frio?! Talvez, o que ele sentia era apenas proteção pela promessa que fez ao meu irmão. Talvez, eu já tenha me tornado um fardo. Tomo um banho, e, as lágrimas vieram fortes. As coisas estão mudando mais uma vez, e talvez eu esteja perdendo alguém que se tornou importante para mim. Não quero que isso aconteça. — Ei amiga. — Erica me olha com cuidado, antes de passar a mão no meu rosto avermelhado. — Porque está assim? — Eu sinto que Miguel está mudado. Nesses últimos meses. Desde quando ele passou vários dias sem dar notícias, ele mudou. — Confesso, sentindo uma angústia assustadora no meu peito. — Mudou?! — Me olha com preocupação, de quem já conhece meus sentimentos. — está parecendo cada vez mais distante. — admito o que não estava aceitando. — antes, eu sentia que ele gostava de mim como além de protetor. Agora, eu sinto que suas mensagens são apenas para manter o contato. É como se ele quisesse fugir das minhas perguntas. — tem certeza disso?! — assinto. — Talvez ele apenas esteve mais ocupado. Lembra que Carlos também as vezes ficava assim, meio distante?! — É diferente. — Declaro, baixando meu olhar, porque sinto doer. — Carlos dava um jeito de explicar. Miguel apenas foge das perguntas. — Puxa vida. — Erica me abraça, e agradeço por ela ter vindo me fazer companhia. — Eu realmente não sei o que dizer. Olha, vocês nunca firmaram nada sério, talvez, você deva olhar além desse sentimento. Ainda teve contato com o gostosão do seu vizinho?! — ele também se chama Miguel. — Choro mais, indignada por isso, e ela me olha de boca aberta. — militar, e ainda tem o mesmo nome que aquele outro. Que injustiça, cara. — E o Miguel um, já disse quando vem?! — pergunta e eu assinto. — ótimo, quando vocês se verem pessoalmente, tudo será colocado em pratos limpos. Talvez o que sinta por ele seja só irmandade, e então, você pode investir no gostosão ao lado, ou no meu irmão. — Não seja boba. — acabei rindo, porque estou achando que minha amiga está querendo me casar de qualquer maneira. — Eu tenho Henrique como um bom amigo. — ele bem que queria ser mais que isso. — brincou e eu apenas sorri. — Quero que você tenha alguém, que te ame mais que tudo. Não posso sempre está com você, e, odeio que fique sozinha. O irmão da Érica é apenas um bom amigo. Se quando meu irmão faleceu, ele não estivesse fora do país, provavelmente seria ele que estaria me apoiando. Érica está se mantendo firme, mas, eu sei que ela sente falta do meu irmão. Eles eram grudados desde sempre. No dia seguinte, acordo cedo. Abro a janela e o vejo no quintal, fazendo exercícios com disciplina quase c***l. O corpo forte se move com esforço controlado, e eu desvio o olhar tarde demais, sentindo o calor subir pelo rosto. Eu olho para o peito suado, e sua expressão de cansaço enquanto move os braços. Minha boca saliva com a cena, e quero me bater por isso. Se ao menos ele não fosse tão bonito. — choramingo correndo para o banho, me sentindo horrível por está desejando o vizinho, quando juro ter sentimentos por outro homem. Desço para pegar o correio, e ele está ali, como se soubesse. Quero bater nele por está sempre aparecendo, e não me deixa parar de pensar sobre ele. Quem sai pra rua usando apenas um short?! O corpo forte, unido a perna mecânica, parece deixá-lo ainda mais intimidante. Atrativo. Parece alguém que seria duro. — Bom dia — diz, e eu engulo a saliva, sentindo que ele percebeu que eu encarei ele mais que o necessário. — Bom — respondo, rápido demais. Ele sorri de lado. — Tudo bem?! — Sorriu se aproximando na divisa do meu quintal com o dele. — parece nervosa. — Eu? — Sim. — sorriu prepotente, me olhando de um jeito que me fez arrepiar. — Está escondendo algo? Viu algo que não devia, Clarinha?! — hum?! — Questiono tentando manter meu olhar apenas nos olhos dele, enquanto está claramente me provocando. Ele olha bem para mim, e sua expressão descontraída some e é substituída por preocupação. — Porque chorou?! — eu não chorei. — Falo apressada. — está com os olhos inchados e vermelhos. Como não chorou?! — me olha como se fosse pular a divisória e me abraçar. — Tive um dia r**m. Apenas isso. — dou a desculpa, querendo sair da situação. — foi seu alguém, que te magoou?! — ele quis saber, e suspiro passando as mãos nos rosto. — Não. — neguei de imediato, talvez rápido demais. — me convida pra tomar café. — diz e eu encaro ele incrédula. — não. — vou tomar café na sua casa. — disse apenas, antes de dar a volta e entrar no meu quintal. Que folgado! Olho incrédula para ele, enquanto ele me leva em direção a minha própria porta. 🪻 MIGUEL🪻 Estar perto dela está se tornando um risco que não sei mais calcular. Clara se move pela cozinha com naturalidade, como se minha presença não fosse um terremoto silencioso e desconhecido. O cheiro de café recém-passado se mistura ao perfume suave que ela sempre usa — algo leve, mas impossível de ignorar. — Quer açúcar? — ela pergunta, sem me olhar. — Não — respondo. — Gosto amargo. Ela ri baixo. O som me atravessa. Encosto no balcão, apoiando a bengala com cuidado. Ela percebe. Sempre percebe quando eu estou olhando. Clara é muito bonita, os cabelos loiros tem ondas e vai até a cintura. O corpo dela é algo que até evito olhar, ou vou viver na água gelada. — Dói? — pergunta, finalmente me encarando, e olhando para minha perna. Eu encaro sua expressão, tentando entender o que ela sente ao ver minha condição. Confesso que tento ignorar ao máximo essa perna mecânica, ou vou enlouquecer. Clara não parece sentir nada de repulsa sobre isso, porém, ela não sabe que eu sou o seu Miguel. Talvez, sua opinião mude quando ela souber que o homem que jurou cuidar e proteger ela, agora está assim. Mancando e incompleto. — Às vezes. Ela se aproxima, impulsivamente. A mão paira no ar, indecisa, antes de tocar meu antebraço, e da um sorriso calmo. — Desculpa — diz. — Não quis ser invasiva. — Não foi. O toque dela é simples, mas meu corpo reage como se estivesse em guerra outra vez. Tensão, alerta, vontade. A forma que ela me olha, me faz querer apertar ela contra o balcão e beijar seus lábios gordinhos, que devem ser macios e saborosos. — Clara. — digo, a voz mais baixa do que deveria. Ela hesita, me encarando. A sua língua rosada saindo para umedecer os lábios e me deixar com água na boca querendo provar. Eu deveria apenas cuidar dela, e não me apaixonar. Não querer ela mais que tudo, como eu quero. — sim?! — Ela pergunta suave, seu olhar também olha para minha boca e suas mãos estão paradas no ar, como se quisesse vir para meu peito. — Você não deveria me olhar assim. — Eu aviso, e ela engole em seco, dando um passo atrás e encolhendo as mãos junto ao corpo. — Você tem razão. — Bateu as mãos nas bochechas, e balançou o rosto como se estivesse tendo um choque de realidade. — me desculpe, Miguel. — desculpas?! — incentivo, porque agora quero apenas sentir ela e acabei de distanciar. — eu já amo alguém, e não é justo com nenhum de nós três. — Declarou me olhando nos olhos, e engulo a sensação estranha de traição que está em mim. — Esse alguém vale tanto assim? — quero saber, e ela me olha antes de assentir. — Vamos parar nossa amizade por aqui. Ele está voltando, e vou dizer tudo o que sinto e quero com ele. — avisou, e assinto me afastando. Eu deveria aproveitar a oportunidade e dizer logo quem sou. Mas, eu não consigo dizer. Apenas saio como se estivesse levado uma surra, sendo que deveria me orgulhar por ela não me trair, mesmo ainda sem saber que sou eu. 🍂🍂🍂
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