PRÓLOGO — AMÉLIE PASCOLI
Eu sempre sobre que o vidro era frágil. Mas só descobri a dimensão de quanto ele pode ser perigoso e doloroso, quando o espelho do reflexo da vida que criei – apenas em minha cabeça – se estilhaçou em minhas mãos.
Não consegui evitar os machucados.
Não consegui recolher os cacos.
— Por favor, Amélie, eu sei que está sofrendo e não posso imaginar como deve ser horrível. Mas acha que vale a pena continuar chorando por aquele idio.ta? — Isa tenta me fazer reagir, é o que ela vem tentando fazer a semana inteira. Mas por.ra, eu ainda me sinto como a droga de uma imbe.cil. — Ele nunca mereceu você, nunca viu a mulher que você é.
— Eu ia me casar com ele, Isadora. — Respiro fundo, minhas lágrimas silenciosas molhando o travesseiro.
Isa faz carinho nos meus cabelos, acariciando gentilmente os fios castanhos e pesados. É bom me sentir cuidada um pouco, porque eu tenho muita dificuldade em aceitar isso, especialmente dela e de Alma que já fazem tanto por mim.
Mas dessa vez, eu não tenho forças nem para contestar. Eu me deixo ser cuidada.
— Ainda bem que não se casou. — Revira os olhos, fazendo o sinal do terço em sinal de agradecimento a Deus. Sorrio fraco.
— Eu sei que ele não me merecia, e sei que foi um livramento eu não ter me casado com ele. Mas não muda o fato de que é doloroso demais quando o homem que você ama, o seu namorado desde a adolescência, aquele que você pensou que estaria lá para sempre e seria seu único e verdadeiro amor, seu marido, decide que você não era o bastante. Não estou sofrendo por ele, Isa, estou sofrendo por me sentir tão... descartável e bu.rra. — Revelo.
Minhas lágrimas não são necessariamente pelo Xavier, são porque finalmente a venda dos meus olhos caiu. Eu estava cega, namorando um homem que nunca se lembrava da data do meu aniversário, nunca me levava para uma noite romântica, não me dava flores, não me apoiava nos meus estudos, não sabe nem mesmo a minha cor favorita.
Xavier, apesar de estar comigo desde os quatorze anos, não sabe nada sobre mim. Ele não sabe quem eu sou e nunca se esforçou para descobrir.
E apenas agora eu vejo isso.
Dizem que o amor é cego mesmo, e pode ser. Eu estava. Mas foi a traição que me obrigou a abrir os olhos para um mundo onde amor e lealdade são superestimados.
— Você é a pessoa mais forte que conhece e sabe disso. Eu te vi lutar tanto... — Respira fundo e eu sei exatamente sobre o que ela está falando.
E Isa tem razão. Para alguém que perdeu os pais quando tinha sete anos, perder um id.iota que nunca soube ser homem de verdade não é nada. É muito bom ter alguém como ela, que além de ter me acolhido junto com a família quando éramos crianças, está sempre aqui para me lembrar quem eu sou.
— Você tem razão, eu vou superar. — Respiro fundo novamente e levanto o tronco, pegando o copo com água em cima da escrivaninha. Bebo um pouco. — Me conte como ele estava hoje quando veio aqui.
— Aquele idi.ota deveria ter vergonha e te deixar em paz, e não ficar vindo aqui todos os dias chamando a atenção. — Ela poderia mata-lo se pudesse. — Ele segue implorando para falar com você, te ver, pede para deixarmos ele entrar para te explicar. Seja lá o que ele acha que explicaria o pa.u dele na bu.ceta daquela va.dia.
— Isadora! — Repreendo, mas caímos na gargalhada logo em seguida. Novamente, ela tem razão, me trair com aquela mulher... Achei que ele tinha um gosto melhor. — E o que disse a ele?
— Eu disse que você não estava em casa.
— Ah, e onde mais eu estaria? — Não tinha uma mentira melhor? Por Deus... — Xavier pode não ser o namorado mais atento do mundo, mas qualquer um nesse bairro sabe que eu só saio de casa para a faculdade ou para a padaria.
— As coisas mudaram e você saiu. — Dá de ombros. — Você é uma nova mulher agora.
— Eu sou? — Sorrio.
— Claro. Você é uma mulher lindíssima, todos os homens desse bairro morriam para ter uma chance com você, e agora está solteira.
— Eu não quero ninguém desse bairro. — São todos tão... sem graça.
Eu posso não ser a mulher mais extrovertida do mundo, mas não quero ficar aqui presa a esses homens que parecem do século passado. Agora que eu tenho a chance de focar em mim, nos meus estudos, sem ninguém para me dizer como eu deveria me comportar para ser uma boa mulher, eu pretendo aproveitar.
— Vamos para outro lugar então. — Sugere.
— O que quer dizer? — Franzo o cenho.
— É sexta feira, Amélie. — Isso deveria me dizer alguma coisa? — Todo mundo está saindo do trabalho a essa hora, ou terminando as aulas. É hora de aproveitar a vida, a juventude, nós temos dezenove anos. Você perdeu cinco anos da sua melhor fase com aquele pedaço de mer.da, venha ver como as pessoas solteiras e bonitas se divertem de vez em quando.
— Eu não sei, Isa... — Admito que estou pensativa.
Mas os cinco anos eu vivi tentando ser uma boa namorada para o Xavier. Sem festas, estando cedo em casa, aprendendo afazeres domésticos para cuidar da casa e futuramente dos filhos. Eu não sei como viver de verdade, não fui condicionada a isso.
Agora, eu sinto algo dentro de mim pedindo para mudar isso, algo pedindo para focar em mim.
Mas ainda assim, a forma que moldaram meu cérebro me deixa retraída.
— Você ao menos já teve um orga.smo na sua vida? — Sua pergunta me faz corar na hora.
Certo que somos praticamente irmãs, não temos segredos, falamos sobre absolutamente tudo. Mas ser tão clara assim sobre minha vida sex.ual não é algo que estou acostumada. E além disso, é um pouco vergonhoso admitir algumas coisas.
Fico em silêncio, sem saber nem para onde olhar.
— Eu... — Não sei como completar a frase em voz alta.
— Amélie... — Isa parece em choque, como se eu tivesse acabado de lhe confessar que cometi um crime. — Você nunca goz.ou?
— O que? Eu só tenho dezenove anos, ainda tenho muitos orga.smos para ter.
— Você namora há cinco anos, perdeu sua virg.indade faz três anos e em três anos aquele broc.ha nunca te deu um orga.smo? — A expressão de choque não some do rosto dela. Eu n**o com a cabeça, confirmando que é verdade, eu nunca conheci o que é o prazer que tanto falam. — Mais um motivo para sairmos.
— Que motivo, do que está falando? — Fico de pé quando vejo Isadora indo até meu guarda roupa e abrindo as portas. — Isadora, o que está fazendo?
— Você precisa conhecer alguém que possa te dar um org.asmo, Amélie. E outras coisas também, claro. Vamos começar a busca essa noite mesmo.
— Busca por se.xo?
— Não, Amélie, busca pela vida. — Sorri.
•••
Eu não sou uma mulher que quer a vida que queriam me enfiar, a esposa perfeita, que espera o marido chegar do trabalho mofando dentro de casa. Eu estudo para ter uma carreira promissora, e agora, livre de alguém que eu dava tudo de mim apesar das minhas ambições, eu estou decidida a buscar ser quem eu realmente quero ser.
Quero dar vida a verdadeira Amélie Pascoli.
Isadora me ajudou com a minha preparação e a escolha do look. Cansada de ficar na cama chorando, eu aceitei o convite. Essa é para ser uma noite para mim, para aproveitar, dançar, beber, sorrir, esquecer a pessoa puritana que eu fui moldada a ser.
Tomei um bom banho premium, com direito a esfoliação e depil.ação, usei meu melhor óleo de banho com um cheiro de morango delicioso, lavei os cabelos e fui colocar a roupa escolhida.
— Antes da roupa... — Isadora aparece de volta no meu quarto, também enrolada em um roupão e com uma toalha nos cabelos. — Eu comprei semana passada na internet, ainda não tive tempo de usar e quero que fique para você.
Pego o pequeno pacote na mão dela e abro, com o cenho franzido. Tento controlar a vermelhidão em meu rosto quando encontro uma ling.erie que eu só vi em fotos, uma cinta liga completa na cor preta.
Quanto eu digo completa, é completa mesmo, meia 7/8 fina com uma faixa de renda delicada no final. O s.utiã meia taça com um aro para sustentação e transparência sutis, além de tiras finas que contornam o colo. A cal.cinha é fio dental, de um tule bem fino mas com desenhos de renda na parte da frente. A cinta liga é bem fininha, marca bem a cintura, e contém quatro amarrações para serem presas na meia.
— Está mesmo querendo que eu tra.nse essa noite, não é?
— Eu não disse isso. Isso é mais para você se sentir sexy e poderosa do que para outra pessoa. — Sorri. — Lembre-se, Amélie, o foco agora é você. Apenas você. Você pode fazer o que quiser.
—Bom...Se é para um recomeço digno e minha iniciação no mundo da perv.ersão... — Brinco, fazendo-a gargalhar. — Vamos fazer direito.
— É assim que se fala, garota. — Bate palmas empolgada. — Vou terminar de me arrumar também.
Aceno para ela e depois que Isa me dá privacidade, eu coloco a lingerie. Me olho no espelho e é como se eu visse meu corpo pela primeira vez. Eu enxergo realmente a mulher bonita que todos falam. Meus pei.tos são cheios e fartos, o decote meia taça e o aro os deixam ainda mais redondos. A minha cintura está tão fina com a cinta liga desenhando que parece que vai quebrar. Minhas coxas nessas meias me dão um ar sensual que eu achei que não tinha. E minha bu.nda...
Por.ra, eu sempre tive essa b.unda?
Redonda, empinada, e com um tamanho excelente.
Sorrio, alisando meus cabelos.
Visto por cima o vestido vermelho de cetim. Ele é gola alta, sem muitos detalhes além do tecido maravilhoso que modela o corpo. Ele é longo, com uma f***a que vai um pouco abaixo do quadril até o pé, deixando uma coxa e a meia toda a mostra. Coloco saltos finos, o único que tenho que é um scarpin preto básico, e vejo o look tomando forma.
Sequei meus cabelos com secador e modelei as pontas para realçar o corte e o volume, eles não são tão compridos, chegam até um pouco abaixo dos ombros mas eu gosto bastante de mantê-los sempre com corte em dia.
Eu preferi uma maquiagem não muito forte, eu prefiro manter um pouco da minha naturalidade. Isadora me ajudou a fazer os olhos apenas, uma maquiagem que realça meus olhos castanhos com um marrom sombreado e um esfumado em preto. Não coloquei base ou nada mais pesado, penteie as sobrancelhas e terminei com um gloss para acentuar a cor rosada dos meus lábios.
— Mulher, Xavier é realmente muito burro por ter te perdido. — Isa comenta, me encarando em choque. Sorrio.
Isadora também está belíssima em um vestido preto, justo e de ombro a ombro. Os cabelos estão com a frente presa e a maquiagem dela é bem mais trabalhada que a minha, os olhos verdes bem realçados.
— Sinto muito por ele. — Dou de ombros e dou uma voltinha. — E você já sabe onde vamos?
— Tenho o lugar perfeito.