o advogado

1274 Words
Ponto de Vista de Letícia Cheguei ao escritório alguns minutos antes do horário marcado. Era um prédio comercial elegante, mas discreto. Entrei. A recepcionista confirmou meu nome e pediu que eu aguardasse. Sentei-me em uma poltrona e fiquei olhando para a decoração do lugar. Tudo parecia tão organizado. Tão tranquilo. Era estranho estar ali para resolver o desastre da minha própria vida. Poucos minutos depois, um homem apareceu na porta. — Senhora Letícia? Levantei-me. — Sim. — Pode entrar, por favor. Acompanhei-o até uma sala. Ele se apresentou como advogado especializado em direito de família e questões patrimoniais relacionadas a separações. Sentei-me diante da mesa. Ele abriu uma pasta. — Quero que me conte exatamente o que aconteceu. Respirei fundo. Não sabia nem por onde começar. Contei sobre meu casamento. Sobre a traição de Carlos. Sobre o pedido de divórcio. Depois contei sobre o apartamento. Sobre a herança da minha avó. E, por fim, sobre o que Teresa havia dito. O advogado ouviu tudo sem me interromper. Em alguns momentos, fez anotações. — A senhora possui algum documento referente à herança? — Tenho alguns documentos antigos. — E documentos da compra do imóvel? Balancei a cabeça. — Eu procurei em casa, mas não encontrei. — Tudo bem. Ele anotou mais alguma coisa. — A senhora sabe em nome de quem está registrado o imóvel? — Minha sogra diz que está no nome dela. — E seu marido? — Disse que eu não teria direito a nada se me divorciasse. O advogado levantou os olhos. — Ele disse isso? — Sim. — A senhora sabe se existe algum contrato ou acordo pré-nupcial? Pensei por alguns segundos. — Não. — Qual foi o regime de bens do casamento? Meu coração acelerou. — Eu não sei exatamente. Ele fez uma pausa. — Certo. Então vamos precisar verificar isso também. Eu me senti ainda mais perdida. — Eu deveria saber essas coisas? Ele respondeu com calma: — É importante saber, mas muitas pessoas não conhecem todos os detalhes dos documentos que assinam durante o casamento. Principalmente quando confiam no companheiro para cuidar dessas questões. Baixei os olhos. A frase parecia ter sido feita para mim. Eu havia confiado em Carlos. Em tudo. Ele cuidava dos papéis. Dizia que entendia de bancos. De contratos. De imóveis. E eu nunca questionei. O advogado fechou a pasta por um instante. — Vou precisar de seus dados completos e dos documentos que a senhora tiver. Passei todas as informações necessárias. Meu nome. Documentos pessoais. Informações do casamento. Dados que eu tinha sobre a herança. Tudo. Ele também pediu informações sobre Carlos. Passei o que sabia. Depois entreguei os documentos que havia levado. Ele analisou alguns deles rapidamente. — Vou fazer uma verificação completa. — O que exatamente o senhor vai procurar? — Registro do imóvel, informações patrimoniais que possam ser verificadas legalmente, regime de bens, documentação relacionada à aquisição do apartamento e outros elementos relevantes para o processo. Meu coração acelerou. — E depois? — Depois conversaremos sobre o resultado. — E o divórcio? — Se a senhora decidir prosseguir, podemos preparar o pedido depois de reunirmos as informações necessárias. Assenti. Eu queria aquilo. Mais do que qualquer coisa. Queria me divorciar. Queria acabar com aquele casamento. Mas agora havia outra coisa. Eu queria saber onde estava meu dinheiro. Queria saber o que havia acontecido com minha herança. Queria saber por que minha sogra dizia que o apartamento era dela. Queria saber por que Carlos tinha tanta certeza de que eu sairia daquele casamento sem nada. O advogado percebeu minha preocupação. — Não tire conclusões antes de termos os documentos. Olhei para ele. — O senhor acha que pode existir alguma coisa errada? — Estou dizendo apenas que precisamos verificar. Ele manteve a voz tranquila. — Neste momento, a senhora tem versões diferentes apresentadas por pessoas diferentes. O que vai nos dar segurança são os documentos. Assenti. Era exatamente isso que eu precisava ouvir. Documentos. Não opiniões. Não ameaças. Não mentiras. Documentos. Levantei-me. — Então vou esperar. — Assim que eu tiver informações suficientes, entrarei em contato. Apertei sua mão. — Obrigada. Saí do escritório alguns minutos depois. Assim que entrei no carro, fiquei parada. Não liguei o motor. Apenas fiquei olhando para minhas mãos sobre o volante. Eu deveria estar aliviada. Tinha finalmente procurado ajuda. Mas ainda estava desorientada. Minha vida inteira parecia estar sendo desmontada peça por peça. Meu marido havia me traído. Minha sogra me tratava como se eu fosse uma intrusa. Agora eu precisava descobrir se o apartamento que eu considerava meu realmente era meu. Peguei o celular. Havia uma pessoa para quem eu queria contar tudo. Helena. A mulher que havia aparecido na minha vida em um momento em que eu estava completamente destruída. Ela havia me levado para aquele lugar. Tinha visto minha pior noite. E, de alguma maneira, tinha se tornado uma das poucas pessoas com quem eu conseguia conversar. Liguei. Ela atendeu rapidamente. — E aí, você está bem? A voz dela me fez sorrir pela primeira vez naquele dia. — Mais ou menos. — Já se largou do desgraçado? Soltei uma pequena risada. — Pedi o divórcio. — Finalmente! — Mas tem um problema. — Claro que tem. — Minha sogra apareceu em casa. — E? — Disse que o apartamento é dela. Houve um breve silêncio. — Como assim? — Ela disse que o imóvel está no nome dela. — Mas você disse que foi comprado com o dinheiro da sua herança. — Sim. — E o que o advogado falou? — Ainda não sei. — Como assim? Expliquei tudo. Contei que tinha ido ao escritório indicado pela senhora que eu conhecia. Disse que havia passado meus dados, entregue os documentos que tinha e explicado toda a situação. — Então ele vai investigar? — Vai. — E depois? — Vai entrar em contato comigo. Helena ficou alguns segundos em silêncio. — Você está fazendo a coisa certa. Olhei pela janela do carro. — Eu espero. — E agora você está onde? — No shopping. — No shopping? — Resolvi dar uma volta antes de voltar para casa. Não queria voltar imediatamente. Teresa estava lá. E eu não estava preparada para encará-la novamente. — Então aproveita para respirar um pouco — Helena disse. — É o que estou tentando fazer. — Letícia. — Oi? — Se precisar de ajuda, pode me ligar. Sorri. — Obrigada, Helena. — Estou falando sério. — Eu sei. Ela fez uma pausa. — Você não precisa enfrentar tudo sozinha. Fiquei em silêncio. Aquelas palavras me tocaram. Porque, desde que tudo começou, eu realmente estava tentando resolver tudo sozinha. — Obrigada — repeti. — Qualquer coisa, se precisar de ajuda, eu posso te ajudar. Olhei para o movimento do estacionamento. — Acho que consigo me virar. — Tem certeza? — Tenho. Não sabia se era verdade. Mas precisava acreditar que era. — Está bem — ela respondeu. — Mas meu telefone está aqui. — Eu sei. — Então me liga. — Vou ligar. Desliguei. Coloquei o celular sobre o banco do passageiro. Fiquei alguns segundos olhando para ele. Helena tinha razão. Eu não precisava enfrentar tudo sozinha. Mas também havia alguma coisa dentro de mim dizendo que aquela era uma batalha que eu precisava aprender a enfrentar. Liguei o carro e saí do estacionamento. Enquanto dirigia, minha cabeça voltou para o advogado. Ele estava investigando tudo. Em breve, eu saberia. Quem era o verdadeiro proprietário do apartamento. O que havia acontecido com a minha herança. Qual era o regime de bens do meu casamento. E, principalmente, se Carlos tinha escondido alguma coisa de mim. Eu sentia medo da resposta.
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