a descoberta
Ponto de vista de Letícia
Eu só queria fazer uma surpresa para Carlos.
Naquela tarde, preparei seu jantar favorito, arrumei a casa e até escolhi uma roupa diferente. Fazia semanas que eu sentia meu marido distante, sempre ocupado com o trabalho, sempre dizendo que precisava crescer na empresa antes de pensarmos em aumentar nossa família.
Eu acreditava nele.
Ainda acreditava no nosso casamento.
Por isso, decidi aparecer de surpresa em seu escritório.
Talvez pudéssemos jantar juntos.
Talvez pudéssemos conversar.
Talvez aquela distância entre nós finalmente desaparecesse.
Entrei no prédio e cumprimentei a recepcionista. Peguei o elevador e subi até o andar onde ficava a sala de Carlos.
Assim que as portas se abriram, caminhei pelo corredor.
Foi então que ouvi.
Um som abafado.
Parei imediatamente.
Meu coração acelerou.
Franzi a testa e olhei para a porta do escritório.
Estava entreaberta.
Outro gemido atravessou o corredor.
Depois, uma voz feminina.
— Vai, Carlos... mais rápido!
Meu corpo inteiro congelou.
Carlos?
Aproximei-me lentamente.
Não queria acreditar.
Talvez fosse outra pessoa.
Talvez eu estivesse confundindo a voz.
Então ouvi a voz dele.
— Você é muito gostosa. Não consigo mais ficar sem você.
Senti o sangue desaparecer do meu rosto.
Aquela voz.
Aquele tom.
Era ele.
Meu marido.
A mão que segurava minha bolsa começou a tremer.
Dei mais um passo.
Os sons continuavam vindo de dentro da sala, acompanhados de risadas e palavras íntimas que eu jamais imaginaria ouvir do homem que amava.
Encostei-me na parede.
Minha respiração ficou curta.
Não.
Aquilo não podia estar acontecendo.
Eu havia passado a tarde preparando o jantar para aquele homem.
Enquanto eu pensava nele, ele estava ali.
Com outra mulher.
Aproximei-me da porta.
E olhei.
Meu mundo acabou naquele instante.
Carlos estava com uma mulher.
Uma mulher que eu nunca tinha visto.
Ela era linda.
Cabelos perfeitamente arrumados, maquiagem impecável, roupas elegantes.
Tudo nela parecia cuidadosamente planejado.
Eu olhei para mim mesma.
Minha roupa simples.
Meu cabelo preso de qualquer maneira.
As mãos ainda carregavam o cheiro dos temperos do jantar que eu havia preparado.
Então olhei novamente para Carlos.
Ele parecia feliz.
Mais feliz do que eu o via há meses.
Meu coração se partiu.
Uma lágrima escorreu pelo meu rosto.
Depois outra.
Eu deveria ir embora.
Deveria sair dali sem fazer barulho.
Mas meus pés não obedeceram.
Fiquei parada diante daquela porta, assistindo ao homem que eu amava destruir tudo aquilo em que eu acreditava.
— Carlos...
Minha voz saiu tão baixa que nenhum dos dois ouviu.
Respirei fundo.
Limpei as lágrimas.
Então empurrei a porta.
Com força.
— CARLOS!
Os dois se assustaram.
Ele virou o rosto.
Quando me viu, ficou imóvel.
A mulher também me encarou.
Por alguns segundos, ninguém falou.
Eu esperava que Carlos demonstrasse vergonha.
Arrependimento.
Qualquer coisa.
Mas ele apenas suspirou, como se minha presença fosse um problema inconveniente.
— Letícia? O que você está fazendo aqui?
A pergunta me destruiu.
— Eu vim ver meu marido.
Ele desviou o olhar.
— Você não deveria ter vindo.
Soltei uma risada trêmula.
— Eu não deveria ter vindo?
Apontei para os dois.
— Então o que eu deveria fazer? Fingir que não vi?
Carlos passou a mão pelos cabelos.
— Não faça uma cena.
— Uma cena?
Minha voz aumentou.
— Você está me traindo e está preocupado com uma cena?
A mulher cruzou os braços.
— Talvez vocês devessem conversar em outro lugar.
Olhei para ela.
— Você sabia que ele era casado?
Ela não respondeu.
Foi Carlos quem falou.
— Ela sabia.
Meu peito apertou.
— Há quanto tempo?
Silêncio.
— Carlos, há quanto tempo?
— Alguns meses.
Senti minhas pernas fraquejarem.
Meses.
Enquanto eu esperava por ele.
Enquanto eu sonhava com nossos filhos.
Enquanto eu acreditava que o problema do nosso casamento era apenas o trabalho.
Ele estava vivendo outra vida.
— Você mentiu para mim durante meses.
— Letícia...
— Não me chama assim!
Minha voz ecoou pela sala.
As lágrimas caíam sem parar.
— Eu confiava em você.
Carlos me encarou.
E então disse algo que eu jamais esqueceria.
— Talvez o problema seja justamente esse.
— O quê?
— Você confia demais.
Fiquei olhando para ele.
— Eu te amava.
Ele soltou um suspiro.
— Eu sei.
— E isso não significava nada?
Carlos ficou em silêncio.
Então olhou para mim de cima a baixo.
Seu olhar me fez sentir pequena.
— Olhe para você, Letícia.
Baixei os olhos.
— Você vive como uma dona de casa de cinquenta anos. Essas roupas... esse cabelo... Você nunca tenta ser atraente.
Minha garganta fechou.
— Eu me visto assim porque estou em casa.
— Exatamente.
Ele apontou para mim.
— Você só sabe cuidar da casa, cozinhar e esperar por mim.
A mulher atrás dele permaneceu em silêncio.
— Eu faço tudo isso porque sou sua esposa.
— E acha que isso basta?
Ele riu.
— Você passa o dia cheirando a comida, Letícia. Quando chega perto de mim, parece que acabou de sair da cozinha.
Coloquei a mão sobre a boca.
Não queria chorar na frente dele.
Mas já era tarde.
— Você acha que eu sou feia?
Ele hesitou por um segundo.
Depois respondeu:
— Acho que você deixou de se cuidar.
Aquelas palavras doeram mais do que qualquer grito.
Porque eu havia me deixado de lado por ele.
Eu tinha escolhido aquela vida porque acreditava que estava construindo uma família.
— Eu queria ter filhos com você.
— Eu nunca quis isso.
Meu coração parou.
— O quê?
— Eu nunca quis filhos.
— Então por que dizia que precisava de estabilidade?
Ele desviou o olhar.
— Era uma desculpa.
Senti o chão desaparecer.
Tudo tinha sido uma mentira.
Meu casamento.
Meus planos.
Meu futuro.
A vida que eu imaginava ao lado dele.
Tudo.
Olhei para Carlos uma última vez.
— Eu não reconheço mais você.
Ele permaneceu calado.
Peguei minha bolsa.
— Letícia...
— Não.
Abri a porta.
— Acabou.
Saí correndo.
Não queria que ele visse minhas lágrimas.
Não queria ouvir mais uma palavra.
Corri pelo corredor enquanto meu coração parecia se partir a cada passo.
Quando as portas do elevador se fecharam, encostei-me contra a parede e finalmente deixei o choro escapar.
Apertei as mãos contra o peito.
Eu havia entrado naquele prédio acreditando que encontraria meu marido.
Saí de lá sabendo que nunca o conheci de verdade.
E, enquanto o elevador descia, uma única certeza começou a nascer dentro de mim:
Eu nunca mais seria a mulher que implorava por amor.