Ponto de vista de Letícia
Saí daquela empresa sem rumo, sem saber para onde estava indo, completamente desorientada.
Eu simplesmente caminhei.
Não me lembrava de ter apertado o botão do elevador. Não me lembrava de ter atravessado a recepção. Muito menos de ter passado pelas portas de vidro.
Só me lembro de estar na rua.
Caminhando.
Sem direção.
Sem destino.
As pessoas passavam por mim, algumas apressadas, outras conversando, rindo, mexendo nos celulares. Carros buzinavam. O trânsito seguia normalmente.
O mundo continuava.
E isso me parecia absurdo.
Como alguém podia continuar vivendo normalmente quando o meu mundo tinha acabado?
Meu peito doía.
Ainda conseguia ouvir a voz de Carlos na minha cabeça.
“Você parece uma velha.”
“Só sabe cuidar da casa.”
“Você vive cheirando a comida.”
“Eu nunca quis filhos com você.”
Fechei os olhos por alguns segundos, lembrei de nós dois na escola sonhado com uma família e vários filhos.
As lágrimas voltaram.
Passei rapidamente a mão pelo rosto, tentando escondê-las.
Não queria que ninguém percebesse.
Não queria que estranhos olhassem para mim e tivessem pena.
Tivesse pena da pobre coitada que se veste como uma velha.
Continuei andando.
Meu celular vibrava dentro da bolsa.
Uma vez.
Duas.
Três.
Eu sabia quem era.
Carlos.
Não queria falar com ele.
Não queria ouvir sua voz.
Não queria escutar nenhuma explicação.
Depois de tudo o que ele havia dito, depois do que eu vi naquele escritório, não existia explicação capaz de consertar aquilo.
Parei diante de uma vitrine.
Meu reflexo apareceu no vidro.
Fiquei olhando para mim mesma.
Uma mulher de vinte e cinco anos.
Mas eu parecia muito mais velha.
Usava uma saia comprida e simples, uma blusa discreta e um suéter cobrindo completamente os braços. Não havia maquiagem no meu rosto. Nenhuma joia no pescoço. Nenhum brinco chamativo.
Meu cabelo estava preso de qualquer maneira, alguns fios escapando e caindo sobre meu rosto.
Eu parecia cansada.
Apagada.
Sem vida.
Passei os dedos pelo cabelo.
Talvez Carlos tivesse razão.
Talvez eu realmente tivesse me tornado uma mulher sem graça.
Talvez fosse por isso que ele tinha procurado outra.
Aquela mulher do escritório era tudo o que eu não era.
Bonita.
Elegante.
Maquiada.
Confiante.
Eu parecia apenas...
Uma dona de casa.
Baixei os olhos.
— Não é à toa que ele me traiu — murmurei.
As palavras saíram antes que eu pudesse impedir.
A única explicação para a traição era acreditar que eu era a culpada, se tivesse me arrumado, talvez ele não me trocado por outra.
Senti uma lágrima cair.
Continuei andando.
Foi quando avistei um bar.
Era grande, com uma fachada iluminada e uma porta aberta. Do lado de dentro, havia muita gente. Música tocava, garçons passavam carregando bandejas, e as vozes se misturavam em um barulho constante, meu olhar brilhou.
Parei diante da entrada.
Eu nunca costumava frequentar lugares assim, mas sempre tive vontade.
Carlos não gostava.
Na verdade, Carlos não gostava de quase nada que eu fazia.
Mas naquela noite eu não tinha mais marido.
Não tinha mais casamento.
Não tinha mais motivo para seguir as regras que eu havia seguido durante três anos, agora eu era uma mulher livre.
Entrei.
Ninguém me conhecia.
E talvez fosse exatamente disso que eu precisava.
Um lugar onde ninguém soubesse quem eu era.
Caminhei até o balcão e me sentei em um dos bancos.
O homem atrás do bar olhou para mim.
— O que vai querer?
Respirei fundo.
— A bebida mais forte que você tiver, por favor.
Ele me observou por alguns segundos, provavelmente percebendo meu rosto molhado de lágrimas.
Mas não fez perguntas.
Pegou uma garrafa, serviu uma dose e colocou o copo diante de mim.
— Aqui.
Olhei para a bebida.
Por alguns segundos, fiquei apenas encarando aquele líquido.
Depois peguei o copo.
Bebi.
O gosto queimou minha garganta, como meu coração estava queimando.
Fechei os olhos.
Talvez fosse isso que eu precisava.
Sentir alguma coisa diferente da dor no peito.
Coloquei o copo sobre o balcão.
As lágrimas continuavam escorrendo.
— Mais uma.
O homem serviu.
Bebi novamente.
Dessa vez, a bebida pareceu descer com mais facilidade.
Mas as lembranças voltam das humilhações de Carlos, que sempre eu deixei passar, a frieza como ele me rejeitava, nada estava bom para ele.
Carlos me tratava como se eu fosse sua empregada e eu não me importava com isso, mas agora eu percebo o quanto fui burra.