minha gatinha

711 Words
Ponto de Vista de Apolo Eu já tinha vivido coisas suficientes para saber que algumas noites deveriam ser esquecidas. Algumas decisões deveriam permanecer enterradas. Algumas pessoas deveriam entrar em nossa vida, passar por ela e desaparecer sem deixar rastros. Mas aquela noite não seria assim. Aquela garota não seria assim. Aquela maldita máscara de gatinha tinha conseguido algo que nenhum inimigo, nenhuma ameaça e nenhuma quantidade de dinheiro havia conseguido nos últimos meses. Ela mexeu comigo de um maneira impressionante. E mexeu com Dimitri a ponto dele esquecer a esposa morta. Nós dois éramos homens acostumados a controlar tudo. Comandávamos organizações criminosas, tínhamos homens espalhados por diferentes lugares e lidávamos diariamente com situações que fariam qualquer pessoa comum perder o sono. Conhecíamos a violência. Conhecíamos o perigo. Sabíamos que uma decisão errada poderia significar a morte. Por isso, sentimentos nunca tiveram muito espaço em nossas vidas, bom minha vida. Sentimentos deixavam pessoas vulneráveis. E homens como nós não podiam se dar ao luxo de ser vulneráveis. Eu sempre pensei assim. Até aquela noite. Eu ainda conseguia lembrar perfeitamente do momento em que ela entrou naquele salão. A pequena máscara de gatinha. As roupas comportadas. A maneira como ela olhava ao redor, tentando entender aquele ambiente. Ela parecia deslocada. E, justamente por isso, era impossível não olhar. Dimitri percebeu primeiro. Ou talvez eu tenha percebido que ele percebeu. Pouco importava. Nós dois ficamos observando aquela mulher. Não sabíamos quem ela era. Não sabíamos de onde vinha. Não sabíamos o que estava procurando naquele lugar. Mas havia alguma coisa nela. Uma energia diferente. Uma espécie de mistério que fazia qualquer pessoa querer descobrir o que existia por trás daquela máscara. Quando ela ficou sozinha, eu não pensei duas vezes. Aproximei-me. Conversei com ela. E, pouco tempo depois, estávamos os três em uma sala reservada. Ainda me lembro de como ela segurava o copo. Parecia nervosa. Mas não assustada. Era como se estivesse tentando reunir coragem para fazer alguma coisa que jamais imaginara fazer. Perguntei se estava tudo bem. Ela apenas assentiu. Então veio o primeiro choque. Ela disse que queria ser chamada de Gatinha. Não seu nome. Não sua identidade. Apenas Gatinha. E eu aceitei. Dimitri também. Naquela noite, não éramos Apolo e Dimitri. Ela apenas Gatinha Éramos apenas três pessoas escondidas atrás de máscaras. E deixamos o resto do mundo desaparecer. A noite avançou cercada por desejo e i********e, mas havia algo naquela mulher que me surpreendia a cada minuto. Ela não parecia estar ali apenas pelo prazer. Parecia estar tentando esquecer alguma coisa. Eu conhecia aquela sensação. Dimitri também. Talvez fosse justamente por isso que ela tivesse nos atraído tanto. E, naquela noite, acabamos encontrando uns aos outros. Quando ela nos beijou, percebi que alguma coisa havia mudado. Não foi um beijo casual. Não foi um gesto vazio. Foi intenso. Cheio de sentimento. Por alguns segundos, fiquei completamente imóvel. Porque não esperava aquilo. Eu estava acostumado a mulheres que se aproximavam por interesse, medo, curiosidade ou desejo. Mas aquele beijo parecia diferente. Ela beijava como se realmente estivesse ali. Como se, naquele instante, não existisse mais nada. E aquilo despertou alguma coisa dentro de mim. Uma coisa que eu nem sabia que ainda existia. Meu coração. Não deveria ter acontecido. Eu não queria que acontecesse. Mas aconteceu. E, olhando para Dimitri, percebi que ele também havia sentido. O homem que passara meses destruído pela morte da esposa estava diferente. Seus olhos acompanhavam aquela mulher de uma maneira que eu nunca tinha visto. Havia desejo. Claro. Mas havia também algo mais. Interesse. Curiosidade. E talvez uma pequena esperança. Depois daquela noite, não sei quanto tempo passou. Horas? Minutos? Parecia impossível dizer. Quando finalmente adormeci, eu não imaginava que acordaria com aquela sensação estranha no peito. Abri os olhos lentamente. A primeira coisa que percebi foi o silêncio. A segunda foi a ausência dela. Virei o rosto. O espaço ao meu lado estava vazio. Levantei-me. — Gatinha? Nada. Olhei para Dimitri. Ele ainda estava acordando. — Onde ela está? Ele abriu os olhos. Demorou alguns segundos para entender. Então se sentou. Olhou ao redor. — Foi embora. Levantei-me. — Sem se despedir? — Parece que sim. Passei a mão pelos cabelos. Aquilo não fazia sentido. Eu não sabia nem por que estava incomodado.
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