uma decepção

1399 Words
Ponto de Vista de Letícia Eu conseguia acreditar. Não era apenas tristeza. Não era apenas decepção. Era uma raiva que parecia queimar dentro do meu peito. Saí do escritório do advogado com os documentos dentro da bolsa e uma única certeza na cabeça: eu precisava olhar nos olhos de Carlos e ouvir dele como havia sido capaz de fazer aquilo comigo. Meu apartamento. Meu carro. Minha herança. Minha vida. Tudo parecia ter sido colocado nas mãos de outra pessoa enquanto eu continuava vivendo como se estivesse segura. Como se meu casamento fosse real. Como se o homem ao meu lado me amasse. Agora eu sabia que talvez tivesse sido enganada durante anos. E eu não pretendia ficar quieta. Dirigi até o prédio onde ficava o escritório de Carlos. Assim que estacionei, fiquei alguns segundos dentro do carro. Respirei fundo. Meu coração estava acelerado. Peguei minha bolsa e saí. Entrei no prédio sem sequer olhar para os lados. A recepcionista abriu a boca para falar alguma coisa. — Senhora, posso ajudar? — Eu vou falar com Carlos. Continuei andando. — Senhora, espere... Nem deixei que terminasse. Eu não tinha ido até ali para pedir autorização. Apertei o botão do elevador. Enquanto esperava, senti minhas mãos tremerem. Olhei para os documentos dentro da bolsa. Aquela assinatura. Meu nome. A prova de que eu havia assinado alguma coisa que nem lembrava. As portas do elevador começaram a abrir. Foi quando me virei rapidamente e esbarrei em dois homens que vinham pelo corredor. Um deles deu um passo para trás. — Cuidado. Olha por onde anda. Levantei os olhos. — Desculpa. Eu estou muito nervosa. Minha bolsa havia se aberto. Alguns papéis caíram no chão. Abaixei-me imediatamente. Mas um dos homens se adiantou. Ele se abaixou e começou a recolher os documentos antes de mim. — Aqui. Estendeu alguns papéis. Quando nossos olhos se encontraram, senti um arrepio percorrer meu corpo. Foi estranho. Muito estranho. Aqueles olhos. Eu conhecia aqueles olhos? Não. Era impossível. Mas alguma coisa dentro de mim reagiu. Uma sensação inexplicável. Como se eu já tivesse visto aquele olhar em algum lugar. Como se já tivesse estado diante daquele homem. Meu coração bateu mais rápido. Ele me encarava em silêncio. Era um homem alto, elegante e com uma presença que chamava atenção. Havia algo nele que parecia perigoso. Mas, ao mesmo tempo, familiar. Peguei os documentos. — Obrigada. O outro homem permanecia de pé. Seu rosto era fechado. Poucos amigos. Não demonstrava qualquer emoção. Olhei para os dois. — Desculpa, mas eu estou com um problema. O homem que havia recolhido os papéis não respondeu. O outro sequer pareceu interessado. Franzi a testa. — m*l-educados. Peguei o restante dos documentos. — Eu pedi desculpa. Ninguém respondeu. Revirei os olhos. — Tanto faz. Entrei no elevador. As portas começaram a fechar. Antes que se fechassem completamente, olhei novamente para aqueles olhos. A sensação estranha voltou. Eu tinha certeza de que nunca havia visto aquele homem. Então por que parecia que alguma parte de mim o reconhecia? Balancei a cabeça. Não podia pensar naquilo. Eu tinha problemas muito maiores. O elevador começou a subir. Quando as portas se abriram no andar do escritório de Carlos, saí rapidamente. A secretária estava sentada atrás da mesa. A mesma mulher. A amante dele. Quando me viu, levantou-se imediatamente. — Letícia. Parei diante dela. — Quero falar com Carlos. — Ele está ocupado. — Não me importa. — Você não pode entrar. Olhei para ela. — Saia da minha frente. Ela ficou surpresa. — O quê? — Você ouviu. Passei por ela. — Letícia! Abri a porta do escritório. Carlos estava sentado atrás da mesa, mexendo em alguns documentos. Levantou os olhos. Não parecia surpreso. Na verdade, parecia irritado. — O que você quer? A pergunta me fez perder o pouco controle que ainda tinha. — Como você pôde fazer isso comigo? Ele encostou-se na cadeira. — Do que está falando? — Do apartamento! Coloquei os documentos sobre a mesa. — O apartamento que foi comprado com a herança da minha avó! Ele olhou para os papéis. — E daí? — E daí? Minha voz tremeu. — O carro! — O que tem? — Você passou tudo para sua mãe? Ele soltou uma risada. Uma risada fria. — Finalmente descobriu? Meu corpo inteiro ficou gelado. — Você sabia? — Claro que sabia. — Como você pôde fazer isso? Ele se levantou. — Você é burra. Fiquei olhando para ele. — O quê? — Muito burra. Ele apontou para os documentos. — Você assinou todos os papéis. — Eu não sabia o que estava assinando! — Problema seu. — Carlos... — Não posso fazer nada. — Você me enganou! — Eu apenas organizei as coisas. — Com o meu dinheiro! Ele deu de ombros. — E daí? Senti lágrimas nos olhos. — Eu confiei em você. Ele me encarou sem qualquer emoção. — Esse foi o seu erro. Meu peito doeu. — Você não pode fazer isso comigo. — Posso. Ele voltou para a cadeira. — Se você quer se separar de mim, beleza. Eu respirei fundo. — Eu quero. — Então eu aceito. Ele fez uma pausa. — Mas você vai sair de lá. — Não. — O apartamento não é seu. — É a minha casa! — Não é. — O dinheiro da compra veio da minha herança! — E você assinou os documentos. Aquelas palavras pareciam uma sentença. — O carro também não é seu. Ele apontou para mim. — Você não pode levar nada. Minha visão ficou turva. — Você é um desgraçado. Ele deu um sorriso de canto. — Talvez. A raiva tomou conta de mim. — Como você pôde fazer isso comigo? Minha voz ecoou pela sala. — Eu sempre fiz tudo por você! Carlos riu. — Para, Letícia. — Eu cuidei dessa casa! — E daí? — Cuidei de você! — Você chama isso de cuidar? Ele se levantou. — Você é sem sal. Fiquei imóvel. — O quê? — Insossa. Ele começou a falar com uma crueldade que eu jamais tinha visto. — Um espírito de pobre. Meu rosto queimou. — O que você fez por mim? Ele começou a contar nos dedos. — Lavou minhas camisas? Meu peito apertou. — Passou meus ternos? — Carlos... — Fez uma janta? Ele riu. — Nossa. É isso que você chama de contribuição? Lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto. — Eu fiz tudo por você. — Você fez o mínimo. — Eu te amava. Ele ficou em silêncio por um instante. Depois respondeu: — Esse era o problema. Senti meu coração quebrar. — Eu casei com você porque eu era um fracassado. Fiquei olhando para ele. — Quando nos casamos, eu ainda estava tentando crescer. Você era conveniente. Aquelas palavras me destruíram. — Mas agora... Ele ajeitou a camisa. — Agora estou subindo na empresa. Olhou diretamente para mim. — Preciso de uma mulher à minha altura. Senti como se tivesse levado um tapa. — Então foi isso? — Foi. — Você nunca me amou? Ele não respondeu imediatamente. — Talvez tenha amado alguma coisa em você. — O quê? — A facilidade com que você acreditava em mim. Fechei os olhos. Uma lágrima caiu. — Eu não acredito. — Acredite. Ele apontou para a porta. — Então temos um acordo. — Que acordo? — Se você ficar quietinha em casa, fazendo seus trabalhos domésticos, eu deixo você continuar morando lá. Olhei para ele, incrédula. — Você está falando sério? — Muito. — E se eu quiser o divórcio? — Você sai. — E fico sem nada? — Exatamente. Minha respiração ficou pesada. — Você destruiu minha vida. — Não dramatize. — Você destruiu tudo! Ele perdeu a paciência. — Agora saia. — Eu não acredito que você faz isso. — Saia do meu trabalho. — Carlos... — Saia! Fiquei alguns segundos olhando para aquele homem. Era o mesmo homem com quem eu havia me casado. Mas parecia um estranho. Talvez sempre tivesse sido. Eu queria gritar. Queria quebrar alguma coisa. Queria perguntar como ele conseguia olhar para mim depois de tudo. Mas nenhuma palavra saiu. Virei as costas. Comecei a caminhar até a porta. Minha visão estava completamente embaçada pelas lágrimas. A secretária estava do lado de fora. A amante. A mulher que havia destruído meu casamento junto com ele. Passei por ela sem dizer nada. Entrei no elevador.
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