Giulia deu dois passos para trás. Não foi planejado, nem consciente — foi instintivo, como se o corpo tivesse reagido antes da mente. Pela primeira vez desde que entrou naquele escritório, desde que olhou nos olhos do homem que a odiava com uma intensidade quase palpável, ela sentiu medo. Não era o medo da arma, nem da ameaça velada que pairava no ar como fumaça densa. Era o medo do que aquilo significava.
Ela nunca imaginou que a proposta de Vicenzo seria essa. Casamento. A palavra soava absurda, quase cômica, se não estivesse carregada de veneno. Ele a odiava. Sempre deixou isso claro. Cada olhar, cada silêncio, cada gesto era uma lembrança viva de que ela era o alvo da sua vingança. Então por que se casar com ela?
A resposta veio como um sussurro c***l dentro da própria mente: porque ele queria torturá-la. Porque queria prendê-la de forma mais profunda do que qualquer cela. Porque o altar, nas mãos dele, seria apenas o primeiro passo de uma condenação sem absolvição.
Vicenzo quase gemeu de contentamento ao ver a reação que tanto esperava. Aquela hesitação, aquele recuo, mesmo que breve, era a primeira rachadura real na armadura dela. Por dentro, algo nele se acendeu — uma satisfação sombria, quase sensual, como se tivesse vencido uma batalha silenciosa. Mas o prazer durou pouco.
Giulia o encarou de novo. A voz saiu trêmula, mas havia decisão em cada sílaba, como se ela estivesse costurando coragem com a própria dor.
— Certo. Eu aceito.
Mas você vai ter que me mostrar provas. Provas reais. Quero saber quem realmente matou o Luca.
O nome. O maldito nome. Sempre ele.
Vicenzo estreitou os olhos, e o gesto foi como uma lâmina que cortava o ar entre eles. A raiva voltou, não como explosão, mas como veneno escorrendo pelas veias. Ele caminhou até ela com passos lentos, firmes, como se o chão obedecesse ao seu ritmo. E quando parou, seu corpo pressionou o dela com uma firmeza que não deixava espaço para fuga.
Ela sentiu o calor dele, o cheiro de uísque, couro e perigo. O coração batia alto demais, mas ela não recuou.
Vicenzo ergueu a arma, não para ameaçá-la, mas para algo ainda mais perverso. Com o cano gelado, limpou o sangue que escorria pelo pescoço dela. Devagar. Como se estivesse marcando território. Como se dissesse, sem palavras, que ela já era dele — mesmo sem aliança, mesmo sem contrato.
Giulia prendeu a respiração. Esperava sentir repulsa. Esperava que o corpo reagisse com nojo, com medo, com ódio. Mas o que sentiu foi outra coisa. Um calor estranho, traiçoeiro, que subiu pelas costas e se alojou entre as costelas. E isso a fez se odiar ainda mais.
A culpa veio como um soco. Um tapa invisível. E, num impulso, ela empurrou Vicenzo com força, afastando-o como se tentasse arrancar de si o que havia sentido.
— Ainda não assinei nenhum contrato — disse, com a voz cortante, tentando recuperar o controle.
Ele deu um passo para trás, mas não perdeu o equilíbrio. Soltou uma gargalhada seca, sem alegria, sem alma. O som reverberou pelo escritório como uma sentença.
— Vou mandar preparar um quarto pra você aqui no hotel.
Nem pense em fugir, ou vai levar um tiro assim que tentar.
Vou redigir o contrato. Amanhã você assina.
E no final de semana… nos casamos.
Giulia o encarou, surpresa, como se as palavras tivessem demorado um segundo a mais para fazer sentido.
— Já?
Ele sorriu, e havia algo de perverso naquele sorriso. Um prazer doentio em ditar o destino dela.
— Pequena mentirosa… estamos em Las Vegas.
E se isso não bastasse, eu sou o rei desse lugar.
Sem esperar resposta, pegou o telefone sobre a mesa e fez uma ligação rápida. A voz dele era baixa, firme, autoritária. Não pedia. Ordenava.
— Preparem um quarto para a senhorita Salvatore. E mandem alguém buscá-la agora.
Quando desligou, Giulia ainda estava ali, imóvel, tentando entender em que momento havia perdido o controle da própria vida.
— Posso pegar minhas coisas no carro de aluguel? Está no estacionamento.
Vicenzo já estava de costas, diante do computador, como se ela não estivesse mais ali. Mas respondeu, sem virar o rosto:
— Entregue as chaves à pessoa que vai te acompanhar. Ela se encarregará disso. E pode deixar que o carro será devolvido.
Antes que Giulia pudesse dizer qualquer coisa, alguém bateu na porta. Um homem entrou — alto, carrancudo, com olhar de quem não fazia perguntas. Fez um gesto seco com a cabeça, indicando que ela o seguisse.
Giulia deu um passo, mas antes de sair, ouviu a voz de Vicenzo mais uma vez, fria como aço.
— Se ela tentar fugir… atire em uma perna. Ou nas duas. Mas a mate lentamente depois.
O homem assentiu, como quem recebe uma instrução comum.
Giulia não demonstrou medo. Não havia espaço para isso. Ela não pretendia fugir. Aquele homem não podia ajudá-la. Mas Vicenzo… Vicenzo era o único que podia descobrir a verdade.
E ela suportaria tudo.
Até mesmo se casar com ele.
Se isso a levasse até o assassino de Luca.
Giulia seguiu o homem em silêncio. O corredor parecia longo demais, abafado demais, como se o ar ali carregasse o peso de todas as decisões erradas que ela já havia tomado. Seus passos eram rápidos, quase apressados, não por medo do que viria, mas por uma urgência silenciosa de se ver sozinha, longe de olhares, longe de julgamentos, longe de Vicenzo.
Quando chegaram à porta da cobertura, ela estendeu a chave do carro ao segurança sem hesitar.
— Está no estacionamento. Traga minhas coisas e devolva o carro, por favor.
O homem apenas assentiu, sem dizer uma palavra, e desapareceu pelo corredor. Giulia não esperou. Abriu a porta com mãos trêmulas e entrou no quarto sem sequer reparar na decoração luxuosa que a envolvia. Havia ouro nas molduras, mármore nas bancadas, cortinas de linho pesado e móveis que gritavam exclusividade. Mas nada disso importava.
Ela correu, abrindo portas, atravessando cômodos, até encontrar o banheiro. E ali, diante da pia de pedra n***a, o corpo finalmente cedeu. Vomitou com força, como se pudesse expurgar não apenas o conteúdo do estômago, mas também o gosto amargo da humilhação, da culpa, do toque de Vicenzo. O cano da arma ainda parecia frio em sua pele, mesmo horas depois. E o pior — o que a fazia querer arrancar a própria pele — era lembrar que, por um segundo, seu corpo não havia rejeitado aquilo. Havia reagido. Havia sentido algo.
Enquanto isso, do outro lado do hotel, Vicenzo estava em seu escritório, de pé diante da janela, o olhar perdido nas luzes de Las Vegas. Mas sua mente não estava ali. Estava no momento em que encostou o cano da arma no pescoço de Giulia. No traço fino de sangue. No arrepio involuntário que percorreu o corpo dela. E, para sua própria raiva, sentiu o m****o endurecer dentro da calça.
— Merda — murmurou, apertando os olhos com força, como se pudesse apagar a imagem da mente.
Aquilo não era desejo. Não podia ser. Fazia semanas que não dormia com ninguém. Era só isso. Carência física. Instinto. Nada a ver com aquela v***a que matou Luca. Nada a ver com a mulher que ele deveria destruir, não desejar.
Respirou fundo, tentando recuperar o controle. Pegou o celular e digitou rapidamente uma mensagem para Enzo Mariani, seu advogado pessoal. Sabia que contratos matrimoniais não eram exatamente a especialidade dele, mas Enzo conhecia gente. Gente que sabia redigir o tipo de contrato que ele queria.
“Preciso de um contrato pré-nupcial. Urgente. Quero cláusulas que deixem claro que ela é minha propriedade. Que deve me obedecer em tudo. E que eu não devo nada a ela — exceto punir o assassino de Luca. O resto, você pode inferir.”
Enviou a mensagem e sorriu. Um sorriso frio, c***l, satisfeito. O inferno na vida de Giulia Salvatore estava apenas começando. E ele ia garantir que fosse realmente infernal.
Na manhã seguinte, Giulia estava deitada na cama, encarando o teto como se ele pudesse lhe oferecer alguma resposta. Passara boa parte da noite vomitando, encolhida no chão do banheiro, com nojo de si mesma, com nojo de Vicenzo, com nojo do próprio corpo que, mesmo por um segundo, havia traído sua mente.
Quando alguém bateu na porta, ela não se moveu de imediato. Imaginou que fosse o segurança trazendo suas malas. Não se importou em se arrumar. Estava com o cabelo preso de qualquer jeito, o rosto pálido, vestindo apenas uma camiseta larga e uma calça de moletom. Mas quando abriu a porta, não era o segurança.
Era Vicenzo.
Ele a olhou de cima a baixo com desprezo evidente, os olhos azuis percorrendo cada detalhe da aparência dela como se estivesse diante de algo sujo.
— Nunca mais apareça na minha frente assim — disse, com a voz baixa e cortante. — Está parecendo uma p**a de beco depois de uma noite de trabalho.
Giulia sentiu o impulso subir como fogo. Queria mostrar o dedo do meio. Queria cuspir na cara dele. Mas se conteve. Apenas ergueu o queixo e respondeu com frieza:
— Não vou me arrumar para você. Como eu disse ontem, ainda não assinamos nada. Não sou sua.
Ele entrou no quarto sem pedir permissão, como se já fosse dono de tudo ali — inclusive dela. Aproximou-se com passos lentos, e então estendeu um envelope preto sobre a cama.
— Então assine.
Ela olhou para o envelope como se ele carregasse veneno. Com mãos trêmulas, pegou o contrato e o abriu. As primeiras linhas eram formais, frias, jurídicas. Mas logo vieram as cláusulas. E cada uma delas era uma facada.
“A esposa, Giulia Salvatore, é propriedade exclusiva de Vicenzo Moretti.”
“Deve obedecer a todas as ordens, sem questionar.”
“Não tem direito a reciprocidade, afeto ou fidelidade.”
“O único dever de Vicenzo é punir severamente o responsável pela morte de Luca.”
Ela sentiu o estômago revirar de novo. Mas não vomitou. Não dessa vez.
Fechou os olhos por um segundo. Respirou fundo.
E pensou:
É isso. O preço da verdade.
Nota da Autora
Se você chegou até aqui, respira. Eu sei que esse capítulo foi pesado.
Giulia está começando a pagar o preço da verdade — e Vicenzo? Ele está só começando a mostrar o tipo de inferno que é capaz de construir.
Me conta aqui nos comentários:
Você assinaria esse contrato?
O que você faria no lugar dela?
Eu leio tudo com carinho, e cada comentário me dá forças pra continuar escrevendo essa história que já está queimando dentro de mim há tanto tempo.
Se você faz parte de algum grupo de leitura, clube do livro ou tem aquela amiga que AMA um dark romance cheio de tensão, dominação e desejo proibido…
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Vamos espalhar essa história como fogo.
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Em breve vou postar os avatares dos personagens, cenas extras e conteúdos exclusivos que só quem me acompanha por lá vai ver primeiro.
Obrigada por sentir essa história comigo.
Nos vemos no próximo capítulo — e eu te prometo: ele vai doer ainda mais.
Com amor e veneno,
Lêh Magalhães