A sexta-feira chegou sem aviso.
Não de forma leve, nem de forma esperada, mas como todos os outros dias daquela semana — carregada de uma estranha repetição de rotina que parecia insistir em fingir normalidade, mesmo quando nada dentro de mim conseguia acompanhar esse fingimento. O escritório da Castellari Global já estava no seu ritmo habitual quando entrei, mas havia algo diferente no ar, uma espécie de leve antecipação coletiva que eu não conseguia identificar de imediato.
Talvez fosse o fim da semana.
Talvez fosse apenas a forma como as pessoas começavam a relaxar mentalmente antes do fim de semana.
Ou talvez fosse só eu, mais uma vez, a perceber o mundo de forma deslocada.
Sentei-me na minha mesa com a mesma precisão de sempre, organizando os papéis antes mesmo de ligar o computador, como se o controlo das pequenas coisas fosse suficiente para manter o resto sob controle também. Mas não era. Nunca era. Ainda assim, eu insistia nessa ilusão porque era a única forma de continuar funcional naquele ambiente que exigia eficiência acima de tudo, até mesmo acima da própria estabilidade emocional.
Foi então que a voz dela surgiu.
— Naila.
Júlia aproximou-se com aquele jeito leve que ela sempre tinha, como se carregasse uma energia diferente dentro daquele espaço corporativo onde quase tudo parecia rígido e calculado. Ela parou ao lado da minha mesa, encostando-se de forma casual, mas com um brilho nos olhos que denunciava que ela já tinha algo em mente antes mesmo de chegar até mim.
Levantei o olhar devagar.
— Sim?
Ela sorriu, daquele jeito que não era apenas educado, mas também um pouco esperançoso.
— Hoje à noite vamos sair. Uns colegas da equipa estão a organizar uma coisa simples, nada demais… só para descontrair um pouco. Bebidas, conversa, nada de trabalho.
Pisquei lentamente, absorvendo a informação sem reagir de imediato. A ideia de sair, de estar em um ambiente barulhento, social, cheio de pessoas a falarem sem pausas, parecia distante demais da realidade que eu tinha vivido nos últimos dias. E ainda assim, havia algo na forma como Júlia falou — leve, quase cuidadosa — que não me pressionava, mas também não me deixava simplesmente ignorar.
Ela continuou, percebendo o meu silêncio.
— Você devia ir, Naila. Sério. Vai te fazer bem sair um pouco daqui.
Baixei os olhos para os documentos à minha frente, fingindo pensar, como se a decisão estivesse realmente em análise dentro de mim. Mas no fundo, já sabia a resposta. Sabia desde o momento em que ela terminou a frase.
— Talvez… — respondi, de forma neutra, sem compromisso.
Júlia sorriu, como se aceitasse aquilo como um sim parcial.
— Só pensa nisso, tá? Não precisa decidir agora.
Ela afastou-se logo depois, deixando-me novamente sozinha com o som dos teclados e o leve murmúrio do escritório. Mas a proposta ficou ali, suspensa no ar, como uma possibilidade que eu não sabia se queria ou não tocar.
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O dia seguiu num ritmo estranho, como se tudo estivesse mais lento do que o habitual. Ou talvez fosse apenas a minha percepção, cada hora a arrastar-se de forma quase irritante, sem que nada realmente relevante acontecesse além do esperado. E ainda assim, eu sentia. Sentia o peso invisível das coisas não ditas, das presenças que não precisavam de se anunciar para serem percebidas.
E então ele chegou.
Não sozinho.
Quando as portas do elevador se abriram no piso executivo, o ambiente pareceu mudar imediatamente. Não de forma dramática, mas sutil, como sempre acontecia quando Adrian Castellari entrava em qualquer espaço. Ele caminhava com a mesma postura de sempre — firme, controlada, completamente consciente de si mesmo — mas desta vez havia alguém ao seu lado.
Um homem.
Alto, bem vestido, com uma presença igualmente forte, embora diferente. Não era o mesmo tipo de frieza de Adrian, mas havia nele uma confiança tranquila, quase observadora. Ele falava algo baixo enquanto caminhavam, mas parou assim que entraram no espaço principal do escritório.
Os olhos de Adrian percorreram o ambiente.
E inevitavelmente… encontraram os meus.
Por um instante breve, tudo pareceu suspenso.
Não houve aproximação.
Não houve expressão clara.
Mas houve reconhecimento.
Um reconhecimento silencioso, pesado, que não precisava de palavras para existir.
Senti isso imediatamente.
E como sempre fiz desde sábado…
Desviei o olhar.
Voltei para o ecrã.
Voltei para os documentos.
Voltei para qualquer coisa que não fosse ele.
Como se ele nunca tivesse existido.
Como se aquele breve segundo não tivesse acontecido.
Atrás de mim, ouvi a voz do homem com quem ele estava — provavelmente alguém importante, alguém da empresa ou de fora — mas não prestei atenção. Não podia. Não queria. Porque qualquer atenção dirigida àquele momento seria perigosa demais.
Mas mesmo sem olhar, eu sentia.
A presença de Adrian permaneceu ali, como se tivesse ficado suspensa no ar por mais tempo do que o necessário.
E foi nesse instante que percebi algo.
Não era apenas ele que estava atento.
O homem ao lado dele também tinha notado.
Não disse nada.
Mas percebi pela forma como o olhar dele alternou entre mim e Adrian por um segundo a mais do que o normal, como se estivesse a tentar entender alguma coisa que não lhe tinha sido explicada.
E depois, tudo seguiu.
Como se nada tivesse acontecido.
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O resto da manhã foi uma repetição perfeita de tarefas, prazos e silêncio funcional. Mas dentro de mim, algo já estava deslocado. Não de forma evidente, mas como uma pequena rachadura invisível que não se via por fora, mas que alterava tudo por dentro. E eu sabia disso.
Sabia que aquele olhar tinha ficado.
Sabia que o modo como eu reagi — ou não reagi — tinha significado mais do que deveria.
E isso era exatamente o tipo de coisa que eu não podia permitir.
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Quando o dia começou a cair, e o céu de Aurora City assumiu aquele tom mais suave entre o laranja e o cinzento, peguei a minha bolsa e saí da empresa. O ar da rua parecia mais leve do que o do escritório, mas isso não significava nada para mim naquele momento. O meu destino era outro, sempre era outro ao fim do dia.
O hospital.
A minha mãe.
O corredor era o mesmo de sempre, com aquele cheiro característico de desinfetante e silêncio controlado. As luzes brancas davam ao ambiente uma sensação de suspensão, como se o tempo ali dentro não seguisse as mesmas regras do mundo exterior. Caminhei até o quarto dela com passos lentos, já familiarizada com o percurso, já decorada com cada detalhe daquele espaço que se tornou parte da minha rotina.
Quando entrei, ela sorriu.
Um sorriso fraco, mas verdadeiro.
— Minha menina…
Aproximei-me devagar, sentando ao lado da cama, segurando a mão dela como sempre fazia. A pele dela estava mais quente hoje, e isso por si só já me dava uma pequena sensação de alívio que eu não admitia em voz alta.
— Como você está hoje? — perguntei, tentando manter a voz estável.
Ela observou-me por alguns segundos antes de responder.
— Estou melhor… mas você não está.
Parei.
Olhei para ela.
— Estou bem, mãe.
Ela sorriu de leve, como quem já conhece a resposta antes mesmo dela ser dada.
— Não está não.
O silêncio caiu entre nós por alguns segundos, não desconfortável, mas pesado de uma forma diferente. Ela apertou a minha mão com mais força, como se quisesse me trazer de volta para algum lugar que eu não sabia que tinha deixado.
— Naila… você precisa sair mais. Ver pessoas. Não pode ficar só nesse trabalho e aqui comigo o tempo todo.
Engoli seco.
— Eu saio…
Ela soltou uma pequena risada fraca.
— Você trabalha. Isso não é sair.
Desviei o olhar por um instante, sem resposta imediata. Porque, no fundo, ela estava certa. Eu sabia disso. Mas não era simples assim. Nada era simples assim.
Ela continuou, mais suave agora.
— Você precisa viver, minha filha. Mesmo com tudo isso… você precisa respirar fora desse peso. Não pode carregar o mundo sozinha.
Fechei os olhos por um segundo.
Porque era exatamente isso que eu estava a fazer.
Carregar o mundo.
Ou pelo menos… tentar.
— Hoje à noite você vai sair — ela disse, como se fosse uma conclusão óbvia.
Abri os olhos rapidamente.
— O quê?
Ela sorriu.
— A Júlia. Você falou dela antes. Vai sair com eles.
— Eu disse que talvez…
— “Talvez” já é um começo — interrompeu ela, com suavidade.
Fiquei em silêncio.
Ela apertou minha mão novamente.
— Vá, Naila. Nem que seja só para ficar um pouco fora da sua cabeça.
E ali, naquele momento, eu não respondi.
Mas alguma coisa dentro de mim… cedeu ligeiramente.
Não completamente.
Não de forma clara.
Mas o suficiente para que a ideia deixasse de parecer impossível.
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Quando saí do hospital mais tarde, o céu já estava mais escuro.
E pela primeira vez naquele dia, a ideia de sexta-feira à noite deixou de ser apenas uma sugestão distante.
E começou a parecer… inevitável.
Mesmo que eu ainda não tivesse decidido ir.