Acordar naquela terça-feira foi diferente.
Não foi como no domingo, onde o peso no peito me impedia até de respirar direito, como se o ar tivesse ficado mais denso dentro do meu próprio quarto, pesado demais para entrar, sufocante demais para sair.
Nem como na segunda, onde cada movimento parecia uma prova de resistência, um teste silencioso de até onde eu conseguiria ir sem desmoronar completamente, sem deixar que tudo aquilo escapasse por entre as minhas mãos.
Na terça-feira…
Era pior.
Muito pior.
Porque agora eu estava consciente.
Totalmente consciente.
Não havia mais choque amortecendo a dor. Não havia mais negação protegendo a minha mente. Não havia mais aquela névoa que me permitia fingir, por breves segundos, que talvez nada tivesse acontecido da forma como realmente aconteceu.
Só havia… realidade.
Crua.
Imutável.
Inescapável.
Abri os olhos devagar, como se até esse simples gesto exigisse coragem. O teto branco, simples, com pequenas imperfeições que eu nunca tinha reparado antes, parecia agora mais próximo, mais baixo… quase como se estivesse a descer sobre mim.
Fiquei ali.
Imóvel.
Sem piscar por vários segundos.
O meu corpo não se mexia, como se estivesse à espera de uma ordem… uma autorização… algo que viesse de dentro de mim e dissesse que era seguro continuar.
Mas não vinha nada.
O silêncio do quarto era absoluto.
Mas não era um silêncio calmo.
Era um silêncio carregado.
Cheio.
Pesado de memórias que não precisavam de imagens para existir.
Fechei os olhos novamente.
E ali estava.
Não como um filme claro.
Não como cenas definidas.
Mas em sensação.
O toque.
A proximidade.
A pressão invisível que moldou cada segundo.
A forma como tudo aconteceu rápido demais… e lento demais ao mesmo tempo.
A ausência de escolha… escondida dentro de uma decisão que eu fui obrigada a aceitar.
O meu corpo reagiu antes da minha mente.
Um leve desconforto.
Uma lembrança física.
Real.
Presente.
Como se o tempo não tivesse passado o suficiente para apagar nada.
Respirei fundo.
Mas o ar não parecia suficiente.
Nunca parecia.
— Levanta, Naila… — murmurei, com a voz baixa, rouca, quase falhando.
Soou estranho.
Distante.
Como se não fosse minha.
Como se eu estivesse a ouvir outra pessoa a falar dentro do mesmo espaço onde eu existia.
Demorei mais alguns segundos.
Talvez minutos.
Perdi a noção.
Mas levantei.
Devagar.
Cada movimento calculado.
Cuidadoso.
Como se eu estivesse reaprendendo a viver dentro do meu próprio corpo, testando os limites de algo que já não parecia totalmente meu.
Fui até o espelho.
E parei.
Fiquei ali, em frente a mim mesma.
Observando.
Tentando reconhecer.
A mulher refletida ali… ainda era eu.
O mesmo rosto.
Os mesmos olhos.
O mesmo cabelo.
Mas não era a mesma pessoa.
Havia algo diferente.
Algo que não se via… mas se sentia.
Nos olhos.
Na forma como eu me mantinha de pé.
Na ausência de leveza.
Passei a mão pelo rosto, lentamente, como se estivesse a confirmar que aquilo era real.
Depois pelos cabelos.
Como se estivesse à procura de alguma coisa.
Um sinal.
Um vestígio.
Um pedaço da Naila de antes.
Mas não encontrei.
Engoli seco.
— Está tudo bem… — sussurrei.
Mentira.
Uma mentira clara, nua, sem qualquer tentativa de parecer verdadeira.
Mas dessa vez…
A mentira não me quebrou.
Porque eu já não esperava acreditar nela.
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O caminho até a empresa foi automático.
As ruas de Aurora City estavam como sempre.
Cheias.
Barulhentas.
Vivas.
Carros passavam em velocidade constante, pessoas caminhavam apressadas, algumas riam, outras discutiam ao telefone, outras simplesmente seguiam… vivendo.
Tudo em movimento.
Tudo… normal.
E isso era o mais estranho de tudo.
Como o mundo podia continuar exatamente igual… quando dentro de mim tudo tinha mudado de forma irreversível?
Segurei minha bolsa com mais força.
O dinheiro.
Ele estava lá.
Real.
Tangível.
Pesado.
Mais pesado do que qualquer coisa que eu já carreguei na vida.
Uma parte já tinha sido usada.
A cirurgia da minha mãe.
Os medicamentos.
As contas acumuladas.
E o resto…
Eu evitava pensar.
Porque sempre que pensava… vinha o mesmo sentimento.
Um nó no estômago.
Nojo.
Confusão.
E um vazio que não tinha nome.
Mas havia uma verdade que se sobrepunha a tudo isso.
Uma única coisa que ainda me mantinha de pé.
Minha mãe estava viva.
E isso…
Era tudo.
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Quando entrei na Castellari Global, senti imediatamente.
Nada tinha mudado.
E ao mesmo tempo…
Tudo tinha mudado.
Os sons eram os mesmos.
Teclados a serem pressionados com ritmo constante.
Telefonemas curtos e objetivos.
Conversas leves entre colegas.
Passos apressados cruzando o corredor.
A rotina seguia intacta.
Organizada.
Previsível.
Só eu não.
— Bom dia, Naila!
A voz de Júlia me alcançou antes mesmo de eu chegar à minha mesa.
Virei-me para ela.
Forcei um sorriso.
Aquele sorriso automático que já não carregava emoção nenhuma.
— Bom dia…
Ela me olhou.
Mais do que o normal.
Mais do que o confortável.
Os olhos atentos, observadores… quase lendo o que eu tentava esconder.
Júlia não era ingênua.
Nunca foi.
— Dormiu melhor hoje?
A pergunta veio suave.
Cuidadosa.
Mas carregada de intenção.
Desviei o olhar.
Peguei alguns papéis na mesa, fingindo organização, dando às minhas mãos algo para fazer… para não tremer.
— Um pouco…
Mentira.
Mas uma mentira mais leve.
Mais aceitável.
Ela hesitou.
Eu senti.
Como se estivesse a medir até onde podia ir.
Como se soubesse que havia algo ali… mas não tivesse permissão para tocar.
— Qualquer coisa… estou aqui, ok?
Dessa vez, olhei para ela de verdade.
E por um segundo…
Fui sincera.
— Eu sei… obrigada.
E era verdade.
Num lugar onde tudo parecia superficial…
Ela era real.
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Sentei-me.
Respirei fundo.
E comecei a trabalhar.
Era isso.
Era essa a decisão.
Trabalhar.
Focar.
Seguir.
Agir como se nada tivesse acontecido.
Como se sábado fosse apenas mais um dia comum.
Porque no fim…
Foi um acordo.
Um acordo horrível.
Mas ainda assim…
Um acordo.
E eu não ia deixar aquilo destruir tudo.
Não agora.
Não depois de tudo.
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Foi então que eu senti.
Antes de ver.
Antes de ouvir.
Eu senti.
A presença.
Adrian.
Era sempre assim.
Como se o ar mudasse.
Como se o ambiente se reorganizasse à volta dele.
Levantei os olhos devagar.
E lá estava ele.
Impecável.
Controlado.
Intocável.
Como sempre.
— Bom dia.
A voz dele ecoou pelo escritório.
Profissional.
Fria.
Perfeita.
Como se nada tivesse acontecido.
Como se sábado nunca tivesse existido.
Como se eu fosse apenas mais uma funcionária.
Mas então…
Os olhos dele encontraram os meus.
E o tempo parou.
Por um segundo.
Talvez menos.
Mas suficiente.
Eu senti.
Ele estava à espera.
Esperando uma reação.
Uma falha.
Um sinal de que eu não estava bem.
De que eu tinha quebrado.
Eu desviei o olhar.
E voltei ao trabalho.
Sem hesitar.
Sem pensar.
Sem dar nada.
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O silêncio que ficou depois disso…
Não era vazio.
Era cheio.
Pesado.
Denso de coisas não ditas.
De perguntas que não seriam feitas.
De respostas que nunca seriam dadas.
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A manhã passou devagar.
Trabalhei mais do que o necessário.
Mais do que o habitual.
Não porque precisava.
Mas porque era a única forma de fugir.
Cada número era um refúgio.
Cada linha, uma distração.
Cada email, uma tentativa de manter a mente ocupada o suficiente para não sentir.
Mas mesmo assim…
Eu sentia.
O olhar dele.
De vez em quando.
Discreto.
Controlado.
Mas constante.
Sempre presente.
Como uma sombra silenciosa.
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— Naila.
A voz dele cortou o ambiente.
Meu corpo reagiu.
Instintivamente.
Mas por fora…
Eu permaneci intacta.
Levantei-me.
— Sim, senhor?
Neutra.
Fria.
Profissional.
Ele me observou.
Mais do que o necessário.
Como se estivesse a tentar entender algo que não fazia sentido para ele.
— Preciso que revise estes dados e me entregue até o meio-dia.
Estendeu os papéis.
Aproximei-me.
Peguei-os.
Nossos dedos quase se tocaram.
Quase.
Mas eu fui mais rápida.
Afastei a mão.
— Claro.
E voltei.
Sem olhar para trás.
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Simples.
Direto.
Frio.
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Atrás de mim…
O silêncio mudou.
Ficou mais pesado.
Mais tenso.
Eu não precisava olhar para saber.
Aquilo…
Não era o que ele esperava.
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O resto da manhã seguiu nesse ritmo.
Sem confrontos.
Sem palavras desnecessárias.
Mas com tensão.
Constante.
Silenciosa.
Crescente.
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Quando o relógio marcou meio-dia, levantei-me.
Caminhei até a mesa dele.
Cada passo firme.
Controlado.
Coloquei os documentos sobre a mesa.
— Aqui está.
Ele não respondeu de imediato.
Folheou.
Calmo.
Metódico.
Como se nada mais existisse além daqueles papéis.
Depois levantou os olhos.
Direto para mim.
— Está tudo correto.
— Ótimo.
Silêncio.
Ele parecia querer dizer algo.
Algo além.
Algo que não cabia naquele espaço profissional.
Mas eu não dei a******a.
— Com licença.
E saí.
Sem esperar.
Sem hesitar.
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E foi nesse momento…
Que algo mudou.
De verdade.
Porque pela primeira vez desde sábado…
Quem estava desconfortável…
Não era só eu.
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E isso…
Era perigoso.
Muito perigoso.
Porque Adrian Castellari não era um homem acostumado a perder o controlo.
E eu…
Acabava de tirar uma pequena parte dele.
Sem levantar a voz.
Sem confronto.
Sem uma única palavra além do necessário.