20

1159 Words
Onde o coração ainda sabe o caminho O sábado amanheceu mais silencioso do que o habitual. Não havia despertador a tocar, nem pressa para sair, nem o peso imediato das responsabilidades a cair sobre os ombros de Naila assim que abria os olhos. Ainda assim, ela despertou cedo, como se o corpo já estivesse condicionado a não se permitir descanso completo. Ficou deitada por alguns minutos, olhando para o teto do quarto, ouvindo os pequenos sons da casa — o vento leve a bater na janela, o rangido discreto da madeira, a respiração tranquila da mãe no quarto ao lado. Mas, ao contrário dos últimos dias, aquele silêncio não a esmagava. Era… diferente. Mais leve. Mais suportável. E, talvez pela primeira vez em muito tempo, havia uma sensação dentro dela que não vinha da dor, nem da obrigação. Vinha da vontade. Uma vontade simples. Quase esquecida. Mas ainda viva. Ela virou-se na cama, apoiando o braço sob a cabeça, e deixou escapar um pequeno suspiro. — Hoje… — murmurou, sem completar a frase. Mas não precisava. Porque já sabia. --- Levantou-se devagar, sem fazer barulho, como fazia desde sempre para não acordar a mãe. Caminhou pela casa com passos leves, passando pela pequena cozinha, pela sala simples, até chegar à porta. Antes de sair, parou. Olhou à volta. Aquele espaço… era tudo o que tinham. E, de alguma forma, também era o que a mantinha de pé. Pegou nas chaves. E saiu. --- O mercado já estava parcialmente movimentado quando Naila chegou. O sol da manhã iluminava as bancas, os vendedores organizavam produtos, as vozes cruzavam-se em negociações simples, cheias de vida. Era um cenário completamente diferente do mundo controlado e silencioso da Castellari Global. Ali, tudo era mais humano. Mais imperfeito. Mais real. E Naila sentia isso em cada passo. Caminhou entre as bancas com calma, observando, escolhendo, pensando. Não comprava por impulso. Cada item tinha um propósito. Cada escolha carregava intenção. Frutas. Pães. Doces simples. Sumos. Alguns brinquedos. E depois… roupas. Parou mais tempo nesta parte. Passou a mão pelos tecidos, analisando tamanhos, cores, texturas. Pequenas camisetas, vestidos simples, calças, casacos leves. Coisas que, para muitos, eram básicas. Mas para aquelas crianças… Faziam diferença. — Vai levar tudo isso, menina? — perguntou a vendedora, com um sorriso curioso. Naila sorriu de volta, leve. — Vou. — É para revenda? Ela balançou a cabeça. — Não… é para crianças. A mulher olhou-a com mais atenção. E o sorriso mudou. Ficou mais suave. — Então leva mais isso aqui — disse, acrescentando discretamente algumas peças. — Não vou cobrar. Naila abriu a boca, surpresa. — Não precisa… — Eu sei — respondeu a mulher. — Mas quero. Houve um pequeno silêncio. E então Naila assentiu. — Obrigada. Mas não foi apenas educação. Foi gratidão real. --- Quando terminou, tinha várias sacolas nas mãos. Pesadas. Mas não como o dinheiro que carregava na bolsa. Aquelas… eram leves. Mesmo sendo mais difíceis de carregar. --- O orfanato ficava numa zona mais afastada da cidade. Um espaço simples, cercado por um muro baixo, com um portão de ferro que já tinha visto dias melhores. A pintura das paredes estava desgastada, mas ainda carregava cores alegres, como se alguém tivesse tentado manter aquele lugar vivo, apesar das dificuldades. Naila parou em frente ao portão por alguns segundos. Respirou fundo. E, sem perceber, um pequeno sorriso surgiu. — Eu senti falta disto… — sussurrou. E entrou. --- O impacto foi imediato. — NAILA! A voz veio de longe. Depois outra. E outra. E em segundos… Crianças. Correndo. Rindo. Chamando por ela como se fosse alguém que nunca tivesse ido embora. E, naquele momento… Ela deixou cair as sacolas. E abriu os braços. O primeiro abraço veio com força. Depois outro. Depois vários. Pequenos braços envolvendo-a, risos misturados, vozes sobrepostas, perguntas atropeladas. — Você voltou! — Onde estava? — Trouxe alguma coisa? — Sentimos saudades! Naila riu. Um riso verdadeiro. Livre. Sem peso. — Calma! — disse, tentando falar no meio da confusão. — Eu não fui embora para sempre! Uma das meninas, pequena, com tranças apertadas, olhou para ela com olhos grandes. — Demoraste muito… E aquela frase… Aquela frase simples… Atingiu mais do que devia. Naila abaixou-se até à altura dela. Passou a mão pelo rosto da menina. — Eu sei… desculpa. E não era apenas para aquela criança. Era para si mesma também. --- As horas que se seguiram foram diferentes de tudo o que ela tinha vivido nos últimos dias. Ela distribuiu as roupas. Os brinquedos. A comida. Mas não foi isso que mais importou. Foi o tempo. Ela sentou-se no chão com eles. Brincou. Riu. Ouviu histórias. Inventou outras. Deixou que puxassem o cabelo dela. Que a arrastassem para jogos sem sentido. Que a envolvessem naquele mundo simples onde o afeto não tinha condições. E, aos poucos… Algo dentro dela foi-se desfazendo. Mas não de dor. De rigidez. De tensão. De peso acumulado. Uma das cuidadoras aproximou-se mais tarde, observando a cena com um sorriso leve. — Eles estavam a perguntar por você. Naila olhou para ela, ainda sentada no chão com duas crianças apoiadas nos seus braços. — Eu devia ter vindo antes… — Você vem quando pode — respondeu a mulher. — E isso já é mais do que muitos fazem. Naila ficou em silêncio por um momento. Observando as crianças. — Aqui… parece que tudo faz mais sentido. A cuidadora assentiu. — Porque aqui ninguém finge. E isso… Era verdade. --- Mais tarde, já com o sol a descer lentamente, Naila sentou-se no pequeno pátio do orfanato, enquanto algumas crianças ainda brincavam à sua volta. Uma delas deitou a cabeça no colo dela. Outra encostou-se ao seu ombro. E ela ficou ali. Sem falar. Sem pensar demais. Apenas… sentindo. E, pela primeira vez em muito tempo… O silêncio não doía. O passado não gritava. O futuro não assustava. Ela apenas existia. Inteira. Mesmo com tudo o que tinha vivido. Mesmo com tudo o que ainda carregava. — É aqui que eu me encontro… — murmurou, olhando o céu. E não era exagero. Era verdade. --- Quando finalmente se levantou para ir embora, foi difícil. As crianças não queriam largá-la. Ela não queria sair. Mas sabia que tinha de ir. — Você volta? — perguntou um dos meninos. Ela ajoelhou-se novamente. Olhou diretamente para ele. — Volto. — Promete? Naila hesitou por um segundo. Mas depois respondeu: — Prometo. E dessa vez… Ela quis acreditar nisso. --- Ao sair do orfanato, o céu já estava tingido de tons alaranjados e suaves. O mundo lá fora parecia o mesmo. Mas ela… Não. Caminhava mais leve. Respirava diferente. E carregava algo que não vinha de dor. Mas de paz. Uma paz rara. Frágil. Mas real. --- E enquanto caminhava de volta para casa… Uma única coisa ficou clara dentro dela: Mesmo em meio ao caos… Mesmo depois de tudo… Ela ainda sabia amar. E isso… Era o que a salvava.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD