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1301 Words
O peso da esperança O despertador tocou às cinco e meia da manhã. O som estridente ecoou pelo pequeno quarto de paredes simples, interrompendo o silêncio frágil que ainda dominava a casa. Naila Andrade abriu os olhos lentamente, como se a própria realidade fosse pesada demais para encarar logo de início. Por alguns segundos, ela ficou deitada olhando para o teto. Havia uma pequena rachadura que atravessava o reboco branco, algo que ela observava todas as manhãs desde que se lembrava. Aquela casa era antiga, cheia de marcas do tempo, mas também carregava as memórias de toda a sua vida. Ali ela havia crescido. Ali havia aprendido a sonhar. E ali também havia aprendido que os sonhos nem sempre eram fáceis. Naila respirou fundo e desligou o despertador antes que ele acordasse a pessoa mais importante da sua vida. Sua mãe. Ela se levantou da cama com cuidado, passando a mão pelos cabelos cacheados que ainda estavam bagunçados do sono. Caminhou até a pequena janela do quarto e abriu as cortinas. O céu ainda estava escuro, tingido por tons azulados da madrugada que lentamente davam lugar ao primeiro sinal de amanhecer. Era o dia. O primeiro dia. Naila pressionou as mãos contra o peitoril da janela e tentou acalmar o coração que parecia bater mais rápido que o normal. Hoje ela começaria o estágio. Não era apenas um estágio qualquer. Era um estágio remunerado na Castellari Global, uma das empresas mais influentes da cidade. A oportunidade que milhares de jovens queriam. E que apenas alguns poucos conseguiam. E, por algum milagre que ela ainda não entendia completamente, ela tinha sido uma das escolhidas. Mas junto com a esperança também vinha o medo. Porque aquele estágio não era apenas sobre carreira. Era sobre sobrevivência. Naila saiu do quarto e caminhou pelo corredor estreito da casa. O chão rangia levemente sob seus passos, um som que já fazia parte da rotina da casa. Quando chegou à cozinha, começou a preparar café. O cheiro do pó sendo misturado com água quente rapidamente tomou conta do ambiente, criando uma sensação de conforto que Naila sempre associava à presença da mãe. Mas naquele momento o cheiro também trazia uma pontada de tristeza. Porque a rotina da casa já não era mais a mesma. Ela pegou duas canecas. Colocou o café em uma e preparou chá na outra. Depois caminhou lentamente até o quarto ao lado. A porta estava entreaberta. E o que ela viu fez seu peito apertar. Dona Rosa estava deitada na cama, os olhos fechados, a respiração lenta e pesada. Nos últimos meses, a doença tinha transformado a mulher forte que Naila sempre conheceu em alguém mais frágil. Mais cansada. Mais silenciosa. Naila entrou no quarto com cuidado e colocou o chá sobre a pequena mesa ao lado da cama. — Mãe… — disse suavemente. Dona Rosa abriu os olhos devagar. Mesmo cansada, o sorriso que apareceu em seu rosto foi imediato. — Bom dia, minha filha. Naila sentou-se na beira da cama e segurou a mão da mãe. A pele dela parecia mais fria do que o normal. — A senhora devia descansar mais. — E perder o teu primeiro dia? — Dona Rosa respondeu com um sorriso fraco. — Nem pensar. Naila tentou sorrir também, mas a preocupação era mais forte. — É só um estágio. — Não — disse a mãe, apertando a mão da filha. — É o começo da tua vida. Naila desviou o olhar por um instante. Se a mãe soubesse o quanto aquela frase carregava peso… Porque Naila sabia que aquele estágio não era apenas o começo da sua vida profissional. Era a única esperança que ela tinha de pagar o tratamento médico que a mãe precisava. Algumas semanas antes, o médico tinha sido direto. O tratamento existia. Mas era caro. Muito caro. Dinheiro que elas simplesmente não tinham. Naila engoliu em seco. — Eu vou conseguir, mãe. Dona Rosa observou o rosto da filha com carinho. — Eu sei que vai. Naila ficou alguns segundos em silêncio. Depois levantou-se. — Vou me arrumar. Não posso chegar atrasada no primeiro dia. — Claro que não — respondeu a mãe. Antes de sair do quarto, Naila voltou e beijou a testa dela. Era um gesto simples. Mas carregava uma promessa silenciosa. --- Quarenta minutos depois, Naila estava pronta. Ela parou diante do espelho pequeno da sala. Vestia uma camisa branca bem passada, uma saia social preta e sapatos discretos. Nada luxuoso, mas limpo e organizado. Os cabelos cacheados estavam soltos, formando um volume bonito ao redor do rosto. Ela respirou fundo. Parecia diferente. Mais adulta. Mais responsável. Mais determinada. — Vai dar tudo certo — murmurou para si mesma. Quando saiu de casa, o sol já começava a nascer. As ruas estavam cheias do movimento típico da manhã. Pessoas caminhando apressadas, carros passando, ônibus cheios. Mas nada parecia tão grande quanto o prédio que Naila avistou quando chegou ao centro da cidade. A Castellari Global. O edifício era enorme. Uma torre de vidro e aço que parecia tocar o céu. Naila parou diante da entrada por alguns segundos. Seu reflexo apareceu no vidro da fachada. Ela parecia pequena. Muito pequena. Mas também parecia determinada. Respirando fundo, ela entrou. O lobby era luxuoso. O chão de mármore brilhava sob a luz suave do teto, e pessoas vestidas com roupas elegantes caminhavam de um lado para o outro com passos firmes. Naila sentiu o estômago apertar. Era um mundo completamente diferente do seu. Ela estava olhando ao redor quando uma voz chamou: — Posso ajudar? A recepcionista sorriu educadamente. — Eu… — Naila respirou fundo. — Sou a nova estagiária. Naila Andrade. A mulher digitou algo no computador. Depois assentiu. — Sim, está na lista. Bem-vinda à Castellari Global. Ela entregou um crachá. — Décimo quinto andar. Recursos humanos. Naila agradeceu e caminhou até o elevador. O coração batia cada vez mais rápido. Quando as portas se fecharam, ela finalmente ficou sozinha. E só então percebeu o quanto estava nervosa. — Respira — murmurou. O elevador subiu rapidamente. Quando as portas se abriram, uma mulher elegante já a esperava. — Naila Andrade? — Sim. — Sou Clara Mendez. Ela estendeu a mão. — Venha comigo. Naila seguiu Clara pelos corredores modernos da empresa. — Este estágio é muito disputado — explicou Clara enquanto caminhavam. — Esperamos muito dos nossos estagiários. — Eu vou dar o meu melhor. Clara lançou um olhar rápido para ela. — Espero que sim. Elas pararam diante de uma grande porta de vidro. Clara abriu. — Senhor Castellari, a estagiária chegou. Naila entrou. E então o viu. Adrian Castellari estava de pé perto da janela enorme que ocupava quase toda a parede. Ele estava olhando a cidade. Quando se virou, Naila sentiu algo estranho atravessar seu corpo. Ele era ainda mais impressionante do que qualquer descrição poderia sugerir. Alto. Elegante. O terno escuro perfeitamente ajustado ao corpo. Os olhos intensos. O tipo de presença que fazia o ambiente inteiro parecer menor. O olhar dele encontrou o dela. E ficou ali. Por alguns segundos que pareceram mais longos do que deveriam. Adrian aproximou-se lentamente. — Então você é a nova estagiária. A voz dele era calma. Profunda. Naila tentou manter a postura profissional. — Sim, senhor. Ele observou o rosto dela com atenção. Como se estivesse analisando cada detalhe. — Naila Andrade. Ele repetiu o nome devagar. Depois um leve sorriso apareceu no canto dos seus lábios. — Interessante. Naila não sabia explicar por quê. Mas naquele momento teve a estranha sensação de que algo importante havia acabado de começar. Algo que mudaria a vida dela. E também a dele. Ela ainda não sabia. Mas aquele encontro seria apenas o primeiro passo de uma história que envolveria escolhas difíceis… Sacrifícios inesperados… E uma proposta que mudaria tudo.
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