13

1188 Words
O Silêncio Depois O domingo amanheceu cinzento. Não chovia, mas o céu parecia pesado demais para permitir qualquer raio de sol atravessar. Era como se o próprio mundo tivesse decidido acompanhar o estado de espírito de Naila. Ela acordou, mas não se levantou. Ficou ali. Deitada. Olhando para o teto. Sem expressão. Sem pressa. Sem vontade. O corpo estava cansado… mas não era um cansaço físico. Era algo mais profundo. Algo que se instalava dentro do peito, ocupando espaço, comprimindo tudo. Um cansaço da alma. A noite anterior não saía da cabeça dela. Não em detalhes. Mas em sensação. E talvez isso fosse pior. Porque não era uma memória clara que podia ser organizada, explicada ou esquecida. Era uma presença constante, um peso invisível que a acompanhava em cada respiração. Ela virou o rosto lentamente, olhando para o lado. A casa estava silenciosa. A mãe ainda dormia. Frágil… mas viva. E isso doía. Doía de uma forma contraditória. Porque salvar a mãe deveria trazer paz. Mas não trouxe. Trouxe culpa. Trouxe um vazio. Trouxe perguntas. --- Naila levantou-se devagar. Os pés tocaram o chão frio. Ela caminhou até o espelho… e parou. Ficou ali. Olhando para si mesma. Por longos segundos. Talvez minutos. E não disse nada. Mas pensou. “Quem é você agora?” O reflexo devolvia a mesma imagem. Mesma pele. Mesmos olhos. Mesmo cabelo. Mas… algo estava diferente. Havia um brilho que já não estava lá. Ou talvez… estivesse escondido. Enterrado. Ela aproximou-se mais do espelho. Tocou o próprio rosto. Como se estivesse tentando se reconhecer. Mas não conseguiu. E isso foi o suficiente para fazer o peito apertar. --- O resto da manhã passou como um borrão. Ela preparou o café da mãe. Ajudou-a a tomar os medicamentos. Sorriu. Conversou. Fez tudo o que uma filha faria. E fez bem. Perfeitamente. Mas por dentro… Ela não estava ali. Era como se estivesse assistindo a própria vida de fora. Automática. Vazia. Distante. --- — Você está bem, filha? — perguntou Dona Rosa, com a voz ainda fraca, mas cheia de carinho. Naila forçou um sorriso. — Estou, mãe. Só um pouco cansada. Mentira. Mas uma mentira necessária. Porque como explicaria? Como colocaria em palavras algo que nem ela mesma conseguia entender? A mãe segurou a mão dela. — Você tem feito tanto por mim… Aquilo foi como um golpe. Naila desviou o olhar. — É o mínimo, mãe. Mas não era. E ela sabia. E isso tornava tudo mais pesado. --- Quando voltou para o quarto, fechou a porta devagar. Encostou-se nela. E finalmente… Respirou fundo. Como se estivesse segurando o ar o dia inteiro. Ela caminhou até a cama e sentou-se. O silêncio voltou. E com ele… Os pensamentos. --- Valeu a pena? A pergunta surgiu sem aviso. Crua. Direta. Impossível de ignorar. Ela pensou na mãe. Na cirurgia. Na vida salva. Sim… isso era inegável. Mas… E ela? O que aconteceu com ela naquela troca? O que ela perdeu? O que ficou para trás naquela noite? --- Ela levou as mãos ao rosto. Os dedos pressionaram as têmporas. Tentando conter algo que crescia dentro dela. Uma mistura de sentimentos. Raiva. Vergonha. Confusão. Tristeza. E algo mais difícil de nomear… Vazio. --- A tarde chegou sem que ela percebesse. E com ela… A solidão. Era um tipo diferente de solidão. Não era estar sozinha. Era sentir-se sozinha… mesmo quando não estava. Ela pegou o celular. Abriu. Fechou. Pensou em ligar para alguém. Para Júlia. Mas não ligou. Porque o que diria? “Oi, vendi meu corpo para salvar minha mãe, tudo bem contigo?” Não. Algumas coisas… não cabem em conversa. --- Ela caminhou até a sala. Vestia um pijama largo. Cabelo preso de qualquer jeito. Rosto limpo. Sem maquiagem. Sem esforço. Sem vontade. Sentou-se no sofá. Pegou um pote de sorvete no congelador. Chocolate. O favorito da mãe. Ligou a televisão. Qualquer filme. Não importava qual. Só precisava de algo que fizesse barulho. Que ocupasse o silêncio. --- O filme começou. Romântico. Previsível. Mas bonito. E triste. Muito triste. --- Ela começou a comer o sorvete. Devagar. Sem sentir o gosto. A colher ia e voltava. Automática. Como tudo naquele dia. --- Na tela… Os personagens se amavam. Se escolhiam. Se sacrificavam. Mas por amor. Sempre por amor. Nunca por necessidade. Nunca por desespero. Nunca por sobrevivência. --- E foi aí que a primeira lágrima caiu. Silenciosa. Discreta. Quase tímida. Ela não limpou. Deixou escorrer. --- Depois veio outra. E mais uma. E mais uma. Até que… ela já não conseguia parar. --- O choro não veio como explosão. Veio como infiltração. Lento. Constante. Profundo. --- Ela abraçou o próprio corpo. As pernas dobradas no sofá. O pote de sorvete esquecido ao lado. Os olhos fixos na televisão… mas sem realmente ver. --- “Eu fiz a coisa certa…” Ela repetiu isso na cabeça. Uma vez. Duas. Dez vezes. Mas a frase não convencia. Não totalmente. --- Porque fazer a coisa certa… não deveria doer tanto. --- O filme chegou ao final. Um final triste. Separação. Perda. Despedida. --- Perfeito. Exatamente como ela se sentia. --- Os créditos começaram a subir. Mas Naila não se mexeu. Continuou ali. Sentada. Abraçada a si mesma. Com lágrimas ainda descendo. --- A noite caiu. E ela nem percebeu. As luzes da cidade começaram a entrar pela janela. O mundo lá fora continuava. Normal. Indiferente. --- Mas dentro dela… nada estava normal. --- E então veio a outra pergunta. Mais perigosa. Mais real. --- “Eu continuo naquela empresa?” --- O nome dele veio imediatamente. Adrian. O homem que mudou tudo. O homem que pagou pela vida da mãe. E pelo pedaço dela. --- Trabalhar lá significava vê-lo. Todos os dias. Olhar para ele. Lembrar. Reviver. --- Mas sair… significava perder estabilidade. Perder dinheiro. Perder segurança. --- Ela estava presa. Mais uma vez. --- “Isso vai acontecer de novo?” O pensamento foi como um choque. Ela ficou imóvel. --- Ele pediu uma noite. Só uma. Mas… homens como ele… param por aí? --- Ela não sabia. E essa incerteza… era assustadora. --- Ela fechou os olhos. Respirou fundo. Tentando encontrar uma resposta. Qualquer uma. --- Mas não encontrou. --- Porque algumas decisões… não têm resposta imediata. --- Algumas decisões… precisam de tempo. Dor. E coragem. --- Naila abriu os olhos. O rosto ainda molhado. O peito ainda pesado. Mas algo dentro dela… estava mudando. --- Ainda não era força. Mas também já não era fraqueza. --- Era… consciência. --- Ela sabia que aquela noite não a definia. Mas também sabia… que não poderia ignorá-la. --- Ela não era mais a mesma. E fingir que era… seria a maior mentira de todas. --- O relógio marcava quase meia-noite. Ela desligou a televisão. Levantou-se devagar. Pegou o pote de sorvete. Jogou fora. --- E antes de ir para o quarto… parou por um instante. No meio da sala. Sozinha. --- Respirou fundo. E disse baixinho, quase num sussurro: — Eu vou sair disso. --- Não era um plano. Não ainda. --- Mas era um começo. --- E às vezes… é só isso que alguém precisa.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD