O Acidente

2079 Words
Capítulo 002: O Acidente Para Kartiah, Aruna sempre seria uma forasteira. A única razão pela qual ela um dia fez parte da família era porque Arga havia se casado com a mãe dela. Agora que Arga havia partido... Aos olhos de Kartiah, o motivo de Aruna permanecer naquela família também havia desaparecido. — Eu sei. A voz de Gavin tornou-se pesada. — É por isso que também estou ajudando a cuidar deles. — Mas... Kartiah estava prestes a interrompê-lo novamente. — JÁ CHEGA! O grito estrondoso fez toda a sala tremer. Todos se viraram instintivamente. Wawan estava de pé. Seu rosto estava vermelho de raiva. Seu olhar penetrante percorreu todos os presentes. O sorriso caloroso que normalmente suavizava o rosto do velho havia desaparecido. Restava apenas a ira. — Que vergonha! Fazendo um escândalo sem o menor senso de decência! Sua voz grave encheu a sala de estar. — O túmulo do Arga ainda está fresco! — E é disso que vocês estão discutindo?! Todos baixaram a cabeça. Ninguém ousou responder. Até mesmo Rustam, que até então havia sido o mais barulhento, apenas fitava o chão. Entre todos, apenas Marwan e Sundari continuaram olhando para Wawan. Seus semblantes endureceram. Como membros da geração mais velha, sentiram que também haviam sido repreendidos diante de toda a família. Mesmo assim, nenhum dos dois respondeu. Marwan era o mais velho dos três irmãos, enquanto Wawan era o caçula. Ainda assim, ele sabia que seu irmão mais novo não falava sem motivo. Nem sequer haviam se passado sete dias desde o enterro de Arga. Falar sobre herança e propriedades numa hora daquelas era simplesmente inadequado. — Chega. — Vão para casa. — AGORA! Ninguém voltou a dizer uma palavra. Um por um, levantaram-se. Alguns ajeitaram os sarongues na cintura. Outros pegaram os peci que haviam deixado sobre os tapetes. Alguns apenas se despediram em voz baixa, sem coragem de encarar Wawan. Pouco a pouco, a sala de estar antes lotada foi se esvaziando. Apenas o velho ventilador de teto continuava girando preguiçosamente em um canto. Gavin permaneceu onde estava. Os dois punhos ainda cerrados ao lado do corpo. Seu peito subia e descia. Sua mandíbula permanecera tão tensa por tanto tempo que ele já nem sabia quando aquilo havia começado. Somente depois que a casa finalmente mergulhou em silêncio percebeu que seus dedos estavam tremendo. Num canto da sala, Halimah apenas baixava a cabeça. Seus olhos estavam inchados. Ela m*l havia pronunciado uma palavra durante toda a discussão. Ainda assim, cada menção aos imóveis de aluguel, à herança e à disputa pela guarda dos gêmeos atingia seu coração uma após a outra. Quatro dias. Apenas quatro dias desde que Arga e Aisyah haviam sido sepultados. E, no entanto, aquilo pelo que as pessoas brigavam já não eram orações. Era a riqueza que eles haviam deixado para trás. Wawan fechou os olhos por um instante. Seu peito parecia apertado. Conhecia a personalidade da maioria de seus parentes havia décadas. Mesmo assim, vê-los mudar tão rapidamente, logo após a morte de Arga, ainda enchia seu coração de dor. Respirou profundamente antes de caminhar até Gavin. Sua mão pousou suavemente sobre a cabeça do rapaz. — Gavin... você está exausto, não está? Vá dormir. Já está tarde. — Sim, Vô... Gavin assentiu em silêncio. Um leve sorriso finalmente surgiu em seu rosto. — Obrigado. — Obrigado pelo quê? Wawan soltou um resmungo baixo. — Vá descansar. Tranque a porta. A Runa ainda está no hospital, não é? — Sim, Vô. — Tenho pena daquela menina — murmurou Halimah baixinho. Ela olhou para o chão antes de continuar. — Já faz quatro dias que ela está no hospital com os gêmeos. Ninguém foi substituí-la. A sala voltou a mergulhar no silêncio. O zumbido do velho ventilador e o farfalhar das folhas do lado de fora eram os únicos sons da casa. — O que mais podemos fazer, Vó... Gavin soltou um leve suspiro. — Tenho ficado ocupado cuidando de tudo aqui. — Será que aquela menina ao menos tem se alimentado? — perguntou Halimah novamente, cheia de preocupação. — Insha'Allah, ela sabe cuidar de si mesma, Vó. Além disso, o Om Ardan também está lá. Ele tem feito companhia à Aruna no hospital. As sobrancelhas do Vovô Wawan se ergueram. — Ah... Ele assentiu lentamente. — Então é por isso que o Ardan só volta para casa por alguns instantes à noite. — Sim, Vô. Gavin assentiu inocentemente. — A Aruna é uma moça. O Om Ardan jamais a deixaria dormir sozinha na sala de espera de um hospital. — Hum... Wawan fez um pequeno aceno de cabeça. Seu olhar perdeu-se ao longe. Ninguém sabia o que passava por sua mente. — Pois bem... Ele finalmente falou. — Esperemos que os gêmeos possam voltar para casa em breve. — Amin. Gavin respondeu com um leve sorriso. Depois de se despedirem, Wawan e Halimah deixaram a casa. O som de seus passos ecoou suavemente pelo beco, agora silencioso. Havia quatro dias que algo incomodava Wawan. Ardan. Aruna. Esses dois nomes continuavam girando em sua mente. Algo parecia estranho. Mesmo assim, decidiu não perguntar. Gavin já estava cansado demais naquela noite. O rapaz, que havia acabado de terminar os exames finais do ensino médio, parecia pálido. Olheiras começavam a surgir sob seus olhos. Não era apenas falta de sono. Durante aqueles quatro dias, ele praticamente deixara de comer nos horários certos. Já não havia ninguém naquela casa para lembrá-lo de se alimentar. Quatro Dias Antes SCREEECH—! O guincho dos freios rasgou o ar. CRAAASH!! Uma colisão violenta sacudiu o cruzamento. Um sedã preto girou quase meia volta antes de se chocar contra a barreira na beira da estrada. O para-brisa explodiu em incontáveis estilhaços, enquanto uma fina fumaça começava a subir sob o capô amassado. Vários motociclistas frearam instintivamente. Uma mulher gritou, cobrindo a boca com as duas mãos. Em poucos segundos, o trânsito nos dois sentidos parou completamente. Algumas pessoas correram em direção ao veículo destruído. Outras imediatamente ergueram seus celulares para gravar. — Meu Deus...! — Tem alguém lá dentro! — Não cheguem perto! Um policial de trânsito que estava de serviço perto do cruzamento saiu correndo em direção ao carro. Um longo apito cortou o ar. — Para trás! Todos para trás! Abram espaço! A multidão recuou a contragosto, embora muitos ainda tentassem enxergar o interior do veículo. Através do para-brisa estilhaçado, o policial viu um homem de meia-idade caído sobre o volante, preso sob o painel completamente esmagado. No banco do passageiro, uma mulher em estágio avançado de gravidez permanecia imóvel. O cinto de segurança ainda cruzava seu peito. Seu maxilar se contraiu. Ele imediatamente pegou o rádio. — Central, aqui é Bravo Três. Temos um acidente de trânsito. Duas vítimas ainda presas às ferragens. Solicito ambulância e equipe de Bombeiros e Resgate imediatamente. — Recebido. Equipes a caminho. — Câmbio. Ele prendeu novamente o rádio ao ombro. — Ninguém se aproxima! Abram caminho para a ambulância! Por fim, o som de uma sirene ecoou à distância. No começo era fraco. Depois tornou-se cada vez mais alto. Mas a ambulância acabou presa no trânsito do horário de pico. Buzinas soavam de todos os lados. Os veículos só começaram a abrir passagem quando a sirene já estava praticamente atrás deles. Alguns minutos depois, a ambulância parou atrás do sedã destruído. As portas traseiras se abriram de repente. Dois paramédicos desceram carregando bolsas médicas e uma maca dobrável antes de correrem até o policial. — As duas vítimas ainda estão presas — informou o policial rapidamente. — Homem ao volante. Mulher grávida no banco do passageiro. Os Bombeiros e Resgate já estão chegando. Antes que pudessem agir, outra sirene atravessou o congestionamento. Um caminhão dos bombeiros, com as luzes de emergência piscando, avançava lentamente entre os carros. O comandante da equipe de resgate desceu da cabine. — Primeiro vamos avaliar as vítimas — disse um dos paramédicos. — Depois trabalharemos juntos na retirada. — Entendido. O paramédico calçou um par de luvas antes de se inclinar pela janela destruída. — Senhora... consegue me ouvir? Nenhuma resposta. Ele verificou as vias aéreas, procurou o pulso e conectou um monitor portátil. Alguns segundos se passaram. Uma linha reta apareceu na tela. Ele trocou um olhar com o colega antes de baixar os olhos para o ventre inchado da mulher. — A vítima feminina não pode mais ser salva — disse ao comandante dos Bombeiros e Resgate. — O bebê ainda pode ter uma chance. Precisamos retirá-la imediatamente. O comandante assentiu com firmeza. — Iniciem a extração! As ferramentas hidráulicas de resgate rugiram. Lentamente, a estrutura amassada do carro começou a ser aberta. — Devagar... mantenham firme. Assim que a a******a ficou grande o suficiente, os dois paramédicos estenderam os braços para dentro. — Cuidado com o abdômen. Com extremo cuidado, retiraram a mulher e a colocaram sobre uma maca. Um dos paramédicos correu imediatamente em direção à ambulância, enquanto o outro continuava observando o monitor portátil. Do lado oposto, a equipe de resgate ainda lutava para libertar o motorista. — O painel ainda está prendendo as pernas dele. — Cortem o lado direito. A serra de resgate voltou a rugir. Faíscas voaram por alguns instantes até que o painel finalmente foi removido. — Retirem-no devagar. Por fim, o homem foi libertado. Seu rosto estava pálido. O sangue já havia secado em sua têmpora. Mas sua respiração ainda era fraca. — Ele ainda está respirando. — Coloquem-no na ambulância! As duas macas seguiram praticamente lado a lado. As portas da ambulância se fecharam com força. Instantes depois, a sirene voltou a soar enquanto o veículo disparava rumo ao hospital mais próximo. O ruído das rodas das macas ecoava pelos corredores do Departamento de Emergência. No instante em que as portas da ambulância se abriram, enfermeiros e médicos que já aguardavam correram para recebê-las. — Vítima masculina. Trauma grave. Nível de consciência em queda. — Vítima feminina. Grávida. A prioridade é salvar o bebê. As duas macas foram imediatamente levadas para direções diferentes. Um policial veio logo atrás, carregando duas carteiras, dois celulares e vários pertences pessoais recuperados do acidente. Ele entregou tudo à funcionária da recepção. — Por favor, registre todos os pertences das vítimas. — Sim, senhor. Enquanto a equipe médica lutava para salvar as vítimas atrás das portas da sala de atendimento, o policial abriu a carteira do homem. Um documento de identidade da Indonésia. Arga Wiryawan. Quarenta e cinco anos. Ele abriu a segunda carteira. Aisyah. Os dois documentos mostravam o mesmo endereço. — Marido e mulher... murmurou. — Senhor. Um funcionário do pronto-socorro aproximou-se. — Há algum familiar com quem possamos entrar em contato? — Estou verificando. O policial ligou um dos celulares recuperados do carro. Felizmente, ele não estava bloqueado. A lista de contatos apareceu. Um nome chamou imediatamente sua atenção. My Little Champion. Ele franziu levemente a testa. O histórico de mensagens indicava uma relação muito próxima. — Provavelmente é da família. Ele apertou imediatamente o botão de chamada. O telefone tocou várias vezes. Clique. — Boa tarde. Uma voz masculina calma atendeu. — Boa tarde. O senhor conhece o proprietário deste telefone? — Claro. É do meu irmão. — Posso saber o nome dele? — Arga Wiryawan. O policial respirou fundo. — Meu nome é Rudi, Oficial da Polícia de Trânsito. O Pak Arga sofreu um acidente de trânsito nesta tarde e neste momento está recebendo atendimento de emergência no hospital. Silêncio. — ...Um acidente? A voz do homem mudou imediatamente. — Sim. — Como está meu irmão? — Ele está em estado crítico. Uma respiração pesada veio do outro lado da linha. — Preciso que o senhor venha imediatamente ao hospital. — Qual hospital, Oficial? O policial informou o nome e o endereço do hospital. — Entendido. Estou saindo agora mesmo. Um instante depois, o homem voltou a falar. — Oficial... — Sim? — Por favor... façam tudo o que puderem para salvar meu irmão. Sua voz começou a tremer. — Não se preocupem com os custos. Eu pagarei tudo. O policial olhou para as portas da sala de atendimento, ainda firmemente fechadas. — Estamos fazendo tudo o que podemos, senhor. Por favor, chegue o mais rápido possível. — Eu vou. A ligação foi encerrada. O policial abaixou lentamente o telefone. Seu olhar voltou às portas da sala de atendimento, que continuavam fechadas. Enquanto isso, do lado de fora, alguém corria contra o tempo para chegar até seu irmão.
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